Sara Tavares: “A periferia só está agora a ocupar o centro da cidade com orgulho”


[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos [FOTOS] Hélder White [VÍDEO] Luis Almeida

Ouvimos Fitxadu já há um ano. Está por todo o lado na rádio, vimo-lo aos olhos do mundo no Festival da Eurovisão — com a música “Ter Peito e Espaço” reinventada por Branko — e agora Sara Tavares está a caminho da gala dos GRAMMYs Latinos. O quarto trabalho da cantora que tem raízes em Cabo Verde está nomeado na categoria Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa. A artista confessa que “estava longe de conseguir essa celebração com este álbum” por o considerar “meio difícil”, feito de forma “livre” e “longe das expectativas dos fãs”. O certo é que pelo menos a nomeação já ninguém lhe tira.

Da “residência artística” de que saiu este disco chegaram as influências electrónicas e hip hopianas que interessam à artista, esse “sabor urbano”, como lhe chama. Kalaf, João Gomes, Loony Johnson, Princesito ou Boddhi Satva são nomes que saltam à vista nos featurings deste Fitxadu. Uma mistura vencedora que alimentou o bichinho que a impele a compor mais, confessa. Numa entrevista balançada ao sabor de uma “Onda de Som” — ou não fosse este o mote de abertura do álbum –, Sara Tavares fala da nomeação, do disco, dos concertos que deu e do que vai fazer com Capicua e Eva RapDiva, do selo que lhe colocaram no mundo da música e, claro, do futuro. Sair dos palcos? “No futuro o que eu quero mais fazer é produzir e compor, mesmo”, garante.

 



Estás nomeada para um Grammy Latino na categoria de “Roots Album” com o Fitxadu. Como é que te sentes em relação a isso?

Fiquei super feliz quando me deram a notícia. Recebi um telefonema da Sony, estava a trabalhar, estava a fazer uma entrevista. Fiquei feliz. Recebi a notícia assim: “parabéns, parabéns”. E eu fiquei à procura de um motivo para me darem os parabéns e disse “muito obrigada, mas eu não sei porque é que me estão a dar os parabéns” e a pessoa do outro lado disse “foste nomeada para um Grammy Latino”. Eu estava longe de conseguir essa celebração com este álbum. Tinha a noção de que era um álbum meio difícil, fiz o álbum meio longe da expectativa dos fãs, fiz mesmo o álbum à vontade, para mim e para os amigos. Quis estar à vontade a fazer o álbum, para as minhas expectativas. Quis fazer um álbum livre! Então é muito engraçado que aquela coisa de fazer um álbum livre e das pessoas gostarem. É um prazer redobrado.

Um álbum “livre” que já fez um ano, a 27 de Outubro. Como é que tem sido este ano de Fitxadu? As reacções e a tua relação neste momento com o álbum?

Tem sido super positiva. Para já, durante a realização do disco tudo foi super bom e super estimulante, foi uma descoberta constante porque eu decidi abrir a minha forma de trabalhar a música, decidi fazer uma espécie de residência artística com este disco.

Primeiro comecei por envolver o Kalaf na pré-produção e comecei a juntar canções, começámos a dizer “vamos fazer um banco de canções”. E eu comecei a convidar não só o Kalaf, mas outros compositores. O Virgílio Varela, o Edu Mundo, o João Pires, o Toty Sa’med, o Dino d’Santiago também compôs, mas não chegou a entrar a música dele. Houve outros compositores. A Aline Frazão compôs, o Paulo Flores compôs para este disco, o Princesito. Primeiro compositores e depois produtores. “Consegues fazer um beat para esta canção ou mostra-me um beat e eu faço uma canção para esse beat“. Fui fazer coisas a vários estúdios. Fui trabalhar com o Loony Johnson que é um produtor que faz essencialmente zouk love. Encontrei-me com o Nelson Freitas, não fez nada directamente, mas indicou-me o Boddhi Satva que é um produtor de afro house e trabalhei com ele para uma música que é o “So Sabi”, mas também trabalhei com o N’Du que é um grande baterista, fiz a pré-produção total do disco todo com ele e com o Manecas Costa que é um músico da Guiné e também trabalhei com ele em composição e em arranjos para o disco. Então foi assim andar de país em país, principalmente Cabo Verde e Lisboa, e de estúdio em estúdio com os discos rígidos e mandar de programas para programas porque cada produtor trabalha com o seu software e com a sua metodologia, uns começam pela letra, outros começam pelo beat, outros começam pela guitarra. Foi uma residência artística verdadeira da qual eu trouxe muita coisa, principalmente conhecer as idiossincrasias de cada ser humano, de cada artista. Houve uma pessoa, conto sempre a história, que evitava a palavra “não” ao escrever então ele dizia “evita durante um dia inteiro dizeres a palavra ‘não'” e de facto foi super interessante, tivemos de fazer a canção sem “não”, que é o “Ter Peito e Espaço”. Experiências assim engraçadas, tu acabas por aprender outras coisas e esse compositor que é o Edu Mundo, que faz parte dos Fogo Fogo, faz parte dos Cordel, levou-me também a trabalhar — fui fazendo ligações, não é? — com o João Gomes. O João Gomes também faz parte dos Fogo Fogo, eu conheço-o há mais de vinte anos e sempre quis trabalhar com ele como teclista porque eu sei que ele faz imensa pesquisa em coisas que têm a ver com a minha matriz, com a música antiga de Cabo Verde — aquelas teclas do funaná e também do semba, aquelas coisas antigas. Então finalmente tive oportunidade de gravar teclas à séria num disco, resolvi dar esse espaço não tanto às guitarras, mas mais às teclas.

