Lisb-On’19 — Dia 2: Lisboa também dança ao som de Londres e Ibiza

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS] Lisb-On

Depois de assistirmos à invasão dos mestres de Detroit na capital portuguesa, o segundo dia do Lisb-On estava orientado para as sonoridades que evoluíram directamente da pegada rítmica deixada pela Motor City. Foi no continente europeu que as batidas a altas rotações se fixaram com maior intensidade, mudando para todo o sempre as pistas de dança e o conceito que hoje temos de música de club.

Sem grandes planos, decidimos guiar-nos essencialmente pelo instinto na hora de escolher em que palco ficar, até porque o número de pontos de interesse era mais elevado do que no dia anterior e isso reflectiu-se logo no número de visitantes do festival, que enchiam por completo todos os palcos disponíveis.

Foi já com o calor a desaparecer e após um jantar antecipado que, perto das 19 horas, nos fixámos no Main Stage. Por lá estavam “Little” Louie Vega e Kenny “Dope” Gonzalez, uma dupla de DJs e produtores que tem coleccionado ouvintes por todo o mundo graças à eficiência com que trabalha por cima das faixas criadas por outros artistas. Falamos do processo de remistura, claro, fórmula que acompanhou as duas horas em que os Masters At Work se fizeram ouvir.

Menos rudimentar do que no primeiro dia, o som que saía do palco principal parecia ter apenas um único objectivo: transportar-nos para as quentes e intermináveis noites de Ibiza, onde o swing das batidas passa para segundo plano para oferecer um maior protagonismo às linhas melódicas feitas a partir de sintetizadores. Ouvimos Josh Wink, Harry Romero, Erick Morillo ou o veterano nova-iorquino Kerry Chandler, que ainda no ano passado nos visitou no Jardim Sonoro para uma actuação irrepreensível ao piano. Não faltou, claro, “Ibiza”, um dos clássicos do segmento mainstream da house music para a década passada, aqui adulterada pelas mãos de Vega e Gonzalez.

Felizmente, Já há alguns bons anos que Lisboa deixou de ser palco para meras imitações baratas dos movimentos culturais que se fazem sentir fora de portas e o Lisb-On, como bem sabemos, consegue sempre trazer-nos o real deal. Durante as quatro horas que se seguiram após os Masters At Work abandonarem o palco, Dixon e Solumun, figuras centrais das noites de Ibiza e ambos residentes do mítico Pacha, uniram esforços para uma actuação live em conjunto.

A maratona fez-se sempre entre as várias tonalidades do minimal, marcada por bombos e tarolas na sua máxima saturação a contracenar com o infindável leque de melodias que os dois DJs prepararam para um espectáculo de alto calibre, acompanhado na perfeição pelo jogo de luzes e projecções que adornavam o palco. O público estava em total comunhão com os dois artistas naquele que foi, até agora, o momento mais bonito da edição deste ano do certame — aplausos, assobios constantes e a multidão imersa numa dança que só terminaria na madrugada seguinte.

Já perto da meia noite, a fórmula utilizada por Dixon e Solomun começa a soar-nos monótona e os BPMs tardam em aumentar para que o corpo lhes responda com movimentos ainda mais animados. A salvação estava bem perto: na “casa da árvore” do Lisb-On era a vez de Craig Richards impor a sua lei, ele que é um dos DJs mais consagrados da cena de dança underground londrina, antigo residente do Fabric e um dos nomes com maior presença nas várias séries de compilações que o clube britânico tem vindo a curar.

A barba e o cabelo já tingidos de branco fazem-nos rapidamente associá-lo àquela ideia de “velha raposa”, que não tem quaisquer segredos com a pista de dança e sabe perfeitamente como manusear as batidas para que a simbiose entre a música e o público seja total. A idade e o conhecimento que tem de todo o movimento que acontece no subsolo europeu — que tem Londres e Berlim como principais focos — auferem-lhe uma quantidade impressionante de trunfos, variações rítmicas neuróticas que nos prenderam durante o resto da noite, enquanto nos deliciávamos a vê-lo com a maior das calmas a procurar LPs na mala e a escolher meticulosamente em que ranhura pousava a agulha do gira-discos, um comportamento clássico — e cada vez mais raro nos dias que correm — mas que não descura em nada a sonoridade moderna que tinha para nos apresentar no encerramento do segundo dia do Lisb-On.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira