Lisb-On’19 — Dia 1: Parque Eduardo VII virou Detroit

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS] Lisb-On

A chegada do Lisb-On é sempre um acontecimento marcante na capital portuguesa. Delimitado por uma vedação metálica, uma porção do gigante Parque Eduardo VII transforma-se numa autêntica feira da electrónica, com três palcos dedicados a actuações musicais e um sem número de barraquinhas, onde podemos abastecer-nos de comida e álcool, mas também de desfrutar das habituais campanhas de marketing de que são alvo os festivais desta dimensão, com brindes, espreguiçadeiras e puffs ou até mesmo um barbeiro à mercê dos visitantes.

Não só por culpa do próprio espaço que habita durante estes três dias, o Lisb-On é também um dos eventos dedicados à música mais verdes que podemos encontrar no coração da metrópole. Além do extenso tapete e das árvores — que durante a tarde nos patrocinaram um bom número de abençoadas sombras — há ainda o habitual arranjo floral que cobre a mesa dos DJs, numa espécie de altar do techno, bem como dois painéis, um de cada lado, forrados de vegetação e onde se destacam os três círculos que são o logótipo do festival, pintados a branco e que, já depois da noite cobrir o céu, serve de base para algumas das projecções que operam sobre o palco principal, no mínimo deliciosas.

O calor decidiu regressar a Lisboa agora que nos encontramos na recta final do Verão e, curiosamente, a edição deste ano do certame funciona apenas até à meia-noite, o que fez com que as actuações, até mesmo as dos nomes mais sonantes, tivessem início muito mais cedo do que aquela que é a hora mais “apropriada” para este tipo de acontecimentos. Ainda assim, Moodymann não se pôde queixar, já que tinha uma plateia bastante composta à sua frente antes do bater das 18 horas, naquela que era a primeira de três pegadas que Detroit viria a deixar no emblemático jardim da nossa capital.

Produtor de mão cheia, Kenneth Dixon Jr. goza também do estatuto de um dos DJs mais ecléticos do planeta, conhecido por levantar bem alto a bandeira do techno, que a sua cidade fez nascer, mas sem nunca descurar a vertente mais melódica do género, e não esquecendo nunca as suas raízes musicais, intervalando o lado electrónico do seu set com algumas das pérolas do cancioneiro afro-americano, com especial destaque para a soul e o funk.

Há uma aura de mistério que sempre pairou sobre Moodymann, algo que se nota ainda mais em palco graças à máscara de renda negra que lhe cobre o rosto. Mas toda esta ideia cai por terra sempre que o apanhamos ao vivo, já que o autor de temas como “Lyk U Use 2”, “Got Me Coming Back Rite Now” ou “I’m Doing Fine” é um daqueles casos raros, entre os DJs mais consagrados, que assume também o papel de mestre de cerimónias. Sempre bem disposto, Moodymann nunca deixou de esboçar um sorriso mesmo quando a agulha do gira-discos lhe falhou — “Obviamente que este gajo está a tocar com vinil. Trouxe os discos do meu pai. Alguns de James Brown e outras merdas assim”, disse enquanto o técnico lhe resolvia o problema. Entre canções de Earth, Wind and Fire, Fleetwood Mac, Bobby Womack ou Tim Deluxe, Kenneth Dixon Jr. admitiu que muito provavelmente não iria ser o “DJ favorito do público” no primeiro dia do Lisb-On, talvez por o seu som destoar dos nomes que se seguiriam no mesmo palco, embora as reacções do público — que até entoou bem alto alguns dos refrões mais conhecidos — dessem a perceber que aquelas eram precisamente as vibrações certas para um fim de tarde em Lisboa. De qualquer das formas, Moodymann avisou várias vezes que ia ser o “bartender favorito do dia,” sem conseguirmos realmente perceber porquê. A explicação chegou no final do set, com o músico a partilhar as sobras de Grey Goose com aqueles que mais se aproximaram do palco para o cumprimentar à saída.



“Detroit invade Lisboa”, ronda 2: os irmãos Lenny e Lawrence subiram ao palco por volta das 19 horas para representar aquele que sem sido uma espécie de negócio de família — os Octave One. Produto de uma segunda vaga de artistas que decidiram explorar os caminhos do techno — seguindo os passos de gente como Derrick May, Juan Atkins e Kevin Saunderson — a dupla apresentou-se junto de uma verdadeira linha de montagem, trocando os habituais computadores ou CDJs por cerca de uma dezena de máquinas, que iriam servir para montar alguns dos seus próprios temas — não nos faltou o clássico “Blackwater” — mas também para adulterar algumas das obras de outros artistas que pairam no seu universo, revelando sempre uma atracção pelo lado mais pesado da música electrónica, a roçar mesmo o industrial. Lenny foi sempre o mais activo no operar de toda aquela maquinaria, com Lawrence mais discreto, de tronco estático enquanto ajustava pelo mixer e movendo a cabeça ao ritmo dos sucessivos e enérgicos four-on-the-floor.

Para fechar as contas na invasão da Motor City à capital portuguesa estava Carl Craig, também ele um dos descendentes directos da “santíssima trindade” do techno. Quebrando o momento selvático protagonizado pelos Octave One, Craig optou sempre por nos oferecer o seu ponto-de-vista — mais cerebral; quase hipnótico — da música que ilumina as pistas de dança. Ouviram-se temas de Michael Mayer, Frank Martiniq ou Gene Farris, mas a sua versatilidade e noção de combinações musicais fê-lo percorrer trilhos que foram dar a DJ Koze, Sophie Lloyd ou até aos New Order.

Uma das mais belas formas de arrancar com um festival de música electrónica, com uma clara homenagem à cidade que fez nascer o techno, o género que se tornou vital para a cena clubbing um pouco por todo o mundo. Moodymann fez sempre questão de avisar o público em cada pausa para falar que, a seguir a ele, viriam ainda os Octave One e Carl Craig, enquanto exibia a sua t-shirt com o nome “Detroit” estampado. Durante o set de Carl Craig não faltaram também várias menções ao berço da cultura que é hoje abraçada no mundo inteiro.

Exemplo disso é Marcel Dettmann, DJ e produtor alemão com mais de duas décadas de carreira e que teve de absorver essas bases vindas de Detroit para aplicar um corte mais contemporâneo à sonoridade que tanto se celebra dentro do recinto do Lisb-On. O homem que conta com residências em clubes como o mítico Berghain e tem estado associado à loja de discos Hard Wax fez valer todo o seu currículo ao curar um set repleto de talento, proveniente de alguns dos mais hábeis produtores emergentes na sempre fértil cena europeia do techno.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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