Mac Miller // Circles

[TEXTO] Beatriz Negreiros

Em Setembro de 2018, para choque geral, Mac Miller morreu, vítima de uma overdose acidental e, para trás, deixou uma obra que contava a história de um jovem loucamente criativo que perseguia uma evolução musical que o levou de rapper de hinos de festa para cantautor confessional de estirpe soul e r&b. Circles, o primeiro lançamento póstumo, é a despedida perfeita para uma carreira que foi interrompida demasiado cedo. 

A morte de um músico é sempre um estranho beliscão no coração. A morte de alguém — alguém a sério, alguém que conhecemos — é difícil de digerir; mas a dor é mais fácil de entender. A morte de um ser humano com o qual nunca nos cruzámos, mas que talvez nos tenha feito companhia a partir do palco ou enquanto o escutávamos no carro, no comboio, na cama, no duche, no insuportável volver do dia após dia que se tornava um pouco menos sofrível com aquela voz a pairar no canto dos ouvidos, a morte de alguém assim, dizíamos, é um fenómeno complicado de compreender. Fazer o luto parece ridículo; não somos a sua mãe, o seu irmão, o seu amigo ou namorada. Não sentimos a sua falta com a mesma força. Mas, subitamente, aquela voz que se ia transformando em novas canções, novos concertos, novos discos, cala-se para sempre. E agora é só mais um álbum perdido numa imensa biblioteca de música, sem cara nem corpo físico. 

No caso do músico de Pittsburgh, Pensilvânia, Circles suaviza o processo. Lançado a 17 de Janeiro deste ano, através da Warner Records, não era para ser uma despedida; segundo o seu produtor, Jon Brion (que ficou encarregue de o terminar após a morte de Miller), o sexto LP de uma das vozes mais reconhecíveis do universo rap da década passada tinha sido concebido como o intermédio de uma trilogia que pretendia unir os vários pontos que constituíam a personalidade musical do seu compositor. Primeiro, Swimming, de 2018 — o último disco lançado em vida –, uma moeda de duas faces, que nos mostrou um rapper que escrevia rimas enquanto namoriscava com a canção. Agora, Circles — sequência lógica, “nadar em círculos” — no qual o malogrado MC se entrega de braços abertos ao rótulo de cantor-compositor, com 12 faixas que o aproximam mais de um Mac DeMarco do que de um Meek Mill. Viria, um dia, um álbum de puro rap, um retorno às origens que nos levaram a conhecer pela primeira vez um miúdo branco repleto de tatuagens e de sorriso estampado na cara, endiabrado e bem-disposto, pouco preocupado com regras e burocracias da indústria, que nos ornamentava as festas de secundário com “Donald Trump” ou “Blue Slide Park”? Fosse o que fosse, agora está para sempre destinado a apenas existir nas nossas imaginações. 



Infelizmente, a vida de Mac Miller foi-lhe roubada demasiado cedo, colocando uma barreira de aço no jorrar de ideias que certamente se revelariam com muito mais álbuns que o transformariam em mil e uma novas encarnações da sua personagem original. O que nos resta é Circles. Mas não nos podemos queixar. Lânguido e melancólico, abre-nos a porta para uma mente simultaneamente baralhada e sábia, atormentada pelo peso de fantasmas como a depressão e adição (fantasmas com os quais tantos de nós convivem todo o dia e sobre os quais raramente ganhamos coragem de falar). Mas é simultaneamente uma luz incandescente que nos lembra que a tristeza é uma coisa complicada, e que as pessoas tristes às vezes sorriem.

“Circles” espelha a estrondosa complicação que é estar vivo logo nos seus primeiros segundos em que somos cumprimentados pelo intérprete que nos suspira a partir de um éter desconhecido: “well…” A voz de boca fechada de Miller, doce e frágil como sempre, aconselha-nos a nós e a ele a respirar fundo e a aceitar o quanto mói a rotina, navegando sob os instrumentais suaves de Brion — que, apesar de já ter trabalhado com nomes como Kanye West, aqui nos lembra bem mais um Elliot Smith ou uma Fiona Apple. Esta bizarra similitude aponta com a clareza de um sinal de néon para a impressionante evolução que Miller viveu enquanto músico e produtor desde a sua distante estreia em 2011. 

“Complicated” é um raio de sol de sintetizadores enérgicos que enfeitam mais um desabafo sobre o estado de ansiedade que parece assolar permanentemente o rapper, que aí confessa: “Some people say they want to live forever/ Without any complications/ Does it always gotta, does it always gotta/ Gotta be so complicated?” É a pergunta para a qual nem ele nem nós conseguimos encontrar resposta quando a faixa acaba abruptamente para dar lugar aos coros fantasmagóricos que abrem “Blue World” — que, juntamente com “Woods”, demonstram que Miller, mesmo transformado em cantautor confessional, não resiste a regressar ao microfone armado com as rimas afiadas que fizeram dele um nome a escrever com maiúsculas quando falamos dos últimos anos do hip hop americano. 



“Good News”, peça central de Circles, sumariza na perfeição o sentimento geral que assombra todo o álbum. Mesmo sem saber, o rapper escreveu a mais autêntica carta de despedida que dele se poderia pedir: embrulhado num instrumental moroso cujas ondulações de baixo nos afagam em igual medida as cordas do coração, Miller saltita à beira do precipício, o seu corpo dobrado sob o peso das rotinas, dos telefonemas, dos “como estás?”. Mas, depois, lembra-se: “I haven’t seen the sun in a while/ But I heard that the sky is still blue”. Quando,na metade final da faixa, Miller canta esperançoso: “There’s a whole lot more for me waiting on the other side” (com a força de quem se tenta convencer a toda a força de que é verdade), o seu final trágico é-nos relembrado e a dor que nos invade o peito é difícil de comparar com uma experiência igual ao ouvir uma simples canção. 

Uma das maiores surpresas de Circles, e uma que cimenta a segurança com a qual Miller se assumia mais e mais como um cantautor completo e menos como um singelo rapper chega sob a forma de “Everybody”, versão dolorosamente sincera da canção de Arthur Lee do (quase) mesmo título de 1972. Destaque de igual dimensão é distribuído pelos temas que terminam o círculo final de Miller, desde a deliciosamente pachorrenta “Surf” à faixa que conclui esta viagem do jovem artista, a gentil balada “Once A Day”, na qual este inquire: “I wonder what they know/ I wonder if they ever even cared at all?” 

A dúvida de Miller resolve-se com Circles. Sempre quisemos saber, e o último fôlego cantado de uma vela que deixa de arder de repente relembra-nos da fragilidade da vida. Circles poderia ter sido, como tantos álbuns póstumos, uma tentativa transparente de ganância de editoras, produtores e famílias feias. Mas, ao invés disso, é uma despedida, um fechar definitivo de uma porta que ficara entreaberta desde a morte súbita do rapper em Setembro de 2018. Dizer adeus é difícil, mas Circles une as pontas soltas e facilita o seguir em frente.


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