Little Dragon: vamos sonhar acordados?

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

“Sem limites” é o slogan adoptado pelo novo festival ID, expressão que também é válida para definir a matéria de que são compostos os sonhos. Bons ou maus, existe sempre margem de progressão nesse acontecimento imaginário que toma a nossa mente de assalto enquanto dormimos. É essa noção de ausência de limites nas acções, tempo e espaço que tanto seduz e inspira as mentes mais criativas, que muitas vezes recorrem aos sonhos como base para as suas obras. Mas e se o sonho for induzido? E se esse pensamento infindável partir de uma ideia consciente e ponderada? Um sonhar acordado, lá está. É esta a proposta musical dos Little Dragon, um grupo que nos quer transportar para os lugares mais remotos sem que tenhamos de sair do sítio em que nos encontramos.



Embora a sua formação preencha todos os requisitos de uma banda de rock, os Little Dragon assumem-se como um quarteto que explora a música pop com recurso a muita electrónica e uma orientação virada para a cultura do beat. De Gotemburgo, Yukimi Nagano, Erik Bodin, Fredrik Källgren Wallin e Håkan Wirenstrand formaram o grupo ainda durante a década de 90, que numa fase inicial se dedicava ao estudo das canções de outros interpretes através de covers de De La Soul, A Tribe Called Quest ou Alice Coltrane, conforme revelava a Spin, numa introdução ao projecto em 2011. A herança desse cancioneiro afro-americano foi desde logo audível no álbum de apresentação dos Little Dragon, em 2007, repleto de ritmos pulsantes descendentes do funk, adornados com o lado mais cristalino que as melodias jazz e soul podem tomar. A faceta electrónica só se tornaria mais notória no disco seguinte, quando o quarteto se reimaginou na pele de uma máquina e tentou descrever, através de notas musicais, quais seriam os sonhos resultantes do código binário que é transmitido entre os vários circuitos. Machine Dreams foi o álbum que colocou os Little Dragon na principal montra de talentos à escala global, com a crítica a apreciar a nova fase da banda, que mostrou, através de uma perspectiva renovada, um inédito leque influências vindas do rock-pop electrónico movido a sintetizadores e caixas de ritmo dos anos 80.

Também os colegas de profissão dos Little Dragon não deixaram de reparar na forma camaleónica com que a banda se adaptou a dois registos tão distintos num curto espaço de tempo, admiração que se traduziu nos primeiros convites para colaborações com o conjunto sueco. Plastic Beach e The Less You Know, The Better foram discos de Gorillaz e DJ Shadow, respectivamente, que contaram com o input criativo dos Little Dragon no início da presente década, com “Wildfire”, de SBTRKT, a servir como expoente máximo do quão bem pode soar a música do grupo nas mãos de outros produtores. Um dos hinos da música electrónica no Verão de 2011.
Sobre Season High, o mais recente LP dos Little Dragon, que até já se fez ouvir em palcos nacionais, a vocalista Yukimi Nagano descreveu-o à FACT como “uma forma de escapismo”, um conjunto de músicas com o poder de nos “transportar para um outro sitio qualquer”. O álbum apresenta a banda na sua mutação mais orientada para o club, com muitos dos seus principais elementos rítmicos a surgir do universo das batidas que alimentam as pistas de dança, sem nunca renegar o poder das melodias cósmicas e envoltas de misticismo que caracterizam as suas raízes, capazes de nos prender durante horas entre um par de headphones a “sonhar acordados,” como sublinhou Yukimi na mesma entrevista.

Apesar de não existir ainda um sucessor desse disco de 2017, a próxima visita do quarteto a Portugal traz novos temas na bagagem: Lover Chanting foi o EP com que os Little Dragon assinalaram a estreia pela prestigiada Ninja Tune, uma curta compilação de três faixas em que se denota uma nova faceta do grupo, agora mais preocupados em aproximar a sua estética à do house e do techno.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira