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Fotografia: Moyo Oyelola

A primeira biografia oficial sobre o rapper de Compton já está disponível.

Marcus J. Moore: “Quis explicar o Kendrick Lamar a pessoas que não o conhecem e às gerações futuras”

Fotografia: Moyo Oyelola

Um estouro. No meio do caos, Kendrick Lamar foi até à Casa Branca e tornou-a negra, sua, cativando tudo e todos com um caleidoscópio jazz-rap que estabeleceria um antes e depois — sentimo-lo na altura, entendemo-lo agora, cinco anos depois. O ano era 2015 e, depois do excelente good kidm.A.A.d city, o rapper de Compton era o homem certo, no lugar certo e com a intenção certa.

Actualmente a colaborar mais com o Bandcamp e a revista The Nation, o jornalista musical Marcus J. Moore, um dos mais tarimbados nisto de falar com propriedade sobre música popular e underground, viu isto a acontecer e percebeu que existia um livro ali, fazendo questão de dar flores a quem as merece enquanto a pessoa em questão se encontra entre nós. The Butterfly Effect: How Kendrick Lamar Ignited the Soul of Black America é o seu título, um tratado de escrita concisa, informada e lúdica que deverá (ou deveria…) servir de iniciação para as próximas gerações a um dos maiores artistas a surgir nas últimas décadas, explicando-nos como se tornou naquilo que é e de que forma a América (e a sua esquizofrénica relação com as pessoas negras) o moldou.

Sem entrar no círculo mais próximo de Lamar, falando de amigos próximos ou familiares, Moore traçou o percurso do artista de 33 anos que conseguiu unir as pontas da história da música negra e dar-lhe um cunho seu, a partir do rap, diluindo as noções de tempo que poderiam datar a sua arte. Durante cerca de 40 minutos, o escritor americano (que já tem um livro sobre os De La Soul, High and Rising, apontado para 2022, numa edição da HMH Books & Media) explicou-nos a forma como abordou esta missão, as ligações entre Flying Lotus, o TPAB e o novo jazz britânico, o Pulitzer para DAMN. ou o futuro artístico de K-Dot.



Tens dividido o teu tempo entre Nairobi, no Quénia, e Brooklyn, nos EUA. Tendo em conta que é apontada a importância da passagem de Kendrick pela África do Sul antes de terminar o TPAB, foi relevante estar entre o continente africano e o americano durante a escrita deste livro? Aquela ideia romântica de um afro-americano sentir de maneira diferente o pisar da terra africana é real?

Tu sentes isso, definitivamente. Sentes assim que chegas aqui. E eu não sabia o quanto precisava de estar no Quénia, ou em África, até estar cá. Quando cresces enquanto afro-americano nos Estados Unidos da América, eles tratam África como um sítio onde não podes viver e para onde não deves ir. A narrativa é sempre, “ah, pobre África, eles precisam da nossa ajuda”. Mas tu não percebes até vires para cá que isto é muito mais avançado do que os EUA, em certas coisas. Escrever cerca de 60% do livro a partir daqui ajudou-me, de facto.

Numa entrevista com a Creative Independent dizias que sempre tiveste mais interesse em escrever sobre artistas emergentes do que sobre estrelas como o Kanye West e o Drake. E depois dás o exemplo do Quelle Chris. A minha questão é: para quem andava a fugir dos grandes nomes, acabas por escrever um livro sobre um deles. Para ti, o Kendrick é o artista que está entre o Quelle Chris e o Drake? Ele é a estrela que nunca perdeu ambição artística e que ainda consegue manter algum misticismo?

