Entre VULTO. e benji price, eis que surge o promissor xtinto

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Inês Graça

xtinto foi o último MC a ser convocado por VULTO. para um tema solto. Disponibilizado através do Bandcamp, “OUVE” é um breve exercício de egotrip com rimas pontiagudas.

Francisco Santos representa o município de Ourém mas tem-se aproximado cada vez mais da esfera hip hop que reside na capital portuguesa. Com influências que vão de Sam The Kid a Allen Halloween, foi por intermédio de ACC/CDM — o Rimas e Batidas celebrou em 2018 o quinto aniversário do EP de estreia de Tilt — que começou a ganhar a percepção da existência de inúmeras outras formas para se expressar, citando também L-Ali, em “Síndrome de Palíndrome”, durante a troca de mensagens: “Sem remeter o óbvio ao exagero.”

 



Ainda antes da mudança para Lisboa, xtinto afiliou-se ao projecto Andromeda Records. “O momento mais importante da minha fase de maturação”, sublinhou ao ReB. Foi por lá que se estreou na edições, quando se juntou a Dez para desenvolver a mixtape Odisseia — “4’33 à John Cage” é a faixa do alinhamento que tem xtinto a solo nos versos e simultaneamente a mais rodada de todo o projecto. A entrada na Andromeda Records permitiu-lhe também começar a trabalhar com aquele que hoje apelida de “sensei”. Falamos de benji price, actualmente o produtor-chave da Think Music, de ProfJam. “É a pessoa a quem devo mais nesta caminhada.”

Foi o próprio benji quem ajudou xtinto a desenvolver algumas das novas conexões com os artistas de Lisboa. LVIN e Osémio Boémio, ambos da Think Music, foram os produtores escolhidos pelo rapper para iniciar o seu próprio percurso a solo de forma totalmente independente. “Jurássico Barco” e “Opus Magnum” foram as faixas com que xtinto nos brindou este ano, prometendo um terceiro tema — “Quentin Miller” terá um beat de rkeat — a ser lançado “brevemente”. Latência, o primeiro EP a solo, está a ser desenvolvido ao lado de benji e é, para já, a única certeza que tem para 2019.

 



Lembras-te do primeiro som que gravaste? Conta-me como é que tudo começou neste tua caminhada ao microfone.

Não há como escapar à resposta cliché de “tudo começou com uns improvisos” mas foi tão simples quanto isso. O meu primeiro som foi em conjunto com o Dez, gravado de forma bem rudimentar num anexo da casa dele. Nessa altura fazíamos ambos parte de um grupo chamado OC Crew 44, composto também pelo Lopez e o FL.

Tiveste mais influências de dentro ou de fora de Portugal? Consegues lembrar-te que artistas ouvias na altura e quais foram aqueles que te fizeram ter essa vontade de começar a rimar?

Actualmente estou num limbo entre o que se faz cá dentro e o que se faz lá fora, ouço tudo, ainda que seja por uma questão meramente informativa. Mas numa primeira fase interessava-me muito mais por rap tuga. Consumi muito STK, Allen Halloween, Regula, etc. Mas o clique surgiu mesmo com o ACC/CDM. Foi como que uma epifania, que me mostrou que afinal havia outra forma de esgrimir palavras e “sem remeter o óbvio ao exagero”, citando o L-Ali.

Como é que é fazer hip hop em Ourém, tão distante dos grandes centros urbanos como Lisboa e Porto? Sentiste em algum momento que a mudança para a capital teria de ser “obrigatória” para criar um trajecto sólido e deixares de ser um outsider, ou consideras que mesmo os locais mais distantes já abraçam o movimento tal e qual como nas principais cidades?

Senti desde cedo a necessidade de me mover para Lisboa, pela importância que dou ao contacto presencial com o movimento. Em Ourém, esse contacto só era possível quando partilhava cartaz com outros rappers vindos de metrópoles. Dou especial relevância a esse contacto, pela experiência que é conhecer pessoas para além da sua arte e abordar diferentes mentalidades que nos introduzem a novas doutrinas e processos laborais. No entanto, há zonas fora das grandes cidades que sempre tiveram um culto forte de rap, e crescer num ambiente desses é sempre uma mais valia. Ainda que a divulgação seja mais difícil, a cultura está lá. O primeiro contacto mais a fundo que tive com alguém que respirava hip hop foi com o Legalize LA, numa fase em que ele parava na nossa zona, foi sem dúvida uma influência.