Este disco foi sempre feliz. A partir do momento em que passámos para a experiência ao vivo foi pôr esses músicos em palco a curtir todos juntos, a desenvolver a experiência do disco em palco para dar uma experiência ao público e a nós, não estarmos presos dentro da moldura do disco.

A nível sonoro falavas do beat. Normalmente pensamos em Sara Tavares como algo mais acústico, mas falavas em beat. É algo novo que trazes neste álbum? Também trazes as tuas raízes e o teu gosto pelo hip hop — que sei que tens e está na tua adolescência e no teu crescimento como pessoa que ouve música — para este álbum? O sampling, o beat, das raízes do hip hop?

Eu cresci na Margem Sul, andei na escola em Almada, o meu liceu era ali no Pragal. Aparecia lá na escola o Carlão, o Virgul andava lá na escola, na D. António da Costa. A malta do hip hop eu conheci de perto, os Black Company — um dos compositores que fez várias letras comigo neste disco é o Virgílio Varela aka Double que era dos Family, do conhecido disco Rapública. Portanto, nós somos contemporâneos, temos todos a mesma idade, só que eu cantava. Mas a minha lírica está muito parecida com a deles, só que eu faço menos palavras por minuto [risos]. Não tenho os beats, mas sempre ouvi r&b, que é tudo feito muito à base de beats electrónicos. Sempre esteve no meu imaginário, mas talvez por ter um instrumento que é mais humano, é acústico, é orgânico, sempre me liguei mais aos músicos. Mas como ultimamente, na minha pausa sabática, me deu muita vontade de ir dançar e retomei a audição de música pela dança — ia dançar muito afrobeat, muita kizomba — isso mexeu com a minha cintura e tive muito perto também dos Buraka naquela altura porque eles também estavam fora quando eu estava fora, mais ou menos os dez anos em que estive fora eles também estiveram, partilhávamos muitas experiências. “Então como está a correr? Como estão a fazer com os direitos de autor, com os publishing, com os agentes?” Falávamos muito e também partilhávamos maquetes, eu partilhava muito principalmente com o Kalaf. Lembro-me que no “Balancê” eu mostrava-lhe muito os meus sketchs, os meus rascunhos, e ele também me mostrava muitas coisas dele. Fizemos muitas coisas juntos, mentalmente. Então, sempre estive muito próxima da música electrónica, só não a fazia e ganhei gosto por isso. Agora apeteceu-me fazer. Ao fazer música com essas pessoas, ao deixá-las fazer a tal residência artística não ia dizer “não, não metes isso aqui” porque eu não só gosto como me interessa ter esse sabor urbano na minha música.

 



Então para ti não foi estranho ter uma remistura do Branko na “Ter Peito e Espaço” com uma entrada do Plutónio. Como é que isso surgiu e como é que te sentes em relação a isso?

O Plutónio então foi a cereja sobre o bolo. Não foi nada combinado. O Branko primeiro mandou-me uma mensagem a dizer que o disco estava bonito e que estava viciado no “Ter Peito e Espaço”. “Obrigada e tal fico feliz”, vindo dele porque vindo da malta da música electrónica fazer um elogio a este disco eu fiquei super aliviada porque estou a meter-me num mundo que não é o meu. Fiquei contente, sinceramente. E depois ele dar elogio àquela música que acho que tinha passado ao lado de todas as pessoas que eram do métiers electrónico porque era uma música super minimal e mais tranquila, basicamente não tinha beat aquela música sequer. E depois de uns tais meses ele atreveu-se a fazer um mix daquele tema e eu gostei imenso. Ele depois achava que ainda estava fixe, que faltava ali qualquer coisa e o que é que eu achava do Plutónio. E eu disse “adoro o Plutónio, vamos embora”! Depois teve mais tarde aquela ideia de fazer aquele medley para o Festival da Eurovisão que eu achei que também estava muito fixe.

