LP / Cassete / Digital

Pink Siifu

NEGRO

Field-Left / 2020

Texto de Rui Miguel Abreu

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No próximo mês de Dezembro hão-de completar-se 60 anos (!!) sobre a edição da obra-manifesto Free Jazz, o “improviso colectivo” creditado ao duplo quarteto de Ornette Coleman. Há seis décadas, renegando noções tradicionais de estrutura, harmonia ou tonalidade, o homem que um dia entrou no clube Five Spot de Nova Iorque com um saxofone de plástico e, segundo as vívidas memórias de Miles Davis, “fucked up everybody”, assumiu o acto criativo como um gesto político, de ruptura, declarando a liberdade ao promover o caos absoluto, renegando o estabelecido em favor da aventura da criação pura.

Mais de meio século depois, num país que, como avisou Gil-Scott Heron, não permite que a revolução passe na televisão, as ondas de choque geradas por toda uma história de opressão, pelo aglutinar de forças gerado pelo movimento #BlackLivesMatter, pela estúpida e trágica morte de George Floyd, continuam a sacudir artistas e a apelar à liberdade que por vezes só o ruído absoluto, o caos sonoro pode conter. E tudo tem que acontecer nas ruas.

Em 2020, de acordo com Pink Siifu, essa liberdade absoluta e incondicional alcança-se com uma ácida, abrasiva e violenta mistura de hip hop, punk hardcore e free jazz, tudo cruzado num lamaçal sonoro que soa a vórtice gerado pela velocidade dos tempos correntes. NEGRO é um manifesto duro, o reverso possível para Untitled (Black Is) dos SAULT: onde este encontra clareza na gestão do silêncio e na economia extrema de meios, na harmonia das vozes, aquele prefere o assalto frontal, a barragem sonora, a rajada como estratégia e o grito como libertária expressão da raiva.

Na apresentação do disco lançado no passado mês de Abril no Bandcamp, Siifu explica-se. Mais ou menos: “may Allah continue to blesss and protect u. peace be upon u with love. black be tha god. tke tyme n enjoy. life is short. choas is necessary. u are allowed to be angry. tha balance is needed (sic)”. “A vida é curta. O caos é necessário. Podes estar furioso. O equilíbrio é preciso”. E por isso, em “FK”, sobre uma abrasiva barragem de guitarras que parece ter sido gravada nas entranhas de uma qualquer cidade enquanto à superfície uma multidão protesta, ele grita “they’re trying to kill my n*gger ass”.

Há um manifesto que expande a mensagem-tweet exposta no Bandcamp. Tem por título NEGRO. Aí, Pink Siifu escreve que a negritude é a sua única salvação e aponta a inspiração que lhe foi transmitida pelas vidas e obras de gente como Malcolm X e Sun Ra, June Tyson, Amiri Baraka, Gonjasufi, Zeroh, Slauson Malone, Bad Brains, H09909 e Death. São pontos cardeais no denso labirinto que tece neste álbum com a ajuda de produtores e beatmakers como Jeremiah Jae, Slauson Malone, Psychopop, jive, Roper Williams, Michael Lundy e variados músicos e sobre os quais grita contra a opressão, a injustiça, a polícia. Sobretudo a polícia: “I’d die for my family”, assume ele em “homicide/genocide/ill die” porque, lá está, “they’re trying to kill my family”.

Este não é um disco fácil de ouvir, sobretudo para quem chega aqui sem avisos vindo de Ensley, o seu trabalho de estreia de 2018, ou até Bag Talk, trabalho lançado no final de 2019 e em que divide créditos com Yungmorpheus, discos bem mais melódicos, centrados no lado mais lo-fi do hip hop, mas com cadências reconhecíveis e de fácil “head nodding”, ainda que politicamente tenham já muitas das ideias agora depuradas em NEGRO. A diferença é que o que nesses discos é discurso, aqui é slogan, o que nesses registos resulta de reflexão, aqui é grito incontido, o tal “caos necessário”, a tal “fúria” mais do que justificada. Também há amor, sobretudo pelos irmãos e irmãs que estão consigo na luta, pequenos rasgos de luz na escuridão. Mas o nervo, o clamor, a urgência, a sensação de queda no abismo é o que domina este trabalho.

E, nesse sentido, Pink Siifu oferece-nos um agudo retrato do momento. Retratos são importantes. Se ninguém os fizer, rapidamente esqueceremos os momentos marcantes que nos devem transformar.


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