Nova Batida’18 – Dia 2: Muita farra, pouco público

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS] Cecile Lopes

Tal como Vera Brito constatou na reportagem do primeiro dia do Nova Batida, era impressionante a quantidade de público estrangeiro — maioritariamente ingleses — com os quais nos cruzámos no Village Underground e LX Factory. Comparativamente à sessão inaugural, o segundo e último dia do novo festival que Lisboa acolheu foi mais fraco a nível de público, conforme revelaram alguns conhecidos que encontrámos no recinto e que tinham marcado presença nos dois dias do evento. Mesmo se esquecermos os números, fica a sensação de que os espaços escolhidos não possuem as dimensões ideais para um festival desta envergadura — principalmente o Village Underground, onde o palco principal apenas suporta umas poucas centenas de pessoas que queiram ver os concertos de frente para os artistas, bem como o palco Club, que, apesar de tudo, nunca viu a sua lotação esgotada, muito por culpa da falta de ar condicionado na sala, que criava uma espécie de calor tropical a condizer com o tipo de batidas que por lá habitaram.

Nem os horários fugiram às complicações: 30 minutos antes da hora anunciada, Skinny Pelembe já se encontrava a embalar os presentes no Main Stage do Village Underground com as suas canções melancólicas e de guitarra ao peito. Fica a sensação de que estivemos perante um digno sucessor de King Krule, tal era o “choro” dessa combinação entre versos e acordes. A entrada precoce do britânico abriu uma brecha para que pudéssemos espreitar um concerto adicional que não fazia parte dos planos mas que já andava a despertar uma certa curiosidade por estas bandas: os GUME fizeram-se apresentar com a formação habitual de Yaw Tembe (trompete e voz), Pedro Monteiro (contrabaixo), Sebastião Bergmann (bateria), André David (guitarra eléctrica), Tiago Fernandes (saxofone alto) e David Menezes (percussão) e primaram pela mescla de sonoridades que imprimiram no disco de estreia Pedra Papel, de 2017. “Paradigma”, faixa que conta com um fraseados corrosivos de guitarra, trompete, saxofone e a ginga verbal do frontman Yaw Tembe, foi um dos momentos altos da actuação.

Depois de food for thought de Skinny Pelembe e dos GUME, seguiu-se o corpo na linha de tratamento: abanámos as ancas ao som das selecções musicais de Peanut Butter Wolf, uma das melhores terapias musicais que conhecemos. As elevadas temperaturas que se faziam sentir no palco Club do Village Underground não facilitaram a tarefa, mas a presença do head honcho da mítica Stones Throw ajudou a suportar as pingas de suor que iam escorrendo com o passar de cada minuto. PBW começou de forma subtil com um par de obscuridades da cena funk norte-americana, delineando a ponte para o que seria uma autêntica block party com um instrumental hip hop de baixa fidelidade. A Tribe Called Quest e Gang Starr foram alguns dos protagonistas dos clássicos que marcavam a diferença na pista de dança, existindo também espaço para faixas mais rebuscadas e originais como “Vapors”, de Big Shots Bonus, EP editado em 2004 e que conta com rimas de Charizma e produção do próprio Peanut Butter Wolf.

A recta final da missão no Nova Batida desenrolou-se numa constante travessia entre o LX Factory e o Village Underground: de um lado tínhamos as actuações dos Little Dragon e Gilles Peterson, do outro RIOT e DJ Marfox reservavam-nos algum do seu precioso tempo para um par de curtas entrevistas que vão sair nas próximas semanas.

Os primeiros a subir ao palco principal do LX Factory foram os Little Dragon, um dos momentos mais aguardados da noite pela comitiva britânica que invadiu Lisboa no passado fim-de-semana. Enquanto a banda se preparava para a actuação, conseguimos dar um pulo à varanda onde estava o belga Lefto a distribuir uma tareia trap com Migos ou Travis Scott a bombar nas colunas. Apesar de mais espaçoso do que o Village Underground, o palco principal do LX Factory deixou a desejar na acústica, com os primeiros minutos da prestação dos Little Dragons a ficar marcada por constantes feedbacks: a voz de Yukimi Nagano ficou, para nossa infelicidade, abafada no meio da fusão entre bateria, baixo e teclas durante todo o concerto. Pontos extra para a banda sueca que, apesar das peripécias técnicas do espaço, não descuidou um único segundo da actuação, presenteando os presentes com uma grande dose de energia musical, especialmente focada em Season High, o último disco que editaram.

Representante máximo das sonoridades globais em Inglaterra, Gilles Peterson apostou na fórmula do disco para manter o espírito de dança até à chegada de Owiny Sigoma, que iria dar por encerrada a última noite do Nova Batida. Melodias para subir o astral e secções rítmicas recheadas de groove e funk foram os condimentos que o palco principal do LX Factory estava a pedir. Não vimos ninguém que se recusasse a abanar o corpo com as selecções de Peterson, que se fez acompanhar em palco pelo MC General Rubbish.

Para terminar em grande, e aproveitando a boleia que nos levava de volta ao Village Underground para conversar com DJ Marfox, deixámos-nos ficar um pouco pelo palco Club. RIOT tinha na mão os quatro naipes do baralho: trap, drum’n’bass, zouk e kuduro não destoaram uma única vez durante o tempo que ainda o conseguimos apanhar atrás dos decks. DJ Marfox, com toda a sua experiência internacional, soube animar o público — àquela hora exclusivamente estrangeiro — com “mambos” quentes: aquela batida lisboeta cheia de swing e tarraxo que já ninguém consegue resistir.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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