E mostraram aquilo que é cabo-verdiano, que é português, que é um bocadinho moçambicano com o Plutónio, a Portugal e ao mundo…

Sim, que é o nosso Portugal multicultural.

Cada vez mais. E era isso que te ia perguntar, o que é que pensas desse Portugal e dessa nova Lisboa de que agora todos falam? Fazes parte dela como alguém da música e que tem dado corpo e som a isto que se sente.

Eu acho que ela não é nova, só nos faltava o vocabulário maduro para a expressar porque a periferia só está agora a ocupar o centro da cidade com orgulho. Os bairros já foram construídos, já foram destruídos, foram construídos de novo, as habitações sociais. Portanto, esse Portugal de há séculos atrás que já ocupou, que já foram já vieram. Há crioulo nascido da mistura das línguas, há pessoas da minha cor, mulatas, fruto disso, há culturas já nascidas desta mistura. Só falta ocuparem um centro de celebração com orgulho. Os filhos desta história toda serem assumidos e nós também ocuparmos esse sítio, esse lugar com orgulho. É isso que está a acontecer agora, somos felizes com isto.

E sentes-te parte disso?

Eu sinto, na primeira fila a cantar, a dançar e a bater palmas.

 



Costumam arrumar-te na “prateleira”, digamos assim, da world music. É nessa que te enquadras ou achas que há uma categoria que melhor descreve o teu Fitxadu, a tua música?

No princípio quando eu ouvi essa designação, World Music, fiquei super feliz. Ah, então não é jazz, não é funk, não é folclore, não é música tradicional. World Music, uau, é um selo perfeito. Mas depois eu andei a fazer muito esse circuito chamado World Music e apercebi-me que é um pouco um circuito pernicioso. Ou seja, é um circuito principalmente gerido pelo Ocidente, por managers, por editoras, por agências ocidentais que vão buscar cultura ao terceiro mundo e que tem que ser muito roots — pessoas com saias de palha, com tambores, com panos, com instrumentos muito arcaicos — e quando se apresenta uma pessoa tipo um Keziah Jones, que vem da Nigéria, mas que vem com uma guitarra eléctrica e que tem um swag, ele é chutado para canto porque eles não podem ser modernos. No circuito da World Music há a tendência a ser negada a contemporaneidade de um país que vive na mesma no ano de 2018. Inglaterra está no ano 2018, a Noruega está no ano 2018, a América está no ano 2018, mas a Nova Zelândia só pode entrar no ocidente se mostrar a cultura do ano de 1970, tribal. A cultura tribal é a cultura da world music, não é a cultura moderna, não é a cultura contemporânea. É mais fácil entrar um pintor sul africano na cultura ocidental ou um cineasta ou um homem, uma mulher da literatura ou do cinema, mas um músico está logo armado em jazz man, em moderno, e isso é bastante estranho. Ou está a deixar a sua cultura para trás ou não é autêntico. Ouvi muito essa coisa, “mas tu és mesmo autêntica?”. E eu assim “mas o que raio, o que é isso de ser autêntica?” Sou eu, fogo! “Mas os teus pais são cabo-verdianos, mas tu não és cabo-verdiana”. Então agora já não gosto, já não me acho parte dessa sigla, world music, já fiquei a detestar esse selo.

Então qual é o teu selo? Não consideras que tenhas um?

É livre, é Sara Tavares [risos].

Os teus concertos são sobretudo no estrangeiro. É lá que tens o teu público ou Portugal sentia a tua falta e este Fitxadu foi o regresso da Sara para os portugueses?

Este ano dei concertos sobretudo cá, foram mais cá do que lá. Fora fiz poucos, fiz Cabo Verde, Moçambique, fui a Timor, fui a Paris, fui à Polónia, fui a alguns sítios. O plano para o ano é sair mais. Vou agora ao México, fui à Colômbia. Mas este ano foi sobretudo cá, fiz uns festivais muito fixes cá.

O Iminente por exemplo…

O Iminente foi top.