Há 2 ou 3 anos estavas ligado ao colectivo Andromeda Records. De que forma é que encaravas o rap na altura e como é que essa fase te influenciou a chegares ao patamar em que te encontras agora?

Encaro a minha “estadia” na Andromeda como o momento mais importante da minha fase de maturação. O tal contacto com outras pessoas do movimento fez-me absorver outras visões que foram lapidando a minha. Foi nessa altura que comecei a trabalhar com o benji, é a pessoa a quem devo mais nesta caminhada e é, aos meus olhos, um sensei.

Foi pela Andromeda que lançaste aquele que julgo ter sido o teu primeiro trabalho longo — a mixtape Odisseia, a par com o Dez, que foi o lançamento mais marcante do catálogo dessa label e também o trabalho que fez com que o teu nome começasse a surgir nos debates de quem seriam os MCs mais promissores do momento. Fala-me dessa fase e da relação que mantinhas com as palavras para formar aqueles versos. O que é te ia na cabeça quando quiseste oferecer a Odisseia ao YouTube?

Eu e o Dez já trabalhávamos juntos e sempre tivemos a ambição de gravar um projecto a meias. Essa oportunidade surgiu quando fomos convidados para fazer parte da Andromeda. A Odisseia é uma mixtape conceptual que metaforiza uma viagem do seu prólogo ao seu epílogo, e foi sem dúvida a partir daí que senti um salto na minha carreira, o tal salto que me permitiu chegar aos ouvidos de pessoas fora de Ourém. Menções honrosas para quem nos ajudou em todo o processo, nomeadamente para o benji, Rui Rosa, André dos Santos, Fella e SPLIT.

A forma de te expressares e as sonoridades que abordas evoluíram, acompanhando a progressão natural que o hip hop tem vindo a atravessar nos últimos anos. O que é que mais te atrai neste momento, tanto na altura em que começas a desenvolver uma letra como quando ouves e escolhes beats?

Acima de tudo gosto de música e se há um instrumental que me apraz, eu abordo-o. Não alimento discussões que só se baseiam em BPMs, senão rimávamos todos com metrónomos.

2018 foi um ano importante para ti, visto que arrancaste com a criação do teu próprio canal e te voltaste a ligar com o público — lançaste o “Jurássico Barco” e o “Opus Magnum” em nome próprio, ambos os temas com produção de nomes associados à Think Music, gravados pelo benji, também da Think. Fala-me da tua ligação à editora liderada pelo Profjam.

Sempre trabalhei com o benji e quando ele entrou na Think Music tive o prazer de criar pontes com o pessoal da label. Em estúdio surgem amizades e dessas amizades surge trabalho em comum. Como referiste o “Jurássico Barco”, produzido pelo LVIN, o “Opus Magnum”, produzido pelo Osémio Boémio, brevemente o “Quentin Miller”, produzido pelo rkeat, e um EP denominado de Latência, que está a ser cozinhado a meias com o benji.

Conseguiste somar um número de reproduções interessantes para um artista 100% independente e presumo que tenhas ficado agradado com o alcance que as faixas tiveram. O que simbolizam o “Jurássico Barco”e o “Opus Magnum” no teu trajecto? Podemos encará-los como uma espécie de aperitivos para algo de maior dimensão em 2019?

Foi, de facto, um feedback inesperado pela positiva, que me deu um boost gigante para continuar a trabalhar. Quanto a 2019, e já confirmado, há o EP com o benji na manga.

Mais recentemente tens estado próximo do universo do VULTO., com quem lançaste a tua última faixa. Presumo que tenha sido uma forma de trabalhar inovadora para ti, já que é hábito dele criar os temas a partir do zero e lado a lado com o MC. Como é se deu esta colaboração e como foi todo o processo de criar uma faixa de raiz com ele?

É um senhor que vive nos meus fones há muito tempo, e quando recebi o convite para trabalhar com ele foi como rabiscar um “certo” numa checklist. É um prazer pra mim laborar com um artista que me diz tanto e que grava constantemente pessoas que, como ele, habitam nos meus fones, como o Tilt, L-Ali, Secta, Jota, Caronte, Pedro Mafama, etc. Quanto ao nosso processo laboral, aconteceu sem forçar o work flow, sempre na base do “temos tempo”, e quando fluir, fluiu.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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