Loyle Carner: “O hip hop é sobre estar um passo à frente da sociedade e informá-la do que realmente está a acontecer no mundo”

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTO] Pedro Mkk

Soava o sino das duas da manhã quando o avião de Loyle Carner aterrou na capital. Instala-se o crepúsculo quando o rapper oriundo do sul de Londres, acompanhado da sua comitiva, chega aos bastidores do Palco Sagres do NOS Aliveem que actuou nesta quinta-feira. Sem alarido ou burburinho na esplanada exclusiva, o imperturbável Carner — aquele que troca bilhetes para concertos seus por camisolas vintage de futebol (e, quando falámos com ele, ainda não tinha nenhuma de Portugal) — entra com uma bola da selecção portuguesa nos pés e um sorriso simples.

Mas isto é um assunto sério: há dois anos que aguardávamos a sua grande estreia em território nacional, desde que o seu primeiro disco Yesterday’s Gone o catapultou para a proa do boom bap sensível, honesto, terra-a-terra. O seu estilo de marca, a par com a sua recusa veemente do preconceito no hip hop, vai para prolongamento no recém-editado Not Waving, But Drowning. O Rimas e Batidas falou com Carner e fez o ponto de situação.



Este ciclo do novo álbum Not Waving But Drowning chega no rescaldo de uma nomeação para o Mercury Prize e digressões esgotadas pelo globo. Como terá sido a perspectiva do lugar do condutor?

Digo-te uma coisa: é difícil fazer sentido disto quando és tu, porque, não sei, simplesmente sou um gajo tão normal que, quando és tu, é muito difícil perceber o que está a acontecer. Não sei, quase que não percebo o porquê de todo o burburinho, sabes?

Apanhaste-te no meio do frenesim.

Exactamente. Quando estás no olho do furacão, não podes olhar à tua volta, estás demasiado ocupado. Tento o meu melhor para aproveitar tudo, mas toda a gente se esquece de que há a vida real a acontecer em simultâneo. Só porque isto é bom não significa que tudo seja sempre bom.

Não continua a ser um pouco assustador ouvir as multidões a entoar as tuas letras?

É estonteante, porque eu e o meu amigo Chris (Rebel Kleff) fizemos tanta música no quarto dele, e no meu também. Ela passar de ser algo que fazíamos por diversão para ser algo que as pessoas tiram tempo para memorizar…

Não querendo ir por uma via muito pessoal, mas tens falado abertamente sobre o teu défice de atenção e como procuras ser uma referência para miúdos que partilham dessa condição. Acreditas mais nesse superpoder — como o designas — agora que te tornaste um símbolo dele no hip hop? Encontraste alguma vindicação no teu próprio trabalho?

Sim, acho que sim. Penso que me ajudou massivamente a perceber-me a mim mesmo. Mas, à medida que cresci, percebi que não é só o défice de atenção que é o grande superpoder, sabes? É tudo: autismo, dislexia, todas as coisas que vês como um problema são positivas. Porque são essas as coisas que te dão uma nova forma de pensar. Mas sim, para mim, sinto que me deu um propósito, ajudou-me a sentir que parte da minha função é ajudar as pessoas a entender.

Enquanto artista que vive com essa condição, achas que já tinha sido discutida o suficiente?

Não, de todo, não acho que existam pessoas suficientes a falar sobre isso. De onde venho, eu não conhecia nenhuma pessoa que se tivesse mostrado confortável com isso e falado abertamente dos bons e maus bocados.

Como encontras o equilíbrio entre lidar com as tuas questões individuais e ser algo de um porta-voz para quem se identifica contigo?

É difícil, mas é o que é — cada dia é uma batalha para toda a gente: num dia estás a tentar fazer algo por ti, no outro estás a tentar fazer algo por alguém, eu acho que será sempre assim, sabes? Estaria a mentir se dissesse que todos os dias são bons para mim, mas os bons dias excedem os maus, e não era assim antes de eu começar a falar disso.

Foste recentemente entrevistado pelo The Independent, afirmando que preferias ter uma “vida real”, oposta a mulheres e droga sem fim. A vida na estrada, esta digressão ou mesmo este dia — isto é tudo um teste?

Definitivamente. Esse tipo de coisa está sempre lá: há mulheres em todo o lado, há drogas em todo o lado, há bebida em todo o lado, mas o foco é a disciplina. O auto-respeito. Tenho amigos que cresceram e tudo o que queriam fazer era, não sei — tanto raparigas quanto rapazes, ambos a querer dormir com tanta gente quanto possível, a beberem e a drogarem-se tanto quanto conseguiam. Não estão a impressionar ninguém. Aquilo que estão a fazer é a danificarem-se a si mesmos, a sua auto-estima e a sua saúde mental.

Ainda sobre respeito, tens sido muito vocal sobre a tua tolerância zero para violência, homofobia, preconceito nos teus espectáculos — levas com críticas?

Claro que sim, porque se trata de hip hop e há muitos indivíduos que dizem, “yo, ser misógino ou sexista ou homofóbico, isso é hip hop”. Mas isso não é hip hop. Para mim, o hip hop é sobre estar um passo à frente da sociedade e informá-la do que realmente está a acontecer no mundo, como se sentem e como tu te sentes. Isso não tem nada a ver com “bitches and chains“, não foi por essas coisas que me apaixonei.

Como é que isso moldou o teu novo disco?

Acho que é um produto do meu crescimento. Estava muito apaixonado e a vida é boa, pude escrever sobre isso. Acho que é importante falar sobre isso, porque há tantos rappers de que gosto que estão sempre a falar de mulheres, e eu só queria falar sobre uma; mesmo que ela seja irritante às vezes — sempre. [Risos]

Sentiste a pressão para o lançamento desse disco?

Senti a pressão especialmente, e percebo, porque estás num lugar estranho para o segundo disco — as pessoas já te conhecem, não queres fazer tanta coisa nova que isole os fãs antigos, ou voltar ao que já fizeste de forma a não conseguires mais interesse, certo? Portanto, fiquei muito feliz ao perceber que me posicionei no meio, não foi como se o mundo inteiro dissesse, “oh, meu Deus, [o novo disco] é a melhor coisa de sempre”, mas isso significou que eu sabia que ele era verdadeiro. Porque é mesmo uma extensão do primeiro [Yesterday’s Gone]. Mas, na verdade, quem sabe o que farei de seguida?

O título também é muito interessante — como é que o trabalho da Stevie Smith surgiu na tua vida?

O meu avô costumava ler-me poesia da Stevie Smith. Quando estava a pensar naquilo que queria fazer com isto, estava a reflectir sobre a poesia dela e como me fazia sentir. Sempre esteve na minha vida, a partir do meu avô.

Mais cedo, estava a pensar na tua música “NO CD”: já imaginaste que uma geração futura de miúdos poderá encontrar numa loja de discos o Yesterday’s Gone?

Sim, sim, sim…

E também poderá ser história para eles.

Sim, isso é tão interessante. É mesmo. Nunca pensei realmente nisso dessa forma, eu não penso muito sobre pessoas a ouvir a minha música, porque me assusta um pouco, mas espero que sim.

Terás um gostinho disso mais tarde.

É a minha primeira vez por cá. Eu e a minha namorada viemos cá no ano passado para a nossa primeira viagem, foi uma altura especial, portanto eu adoro isto. Já estive em Portugal tantas vezes, mas costumava ir mais a Vilamoura, ao Algarve. Gosto muito. Lisboa… eu acho que, se eu me fosse casar, era aqui que o faria.


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