Sim, absolutamente. Em termos de escrever sobre música, eu ainda sou o tipo que quer falar sobre os artistas que estão a aparecer. Mas também sou jornalista de profissão, e tenho-o sido nos últimos 20 anos, por isso também amo uma boa história. E não há como negar aquilo que o Kendrick fez pela cultura. Apesar de, como argumento no livro, ele ser o melhor rapper da nossa geração, também não posso negar o facto da sua vida dar uma excelente história. E mais pessoas deveriam saber isso. Não havia nenhum livro sobre ele e senti que o que estou a fazer com este livro e o meu próximo livro, que é sobre os De La Soul, é dar às pessoas narrativas que elas não sabem ainda que precisam de ler. Nós não precisamos de outro livro sobre outro nome grande da pop ou outro nome grande do rock, whatever. Existe uma geração de artistas que merecem as suas flores agora e foi por isso que decidi debruçar-me sobre o Kendrick neste meu primeiro livro. 

Imagino que escrever sobre alguém, ainda por cima estando a pessoa em questão ainda viva, seja uma grande responsabilidade. O Kendrick está a par deste livro? Ele recebeu uma cópia?

Ele está completamente a par deste livro. Ele e a TDE estão cientes de que estou a fazer esta biografia. Agora, não ouvi nada do lado deles durante a escrita do livro, mas eles também não me impediram de escrevê-lo. Eu sabia antecipadamente, porque o Kendrick e a TDE são tão reservados, que não ia conseguir falar com eles. Mas eles ficaram na sombra e deixaram-me fazer o que eu faço. Eu acho que quando chegas a esse nível de fama e sucesso tu sabes tudo que está a ser escrito sobre ti — e sabes quem está a escrevê-lo. O facto de eles não terem tentado parar que isto acontecesse, ou que o tentassem mandar abaixo publicamente, mostra que existe algum tipo de respeito. “Bem, vamos lá ver o que é que este gajo consegue fazer”. E eles deixaram-me falar com toda a gente… ou pelo menos não disseram às pessoas para recusarem falar comigo. 

Quando estivermos perto do lançamento, eu vou fazer-lhes chegar uma cópia — se ainda não tiverem uma, na verdade. 

Focando mais na parte técnica de atacar este livro: como é que decidiste o ângulo e como é que abordaste essa tua escolha?

Hum, o que eu quis fazer… bem, vou voltar um bocado atrás. Enquanto jornalista musical, e já o sou há algum tempo, quando estás na indústria musical, tu assumes que o mundo sabe sobre o Kendrick Lamar, Kanye West, Drake e todas estas pessoas. Mas tive de perceber uma coisa: “espera aí, existe um grupo de pessoas que pode nem saber quem é o Kendrick Lamar e que nem sequer sabem a sua história”.

Para responder à tua pergunta, eu decidi dar um passo atrás e quis, em vez de ser apenas eu a escrever “ah, ele é o melhor e acabou”, explicar como é que ele se tornou naquilo que é hoje. Fui saber mais sobre a sua educação a forma como cresceu, mas também a forma como Los Angeles se desenvolveu e os EUA se desenvolveram. Eu quis ir por aí, por isso a minha abordagem foi escrever um livro que espero que ainda seja para esta geração [abraçar]. Mesmo que não faça um grande barulho agora, porque obviamente nos EUA nós temos muito com que lidar actualmente, entre Covid-19, tensões raciais e eleições, quis escrever algo que pudesse ser lido daqui a uns anos como um importante pedaço de história. Eu quis fazer isso, man: explicar o Kendrick a pessoas que não o conhecem (e às gerações futuras), apresentá-las à sua arte, música e forma de pensar. Eu escrevi o livro a pensar no meu afilhado, nas minhas sobrinhas e nos meus sobrinhos.

Acho que fizeste um excelente trabalho, nesse sentido.

Muito obrigado! 

De certeza que tens biografias favoritas sobre músicos. Existiram algumas que serviram de referência?

