Loyle Carner // Not Waving, But Drowning

[TEXTO] Miguel Santos 

Há várias razões para prestar atenção a Loyle Carner, a começar pelo nome que escolheu. Nascido Benjamin Gerard Coyle-Larner, o MC trocou as iniciais do seu último nome como uma referência à sua luta com a dislexia e défice de atenção. Mas isso também se aplica à música cerebral que faz. É um honrado discípulo do boom bap — tanto na escolha de batidas como nas suas rimas enciclopédicas — e, apesar da música de Carner não viver só deste género de hip hop, nota-se na sua obra a procura de algo mais orgânico e mais respirável face ao sufoco digital de uma boa parte dos instrumentais actuais. Troca a dormência do trap por uma “perdição” mais social, das pessoas e das suas vivências, demonstrado pelos samples de conversas e momentos mundanos que se ouvem espalhados pelos seus projectos, começando no seu primeiro álbum Yesterday’s Gone — nomeado para o conceituado prémio Mercury — e presentes também em Not Waving, But Drowning, o seu mais recente trabalho.

Há vários pontos-de-interesse no novo disco de Carner, mas comecemos pelo título, que é uma referência ao poema de mesmo nome de Stevie Smith — ouvimos a escritora na faixa-título falar sobre o mesmo. É uma metáfora para aqueles que aparentam estar bem e em paz consigo mas que na verdade se perdem na sua depressão. Ao longo do álbum escutamos músicas que se enquadram nesse conceito: “Still” mostra que apesar do sucesso e da fama Carner continua perdido, recorrendo aos OGs Wu-Tang Clan e a uma interpolação de “C.R.E.A.M.”; “Sail Away Freestyle” fala sobre os perigos do dinheiro com uma primeira estrofe bem cuspida directamente da mente para o microfone; e em “Looking Back”, o rapper pronuncia-se sobre a sua ansiedade em relação à sua herança multirracial, com uma batida triste, um pequeno desabafo rápido com alguma sofreguidão, composto por muitas questões e poucas respostas.



Há várias pessoas que fazem parte do universo do álbum e ajudam Carner a não se afogar nessa existência depressiva que descreve com alguma eloquência. “Dear Jean” abre o álbum com uma mensagem amorosa do rapper para a sua mãe, garantindo que apesar de ter descoberto o amor e de ir sair de casa isso não significa que a relação dos dois vá mudar, algo que a mãe sabe, elucidando-nos sobre a sua visão em “Dear Ben” (“For I’ve gained a daughter/ I’ve not lost a son”). Em “Ice Water”, Carner volta a falar da sua cara-metade com algumas barras curiosas (“One false move and we’re history, call me Mr. Moyer”) e com interpolações de versos do inimitável Raekwon no refrão do tema. “Loose Ends” oferece-nos um refrão absolutamente adorável de Jorja Smith e o rapper londrino num estado de espírito diferente, e mais tranquilo, depois de contar com essa pessoa na sua vida. Em “Krispy”, manifesta-se sobre a sua amizade com Rebel Kleff — artista em destaque na sisuda “You Don’t Know” – e de como as coisas mudaram entre eles, apesar de Carner ansiar pela reconciliação.

Há muitas histórias para contar em Not Waving, But Drowning como descrito em músicas como “Ottolenghi”, em que Carner descreve uma interacção com uma rapariga e a sua mãe que o faz questionar o futuro da menina e o seu próprio futuro enquanto pai, uma música leve e pensativa, ou “Angel”, em que embarcamos numa viagem ao passado mais conturbado do rapper e que infelizmente soa mais a um tema de Tom Misch com uma participação do protagonista do que o contrário. Ainda assim, a escrita de Carner é pertinente e interessante: discute as suas vivências com duas pessoas de quem não gostava e que queria que desaparecessem da sua vida. Mas quando essas pessoas acabam por morrer, Carner percebe que só os queria longe e não extintos da face da Terra, danos colaterais de guerras que se estendem muito para além dele.



Há abordagens interessantes e algumas barras mais perspicazes, mas o problema de Loyle Carner está na sua entrega, desinspirada na maior parte das vezes e inadequada aos instrumentais em que escolhe rimar. “Desoleil (Brilliant Corners)” é aquosa, com um sentido contributo de Sampha, mas a cadência disparada de Carner apressa uma música que merecia outro andamento — é sobre cair nas nuvens abraçado à cara-metade e não sobre saltar de pára-quedas a milhares de metros de altitude. É difícil prestar atenção às palavras do rapper quando a sua voz é praticamente monotónica em todos os momentos do álbum, com barras cuspidas de forma monocórdica que misturam os temas todos num bolo insosso.

Há muitas razões para gostar de Loyle Carner, mas infelizmente em Not Waving, But Drowning essas razões caem por terra. Por muitas coisas que tenha para dizer, a transmissão da mensagem é quase tão importante como o que é dito e, nesse aspecto, Carner não se consegue impor. Tentou repetir as façanhas do seu álbum anterior, mas fê-lo com muito menos vivacidade e versatilidade, acabando por expor da pior maneira as suas próprias limitações.


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