 



Como é que foi em específico o Iminente? Um festival organizado pelo Vhils e que tem tanto hip hop na sua génese.

Estava quente, estava húmido, a banda estava super inspirada. Fizemos muitos pregos no concerto, enganámo-nos muito nos arranjos, mas estávamos muito felizes, muito inspirados. A Marta Ren participou no concerto também, também muito fixe a participação dela. Eu estava super feliz no concerto porque o povo estava lá connosco mesmo em sintonia. Dou poucos concertos em Lisboa então sinto que as pessoas dão o concerto connosco. Às vezes há concertos em que o público não nos merece e o público de Lisboa está sempre acima de nós, o público contribui, contribui, contribui e nós estamos lá a tentar manter o hype e dar, dar, dar. O Iminente foi mesmo top. Parabéns ao Vhils, a toda a equipa. Mesmo todo o ambiente que eles criam, os que vêm antes, os que vão depois, os grafittis, tudo, o que está à volta, a intenção, há uma mensagem no festival.

Já disseste que ias ao México, vais ao México com a Capicua e com a Eva RapDiva. Como é que vai ser juntar estas três mulheres da música tão diferentes?

Bom, ainda vamos ensaiar, portanto o que vai acontecer vai ser uma descoberta mútua. Vai ser uma banda comum, eu vou por acaso com o meu baterista e vamos usar o meu baterista, mas os restantes elementos da banda vão ser os da banda da Capicua porque a Capicua é que está a convidar-nos. E a Capicua está em estado de graça, está grávida, portanto deve estar com um estado de alma diferente. No último ano é que conheci a Capicua melhor, mas agora uma viagem vai ser interessante para nos conhecermos. Conheci há pouco tempo a Eva RapDiva também, é uma miúda cheia de garra, cheia de força — fazer hip hop no meio masculino em Angola é para ter músculos. Então tenho a certeza de que vai uma experiência super fixe. Vamos ensaiar, ensaiar bem, e tentar fazer pelo melhor para nos entrosarmos e fazer coisas bonitas.

E futuro? Um ano de Fitxadu, muitos concertos mais no estrangeiro para o próximo ano. Há aí mais qualquer coisa para aparecer?

Eu continuo a trabalhar. Ainda ontem estive a fazer uma sessão de trabalho com os Bateu Matou, continuo a trabalhar com os produtores com quem trabalhei no disco para fazer mais coisas para o futuro e outros que ando sempre a descobrir, sempre a trabalhar música nova, porque um disco é pouco quando começas a descobrir muita gente para trabalhar, só uma canção é pouco. Eu quero continuar a compor porque quando olhas para compositores como o Chico Buarque, ou como o Carlos Tê… a arte de compor tem muito que se lhe diga e quando se interrompe — terminar um disco é interromper o processo criativo de algo porque depois vais promover o disco, tirar fotos, fazer vídeos, vais viajar e perdes o flow, passas a assumir outra fala, outra dialéctica, estás a explicar o disco — enquanto estás a explicar aquilo que já fizeste não estás centrado no presente. Então eu quero voltar a fechar-me, para a semana vou fazer férias, voltar a fazer aquele processo de Fitxadu, recolher-me e compor. No futuro o que eu quero mais fazer é produzir e compor, mesmo.

Sair dos palcos?

Eu gosto de estar em palco, mas eu gosto de estar em palco assumindo um personagem, mais do que mesmo me dar a mim mesma porque uma pessoa encerra-se muito rapidamente em si próprio. Tu és sempre tu embora tenhas vários estados de espírito e cada dia seja um dia, mas tu és sempre a Sara, tu és sempre tu. Às vezes é um esforço enorme tu conseguires sempre ser a moça de “Coisas Bunitas” ou a moça do “Bom Feeling” ou do “Ponto de Luz” e aquilo às vezes é uma prisão. Se fores mais actor, se conseguires fazer projectos diferentes como o Sam the Kid tem os Orelha Negra, ora produz ora tem o seu próprio projecto Sam the Kid ou como o João Gomes que tem os Fogo Fogo, os Orelha Negra, tem uma série de bandas — deve ser o músico que mais fez parte de bandas — então é muito mais engraçado tu poderes assumir papéis diferentes porque acho que escoas peles e dimensões da tua alma. É isso que eu quero fazer.

 


Alexandra Oliveira Matos

Alexandra Oliveira Matos

Questionar é o verbo pelo qual orienta o olhar. Licenciada em jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, mestre em continuar a aprender.
Alexandra Oliveira Matos