Sim. Eu sou um grande fã de dois livros em particular. O primeiro livro que me veio à cabeça quando comecei a escrever foi o do Hanif Abdurraqib sobre os A Tribe Called Quest [Go Ahead in the Rain: Notes to A Tribe Called Quest]. Aquilo que eu gosto no livro dele é que é uma biografia dos ATCQ mas não é uma biografia tradicional. Ele fez um trabalho de mestre, conseguindo meter-se no centro da narrativa enquanto manteve Q-Tip, Ali e Phife igualmente na frente, porque, obviamente, o livro é sobre eles. O livro dele está definitivamente no meu top. Também amei o Mo’ Meta Blues, o livro de memórias do Questlove.

Eu amo o fluxo livre que o Questlove e o Hanif têm na sua escrita. No entanto, como sou um fã tão grande de música, e isto pode ir por caminhos estranhos de nerd… eu amo o ritmo de certos álbuns e eu segui mais isso do que propriamente biografias de outros autores que gosto. Os discos que me guiaram foram o Everything’s Fine de Jean Grae & Quelle Chris e o Universal Beings do Makaya MCcraven. Esses foram aqueles que me influenciaram a escrever da forma que escrevi. 

Não podendo falar directamente com o Kendrick, houve algum ângulo que gostavas de ter explorado mais e que tiveste de deixar de fora?

Claro. Eu sabia que não ia poder ser super pessoal. Eu sabia que não podia falar com o Kendrick, por isso também não podia falar com primos em primeiro grau, não podia falar com a parceira, nem com a mãe, nem com o pai. Eu também quis respeitar a sua privacidade — e percebi para onde é que estava a ir. Eu percebi que este era o primeiro livro de sempre sobre o Kendrick Lamar. A sua primeira grande biografia a sair através de uma editora. Eu tive de meter-me na pele dele: “se eu mal tenho 30 anos, e ainda faço música, e um estranho de Nova Iorque [risos] aparece e diz, ‘hey, estou a escrever um livro sobre ti, vamos falar'”, eu também seria apanhado de surpresa, por isso não levei a peito. Quando soube que não ia ter nenhuma dessas pessoas, decidi que este teria que ser um livro sobre a sua música. E obviamente tem aspectos pessoais no livro porque a música dele é muito pessoal e ele teve que ultrapassar certas coisas para se tornar no Kendrick Lamar. 

Eu diria que as narrativas que não tive oportunidade de seguir foram as super pessoais como a sua infância, mas depois uma coisa estranha aconteceu. Enquanto eu estava a escrever o livro e estava a falar com todas estas pessoas diferentes, elas disseram-me as mesmas coisas sobre ele. E eu estou a falar de pessoas que nem sequer se conhecem, tipo o seu professor de escrita criativa e um colaborador qualquer de estúdio. Eles disseram exactamente a mesma coisa. Depois de algum tempo, eu pensei, “seria incrível tê-lo, mas honestamente acho que ele não precisa de estar no livro”.

Eu acho que não falhei um ângulo, mas gostaria de ter histórias engraçadas de quando ele era miúdo. Mas ele talvez esteja a guardar isso para a sua autobiografia. Gostaria muito de ler esse livro.



Tens escrito bastante sobre jazz e rap, e falaste, a certa altura, de como o Kendrick, a comunidade criativa e alternativa negra, o Black Panther e o Insecure estavam todos conectados. Por isso pareces-me a pessoa adequada para responder a esta pergunta: a nova cena jazz britânica está ligada a isto tudo, também?

Sim, acho que sim. Essa é uma excelente questão. Eu acho que elas estão ligadas. Quando pensamos em 2015, o ano em que sai o To Pimp a Butterfly e o The Epic do Kamasi Washington, dois discos que voltaram a tornar popular o jazz… logo depois disso, em Setembro de 2016, tu tens este álbum fantástico de jazz espiritual do Shabaka And The Ancestors [Wisdom of Elders]. Eu sinto, e disse isso ao Shabaka, que para mim esse disco é tão vital e importante como os outros dois que mencionei. Transmite a mesma angústia e o mesmo tipo de problemas pelos quais estávamos a passar nos EUA, apesar de ter sido gravado em Joanesburgo, na África do Sul, que tens os seus próprios problemas.

