Para quem acompanha o percurso de Mané Fernandes, o universo sQuigg nunca foi um lugar estático — é antes um território em expansão contínua, onde composição, improvisação e produção se contaminam mutuamente até já não ser possível perceber onde começa uma coisa e acaba a outra.
Depois de ENTER THE sQUIGG (2022), que soava a descoberta em tempo real, surge agora playground_etiQuette: um disco que não só aprofunda essa linguagem como a expõe a novas fricções, novos corpos, novas escutas. Um álbum conceptual não no sentido rígido da palavra, mas como ponto de partida para pôr em diálogo regras, códigos implícitos, liberdade e confronto — tal como num playground de basquetebol de rua ou numa jam session de jazz, onde as “regras não escritas” moldam a experiência tanto quanto as formais.
Gravado maioritariamente ao vivo em estúdio, com menos pós-produção e uma partilha mais evidente das decisões artísticas entre os três elementos nucleares do projecto, este novo trabalho afirma sQuigg como algo cada vez mais colectivo. A guitarra de Mané dilui-se no tecido sonoro, o contrabaixo e os samplers de Luca Curcio ganham centralidade tímbrica, a bateria e os dispositivos electrónicos de Simon Albertsen expandem a noção de groove, enquanto um conjunto muito específico de convidados — do saxofone ao piano, da percussão à voz — entra não como adorno, mas como parte integrante do desenho composicional.
A ideia de playground atravessa todo o disco: um espaço onde a música pode ser elástica, colorida, absurda e sagrada ao mesmo tempo; onde o detalhe minucioso do time feel convive com a estética non-finito de uma beat tape; onde a improvisação não é um momento isolado, mas um ciclo que gera composição, gravação, pós-produção e volta novamente à improvisação.
É este universo que será apresentado ao vivo no Festival Porta-Jazz, num concerto raro que reúne o trio sQuigg com vários dos músicos que participaram no disco — um momento pensado não apenas como apresentação de um álbum, mas como extensão natural desse mesmo playground para o palco.
Na conversa que se segue, Mané Fernandes fala sobre o amadurecimento do projecto, o papel das “regras não escritas” na sua música, a importância da escuta, da imaginação e da coragem criativa, e a forma como este disco marca o início de uma nova possibilidade dentro do mundo sQuigg.
Quando falámos em 2022 sobre o ENTER THE sQUIGG, o projecto ainda parecia uma descoberta em curso. Neste playground_etiQuette, sente-se um sQuigg muito mais afirmado. Em que é que sentes que o projecto mudou — ou amadureceu — entre os dois discos?
A forma como vejo sQuigg é a de um infinito que estou lentamente a destapar e a descobrir. Este novo disco tem algumas coisas em comum e algumas que ainda não tinham sido mostradas, mas que sinto como se já lhe pertencessem desde sempre. Uma diferença grande entre o primeiro disco e este é que este tem um feeling mais live sendo que foi quase todo tocado em estúdio com um pouco menos de pós-produção do que o primeiro. Outra é a de que os deveres de produção foram divididos pelos três sQuigg e não só por mim e pelo Luca como no primeiro disco.
O texto de apresentação da vossa participação no Festival Porta-Jazz fala num “álbum conceptual” e num “universo elástico, colorido e absurdo”. Reconheces-te nesta descrição? O que é que há aqui de conceptual que não estava tão presente no primeiro trabalho?
O “conceptual” é algo que uso muitas vezes para abrir caminho, mas que raramente me interessa como produto final. Ou seja, o propósito de fazer esta música é mesmo só o de a fazer e de que outras pessoas dela possam fruir e não o de descodificar um qualquer conceito a ela inerente. Neste caso está diretamente relacionado com o título playground_etiQuette, que foi a premissa usada para trazer alguma malta convidada para o disco. Sinto alguma relutância em falar disso porque quero, acima de tudo, que a música seja ouvida por si, não como um veículo conceptual. Quanto ao “elástico, colorido e absurdo”, sim. Completamente. sQuigg mantém-se como uma exploração musical do absurdo e do sagrado lado a lado, com uma grande abertura estilística e sónica. O detalhe ínfimo de time feel, ou de voiceleading a coexistir com a estética non-finito de uma beat tape, processada por músicos improvisadores.
O título playground_etiQuette junta a ideia de espaço de jogo com a ideia de regras, comportamento, quase um código de conduta. O que é que este título diz sobre a música que está aqui dentro? E, já agora, há aqui no título alguma referência subtil ao universo do basquete de rua?
