Mayra Andrade // Manga

[TEXTO] Vera Brito

Desde há bastante tempo que Mayra Andrade tem reservado um lugar especial no coração do público português, assim como também tem recolhido muitos afectos além-fronteiras, nesse mundo que foi sempre todo seu, por todos os portos onde a sua vida ancorou e se demorou nestes seus 34 anos. Cuba, Angola, Senegal, Alemanha, Cabo Verde e a longa residência em Paris, que há três anos trocou por Portugal, onde agora parece fincar raízes, atendendo ao chamamento desta “Nova Lisboa”, tão bem retratada por Dino D’Santiago no seu último disco, esta Lisboa contemporânea e misturada que faz, cada vez mais, correr tinta em publicações mundo fora, coleccionando entusiasmos em todas as frentes.

Manga, editado este mês, dificilmente teria acontecido assim como o conhecemos: luminoso, impregnado de cheiros, sabores e vivências que encurtam a distância entre Portugal e Cabo Verde, tivesse Mayra Andrade continuado a viver em Paris. Completamente repartido entre o crioulo e o português (nem a insistência da sua editora, a Sony Music Entertainment, conseguiu convencê-la a incluir temas em francês ou inglês, à semelhança de trabalhos anteriores) e com uma africanidade mais assumida, nos cruzamentos do afrobeat e das mornas e funaná cabo-verdianos, Manga trouxe-nos Mayra Andrade mais crua, mais directa, mais próxima de si mesma e, consequentemente, mais próxima de nós — se até aqui consolidava o amor do seu público, por agora em diante é bem provável que desenfreie paixões arrebatadoras.



Comecemos pela faixa mais apaixonante: “Manga”, que dá nome ao disco e que serve como metáfora para um fruto que pode ser consumido em todos os seus diferentes estágios e, no caso deste álbum, sem qualquer moderação, é como um raio de sol glorioso que irrompe pela manhã, despertando-nos com a languidez doce dos sonhos e, certamente, uma das declarações de amor mais luxuriosas que já ouvimos: “N krê kebra distánsia/ Pa nhas brasu kamba na bo/ Y bu koxa bira di meu/ Bu saliva na nha pé/ Un manga na bu bóka” (“I want to shatter the distance, I want to shatter the distance/ So my arms can reach inside you/ And your thighs become my own/ Your saliva on my feet/ A mango in your mouth”). Até sem entender uma palavra de crioulo e mesmo antes do auxílio da tradução para o inglês, era fácil perceber a sensualidade que transborda em “Manga”, apenas pelo timbre quente da sua interpretação que derrama cada palavra em crioulo sobre nós como uma cera quente e exótica.

Curiosamente, Manga, disco carregado de sentimento e paixão, começa com uma música que fala sobre afectos enviesados (ou a falta deles): “Afeto”, cantada em português, com o seu ritmo alegre e vibrante, quase nos distrai da sua narrativa que reflecte a tristeza e a frustração de uma relação deteriorada, encerrando, ainda assim, com uma nota de esperança: “O amor foi recebido/ Apesar do que tu calas”. Esta dicotomia de sentimentos, alegria e tristeza, percorre o disco, mais evidente na lírica do que na sonoridade, até porque a música cabo-verdiana tem a capacidade de conseguir afugentar a dor com alegria, e quando nos surge “Plena”, já meio álbum percorrido depois da pop contagiante de “Pull Up” nos seus assomos de auto-tune e depois da festa que nos sacode o corpo em “Segredu”, aparece esta faixa que nos desarma por completo. Dilatada e intimista, “Plena” é o momento mais visceral de Manga, onde se sente a cada nota a entrega total de Mayra Andrade, sem constrangimentos ou polimento, abrindo-nos sem pudor uma janela para os seus anseios mais íntimos. Atinge-nos no peito uma angústia que não sabemos ser a sua ou a nossa, por “essas mil coisas que sonhámos”, que não aconteceram.

“Tan Kalakatan”, contribuição do músico cabo-verdiano Princezito, chega de seguida, leve como um bálsamo, soando no refrão a um trava-línguas risonho, pelo menos para quem é leigo em crioulo. Já perto do final do disco encontramos também as composições de Luísa Sobral, para “Terra da Saudade”. inspirada numa obra de Mia Couto, e a de Sara Tavares na doce “Guardar Mais”, onde ninguém fica órfão do embalo “do baloiço da vóvó Eugénia”, capaz de espantar toda a dor. O mesmo se pode dizer para este disco com que Mayra Andrade nos aqueceu o Inverno: “não há dor que lhe resista” e “dá-nos ar para dançar mais”. Manga, mesmo sendo até hoje o seu disco mais despojado, encerra alguns segredos que vão além dos momentos em que nos perdemos na tradução: “tem gota que não cai do céu mas vem do mar/ e há coisas que eu não vou dizer de onde vem”, canta-nos em “Segredu”, e o bom dos segredos é que deixam sempre muitas outras histórias por contar. Que não demorem pois muito tempo a encontrar novo disco e que daqui em diante seja sempre esta a Mayra Andrade que iremos encontrar: plena, misteriosa e suculenta.


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