Por isso sim, respondendo a uma questão muito boa da tua parte, man. Na cena britânica de jazz temos pessoas como o Shabaka, a Nubya Garcia, o Theon Cross, o Moses Boyd, o Joe Armon-Jones, entre muitos outros, e eu sinto que eles estão a fazer exactamente a mesma coisa. Estão a criar música que é tão vital como o jazz americano. Enquanto o jazz americano poderá ter um lado um pouco mais político (e ansioso), eu sinto que o jazz britânico é tão importante porque carrega um sentimento de paz que se calhar o jazz americano não tem. E voltando a falar de uma pessoa que já mencionámos, nós temos o Makaya McCraven, que no seu Universal Beings tem toda a essa gente, Shabaka, Nubya, Brandee Younger, um quem é quem do jazz [moderno].

Sobre dar flores a quem as merece: é mesmo importante não esquecermos todos os músicos que contribuíram para o TPAB, não é?

Absolutamente, man, para mim, pelo menos, quando abri as liner notes do TPAB e vi todos aqueles nomes mencionados, o FlyLo, o Terrace Martin, Glasper e todos os outros… eram pessoas que andavam há muito tempo a fazer música incrível, mas não conseguiam chamar a mesma atenção que o Kendrick até entrarem nesse álbum. Pensa em alguém como o Flying Lotus, eu acho que ele merece crédito por trazer o jazz de volta com o You’re Dead, um disco essencialmente de free jazz. Antes do Kendrick e o Kamasi se assumirem como um monstro de duas cabeças, houve esse trabalho em 2014. Eu acho que não lhe dão o crédito que merece, ainda para mais sendo o primeiro álbum de jazz nesta era moderna. Quer dizer, não me interpretes mal, obviamente existiam outras pessoas a fazer jazz, mas estes eram nomes grandes a criar jazz e de repente o sucesso deles fez com o que jazz voltasse a ser uma cena. E vai dos clubes pequenos aos grandes festivais.

Mas sim, eu acredito que quando olharmos para trás para o To Pimp a Butterfly, e quando olharmos para essa era da música, no geral, vamos ter que rever as criações do Flylo, Thundercat, Terrace e praticamente toda a gente que participou nesse disco enquanto parte de uma espécie de nova vanguarda da música experimental negra. Nesse sentido, também acho importante falar de alguém como a Georgia Anne Muldrown, que andava a criar discos de jazz ainda antes do FlyLo, Kendrick e Kamasi.

Estamos numa altura, e tento fazer isso com este livro, em que é importante dar respeito a quem o merece. Dar as flores às pessoas enquanto elas estão vivas. Eu sinto que esperamos para fazer isso demasiadas vezes. Eu ouço isto muitas vezes, “é demasiado cedo para isto, é demasiado para aquilo”. Não, não é [risos], porque nunca sabes o que vai acontecer, e eu sinto que temos de deixar as pessoas saberem o quão incríveis elas são enquanto cá estão. Não podemos deixar que elas morram e depois dizer que não fizemos o suficiente para celebrá-las. Nós devemos celebrar todos os nomes que mencionaste agora mesmo. Porque não? Eles continuam a fazer grandes discos. E celebrá-los não significa que já acabaram. E essa é outra coisa: se começas a falar de legado enquanto estas pessoas são novas, diz-se logo que estamos a assumir que eles pararam de ser criativos, mas não. É apenas deixá-los saber que o que eles fizeram até agora é viável e importante. Nós vemo-vos. 

A Rolling Stone actualizou recentemente a sua lista de 500 melhores álbuns de sempre, e o To Pimp a Butterfly aparece nos 20 primeiros. Cinco anos depois, acho que já não há grandes dúvidas sobre se o disco é um clássico ou não. Para ti, o que é que o eleva a clássico dos clássicos?