Revelando então um pouco mais sobre o conceito por trás do título… Fascina-me bastante como nos playgrounds (no meu caso de basquete) se gera, na prática de modalidades de regras super bem estabelecidas, uma visão própria, expandida ou truncada, dessas mesmas regras, ou até as chamadas unspoken rules que surgem organicamente, e que variam de playground para playground, ou até de era para era. Isto aplica-se até na etiqueta de uma jam de jazz. Acho que há imensa beleza, mas também conflito e confronto nesse fenómeno humano. As And1 Mixtapes da minha adolescência fazem qualquer purista do basquete ficar muito irritado. Mas daquele disregard todo por muitas das regras básicas do basquete, nasceu uma linguagem de movimento, uma forma de expressão artística, com a qual conectei imenso na altura. Tudo isto fez-me pensar sobre as “regras” ou códigos implícitos à forma como escrevo para sQuigg e como trabalhamos esse material, mas também como seria fixe desafiar malta a vir “jogar ao nosso playground” falando ou não desses códigos em antemão, e de sQuigg ir “jogar ao playground” de outra pessoa, sob as mesmas condições. Esta ideia ainda vai ser muito mais explorada no futuro, mas fica este disco como abertura dessa nova possibilidade no projecto.
Fala-se também de um ciclo que se mantém como método: improvisação → composição → gravação → pós-produção → improvisação. Podes explicar como é que este ciclo funcionou concretamente neste disco?
Das minhas improvisações, nascem as ideias de onde parto para escrever. Em estúdio tocamos a partir dessas composições, já com bastante improvisação. Após o estúdio, pós-produzimos e reformulamos o material (considero muitas vezes só aí o fim do processo de composição). Após o primeiro “statement” gravado, é tempo de “remisturar” e “esticar” o material ao vivo. Neste disco, há faixas que são cortadas e editadas a partir de improvisações longas, como a “compota de uva americana” e a “House das Três Marias” que vieram do mesmo take de 40 minutos tocado só pelo trio. “NO PLASTIC HERE” é um segmento cortado a uma composição minha baseada na tradução rítmica feita por Malcolm Braff de um fenómeno matemático chamado “plastic ratio“. Depois de tudo feito, preferi cortar toda a composição e manter um minuto e picos de improvisação dentro desse sistema. No caso de “Liquid Penta”, transformei um jogo de improvisação para guitarra que compus, numa peça para sQuigg+duas vozes, dividindo o material de cada corda da guitarra (aproximadamente) por um instrumento diferente. “continuous:abstract” é a transcrição de duas improvisações minhas, tocadas com vários meses de distancia, mas que pertenciam juntas. Das várias “Lost Vibes” presentes no disco, a primeira, que deu o nome e motivo melódico a todas as outras, foi cortada, deixando só as suas mutações. A ultima faixa, “intuit_out_of_it”, foi extraída de uma improvisação livre com a Susana Santos Silva, que é cortada abruptamente e à qual somámos um outtake do José Soares e do José Diogo Martins em duo para fechar o disco. “bang_bang”, “nirVana” e “cRUSH” são faixas mais convencionalmente compostas, embora “nirVana” seja basicamente a transcrição de um beat que fiz na app Ableton Note numa viagem de comboio, daí talvez “convencional” não seja o melhor termo.
Há três faixas assumidamente improvisadas e outras muito trabalhadas a nível de escrita. O teu processo de composição mudou desde o primeiro disco?
Mantém-se tão caótico quanto sempre foi [risos]. A este disco acrescentei alguns processos composicionais que desenvolvi com o meu disco anterior matriz_motriz ao universo de sQuigg, como se pode ouvir em “Liquid Penta” ou no riff dodecafónico do “Lost Vibes (II)”. Na realidade, não mudou grande coisa na forma como componho.
Uma coisa muito evidente aqui é que este já não soa a “um disco do Mané”, mas a um disco de um colectivo muito específico. Quando estavas a escrever, já tinhas estas pessoas na cabeça?
Procuro sempre escrever para pessoas específicas, aqui não foi excepção. Todas estas faixas foram concebidas para serem tocadas por estas pessoas. Embora o conteúdo composicional e a direcção artística sejam minhas, há uma visão de produção conjunta de sQuigg que enriquece este disco.
A forma como agradeces aos músicos — “imaginação”, “escuta”, “curiosidade”, “cuidado” — quase parece um manifesto sobre o tipo de músicos que queres ao teu lado. Que qualidades procuras hoje nas pessoas com quem tocas, para lá da técnica?
A somar a essas que listaste, diria o ter um ponto-de-vista e a coragem de o perseguir durante uma vida. Rir bué do absurdo da existência, ainda assim amando a vida e sentindo esperança na humanidade. Ter reacções viscerais de head nod intensíssimo à entrada do “So Hardcore” do Busta Rhymes. Essas cenas [risos].
Descreves o Luca e o Simon como “this work we’re building together”. O sQuigg é, neste momento, mais uma banda do que um projecto liderado por ti?
sQuigg é um espaço da minha imaginação alimentado pela enorme relação de irmandade que tenho com o Luca e o Simon. É cada vez mais sobre nós os três do que sobre as minhas especificidades composicionais. Embora estas continuem a surgir e a ter espaço para existir dentro desta banda.
José Soares e José Diogo Martins regressam, mas o contexto sonoro parece diferente. O que é que mudou na forma como escreveste para eles — ou no espaço que lhes deste?
Acho que a principal diferença foi basear este disco mais no som do trio e do trio + convidados. Ao não ter o José Soares e o José Diogo Martins em todas as faixas, os seus contributos ganharam outro valor. “desert_fire” é um exemplo disto. Aquela que ficou a faixa mais “agressiva” e crua do disco, com um solo longo de guitarra, que vai de um groove “quintinado”, “pseudo-gnawa” a um swing pesado a la Trane dos ’60, termina numa improvisação (baseada numa pequena progressão que escrevi) em que o piano e o saxofone abrem um portal para um sítio muito delicado, bem longe de onde o trio estava. É um dos meus momentos preferidos do disco. Tenho muita sorte de trabalhar com o Zé e o José Diogo, dois enormes amigos que deixam o ego de lado quando o assunto é música. Um highlight seria os trades entre guitarra, piano e saxofone na “Lost Vibes (IV)”.
A entrada da voz (Almut Kühne e Mariana Dionísio) e da palavra (Maria Antónia Santos Leite) abre uma dimensão nova no universo do sQuigg. O que é que a música passou a precisar que antes ainda não precisava?
A faixa da Almut e da Mariana (“Liquid Penta”) é um dos exemplos de trazer estas duas vocalistas improvisadoras virtuosíssimas a um jogo rítmico de hocket e depois a um contexto de beat, algo bastante diferente do que cada uma delas costuma fazer. Da nossa parte exigiu a adaptação tímbrica e de densidade natural de tocar nesta formação. Para não falar que esta faixa foi gravada live, na mesma sala, sem separação acústica. As palavras da Maria Antónia (minha querida Mãe) foram acrescentadas em pós-produção. Pedi-lhe que escrevesse qualquer coisa que quisesse dizer ao mundo. Quis dar-lhe um espaço no meu disco para o fazer.
A electrónica e o sampler aparecem distribuídos por vários músicos. Isto foi pensado como expansão tímbrica ou como ferramenta composicional?
Tanto o Simon como o Luca têm um SP-404. Nas duas faixas improvisadas que mencionei antes, o Luca toca synth bass nesse sampler. O Simon usa o SP-404 para controlar uma app de sampler e utilizou-a bastante em estúdio para fazer live sampling a si mesmo. Na faixa “continuous_abstract” e na “intuit_out_of_it” ouve-se isso muito bem. Parte fulcral do som de vários estilos que alimentam esta música é o dos samples, que na sua consistência sónica são uma forma muito directa de criar moods super-específicos, de uma forma que o uso das outras matérias musicais não alcança. Para além da influência composicional da sample based music, como em “cRUSH”, onde a forma como toco o hook principal quase parece um sample, ter a presença de samples de facto, afecta drasticamente a estética do disco de uma forma muito importante para mim.
Este disco parece muito centrado na ideia de “playground” enquanto espaço criativo multidimensional. O que é que, para ti, define um bom playground musical?
O meu primeiro instinto seria dizer um groove fortíssimo (em vários sentidos da palavra “forte”), mas a escuta e assertividade expressiva da Susana Santos Silva na última faixa do disco, por exemplo, é uma outra forma de criar esse espaço multidimensional onde tudo pode caber. Diferentes factores nas diferentes matérias musicais, talvez demasiado nerd para este formato, afetam esse espaço. Haveria muito para dizer do ponto-de-vista harmónico, rítmico e de densidade sónica sobre o assunto. Depende imenso do contexto musical. Em geral, o ter as condições propícias a flow state, alcançando o equilíbrio certo entre o desafiante e o familiar, contribui para que esse espaço possa existir.