Tu podes encontrar algo novo neste disco cada vez que o tocas. Aquilo que eu amo no Butterfly, no good kid e no DAMN. é que podes lá voltar e ouvir algo completamente diferente. Ouvir uma letra de uma maneira nova. Podes precisar de ficar um pouco mais velho e perceber daquilo que ele está a falar [risos]. Para mim, eu acho que o TPAB é um clássico porque… eu descobri que era um jazz head, por isso cada vez que oiço algo com jazz-estranho-frenético-espiritual estou logo dentro [risos].

Mas também acho que é um clássico porque é muito honesto e ele está a falar a sua verdade. Ele está a falar sobre técnicas de sobrevivência, armadilhas da fama e pagar impostos. Coisas humanas que vão sempre encontrar um espaço no coração das pessoas e que nunca se tornam datadas. É por isso que volto sempre ao disco, mesmo sendo tão denso.

Sei que o teu disco favorito do Kendrick é o TPAB, mas, curiosamente, o que acabou por ganhar o Pulitzer foi o DAMN.. Ficaste surpreendido?

Eu fiquei muito surpreendido [risos]. Lembrei-me logo do TPAB, que foi um momento cultural tão importante, entre o lançamento do álbum durante a revolta em Ferguson e as suas performances dignas de entrar nas listas de melhores de sempre nos GRAMMYs e no programa do Stephen Colbert — e todas aquelas canções que tocou nesses programas e que nem entraram no álbum… eu assumi que esse era o tal para ele, o seu holy grail. Quando o DAMN. ganhou, eu fiquei chocado. Sabendo da forma como eles votam, e o que costumam escolher, fiquei atordoado quando decidiram votar num disco que é puro rap com instrumentais com imponentes 808s, drums massivos e cenas do género. Eu tive que perguntar à Dana Canedy sobre isso e ela disse-me: “bem, sabes, eles decidiram que era o DAMN. porque acharam que não andávamos a dar o mérito que devíamos ao hip hop”. Eu fiquei tão chocado como tu [com esta decisão].

Nos últimos cinco anos, existiram discos que te causaram tanto impacto como o To Pimp a Butterfly?

Sim, man, porra. É uma excelente questão. Quando se escreve sobre tanta música, nós pensamos que estamos sempre preparados para estas perguntas… até as colocarem, e é do tipo, “ó não” [risos]. Eu terei que dizer, e mais uma vez por culpa da minha afinidade com as coisas mais obscuras e underground, o Wisdom of Elders de Shabaka And The Ancestors. Há outro que as pessoas não têm falado muito mas que deviam: Ism do Junius Paul. Também acho que dormiram no álbum da Anna Wise [As If It Were Forever], que saiu no ano passado. Em 2020, há dois em particular: há este artista chamado Pink Siifu-

O álbum NEGRO.

O álbum NEGRO, dude, ó meu deus. Eu nem sei como classificá-lo, mas é incrível. É a energia que precisamos. Também amo aquela banda, os SAULT, principalmente o álbum Black Is. Esses foram aqueles que mexeram comigo desde o TPAB.

Tu, tendo tanto acesso a um círculo mais ou menos próximo do Kendrick, conseguiste perceber o que aí vem? Para onde é que ele vai no próximo disco?

Há uma coisa que eu sei sobre ele: ele ouve. Apesar de ele não dizer nada, ele ouve. Muito. Se tivesse de adivinhar, eu diria que ele vai voltar com algo numa linha mais hardcore de hip hop. Acho que ele vai voltar com algo da linha da Griselda. Ou algo tipo Pink Siifu, uma mistura estranha de punk-rock-rap.

Essa é a cena: pode ir para qualquer um dos lados. Mas acho que ele vai descair mais para algo do estilo Westside Gunn, loops lentos e versos sombrios.


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