Nos agradecimentos falas de artistas que criam “from the heart and without fear”. O que é que, para ti, significa hoje fazer música sem medo?
Há muita música feita por razões de comércio, que se censura ou edita por questões de “leitura”, que se tenta adaptar estilísticamente ao que é socialmente aceitável num dado momento. Também há muita que, ainda que não seja comercial, é feita a partir de um sítio de respeito paralisante por uma tradição ou outra. Tudo isto são formas de medo para mim. Ainda assim, tento fazer música do sítio mais genuíno e vulnerável possível e sinto-me muito grato, como humano, cada vez que ouço alguém que cria a partir desse sítio porque tenho consciência do que pode estar a ser sacrificado para que isso aconteça.
A Porta-Jazz aparece como “fighting the good fight”. Que importância tem, para ti, que este disco saia por esta editora em particular?
O trabalho incessante da Porta-Jazz permite que muita música floresça a partir da cidade do Porto, e que daí se criem muitas ligações com várias cenas musicais da Europa. Foi através das suas ligações com outras associações similares que apresentei matriz_motriz na Finlânda, na Suíça, em vários pontos de Portugal onde seria menos fácil apresentar uma proposta musical como esta. Da programação semanal, com abertura para imensas vertentes estéticas, incluindo um espaço para a jam session tradicional de jazz, aos micro-festivais Eureka onde se promove a experimentação multi-disciplinar e um enorme sentido de comunidade, ao festival anual e os lançamentos do Carimbo. É um contributo enorme para a cultura do nosso país que acontece com o esforço da equipa nuclear da Porta e dos “Portinhas”, membros da casa que voluntariam do seu tempo para que todos estes eventos aconteçam. Achei por bem trazer este projecto para a Porta e dar o meu contributo para a expansão estética e para a crescente qualidade discográfica da Associação que me ajudou a lançar o meu primeiro álbum e a quem devo tantas oportunidades.
Enquanto guitarrista, tens vindo a diluir cada vez mais o papel tradicional do instrumento dentro do sQuigg. Como é que te posicionas hoje dentro do som do grupo?
Essa é a minha postura para a com a música. Eu serei, enquanto guitarrista, tudo que a música precisar que eu seja. Vejo a guitarra como uma mera ferramenta para me expressar musicalmente. Em sQuigg isto revela-se como tocar guitarra tão processada que parece um synth, outras vezes é tocar clean. Às vezes é ser solista e tocar super busy, outras vezes é, como em “NO PLASTIC HERE”, usar processamento para parecer um instrumento de percussão, outras vezes é oferecer o meu melhor som clean de guitarra jazz. Sou tudo o que sou, dentro do que a música pede, sem nenhum outro limite. O que não faço é escrever música para mostrar o que sei fazer na guitarra. A minha música não é sobre guitarra, mesmo.
Olhando para trás, que coisas do ENTER THE sQUIGG sentes que já não farias da mesma forma hoje?
Não mudaria mesmo nada, foi um processo super-completo e honesto com o qual aprendi imenso. Ainda gosto muito desse disco.
O sQuigg é um formato fechado ou um organismo que pode continuar a transformar-se disco após disco?
É a honesta expressão destas três pessoas musicais que são família. Sendo que uma delas se vira para as outras e diz “Can you guys learn this 15 over 4 polyrhythm from this little loop I made on my phone?” [Risos] Qualquer “formato” aparente não é mais que uma casualidade consequente a uma expressão honesta, num dado momento. Por isso é de esperar que a música se mexa, como uma aurora boreal no céu, com vontade própria.
Finalmente, vem aí a estreia do novo trabalho no Festival Porta-Jazz. Como é que preparas um concerto destes?
Tenho que deixar uma quote de um dos meus ídolos, Lee Konitz: “My way of preparation is to not be prepared, and that takes a lot of preparation.” Vamos tocar quase todo o material do disco, contando com o José Soares, o José Diogo Martins e a Almut Kühne, Mariana Dionísio e o Ricardo Coelho como convidados, por isso vai ser um concerto muito especial. Vai ser das poucas oportunidades que vamos ter de ter esta malta toda junta no mesmo concerto, por isso deixo o convite a toda a gente para aparecer dia 6 no Grande Auditório do Rivoli, Porto, pelas 21h30 para celebrarem connosco.