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Keso: “Chegar a adulto foi pesado”

[TEXTO] Bruno Martins [FOTOS] André Henriques

Mesmo com o ano a meio já é seguro para nós dizer que KSX2016 é um dos grandes lançamentos do ano. Marcou o regresso à cena de Keso, rapper da velha escola do Porto ainda que não seja da mesma geração de outros decanos – simplesmente começou mais cedo. Um regresso sem estouros, mas que era assim que teria de ser. KSX2016 é uma obra que reergue o artista, que o volta a pôr de pé. E nem por um momento Marco Ferreira hesita em pensar que não havia volta a dar: tinha que parar e reflectir para depois poder contar.

Nesta entrevista ao Rimas e Batidas, em que Keso fala da sua experiência de viver cinco anos em Londres (a entrevista foi gravada antes de acontecer o referendo inglês ao “Brexit”) e do seu necessário regresso a casa, e descreve o disco, carinhosamente, como sendo um “gatafunho”. Se calhar, dizemos nós, é antes um “pôr os papéis em ordem”. Diz-nos que os discos não salvam vidas, mas KSX2016 teve o condão de servir como um alerta: se não te pões a pau, não vai haver ninguém para salvar. “Todos nós estamos sozinhos no mundo, independentemente de termos os pais por perto. Convém é abrir a pestana e não andarmos a calcar-nos uns aos outros.”

 


A capa de KSX2016 vem com a imagem de uma MPC, em terracota, moldada à mão por ti. A máquina é também uma figura central deste álbum – a tua primeira experiência a produzir um disco com MPC.

Não é a primeira experiência porque já tinha feito um instrumental para o Minus com a MPC dele. Sempre desejei muito ter uma pedi-lhe para experimentar – fiz um instrumental para a faixa “Oportunidades”.

É muito diferente fazer um disco em MPC?

É. E muito necessário – então para quem faz música e que não toca instrumentos. Só ficamos focados no que estamos a tocar: não se vê nada, só se ouve. É o que se ouve, o que se sampla, conheça-se ou não as notas. Tocas as coisas como se fosse um instrumento qualquer!

Criaste as tuas primeiras faixas quando tinhas 13 anos. Em 2012 lançaste O Revólver Entre as Flores.

Sim, mas foi gravado em 2009, aqui em Lisboa. No Saldanha.

E três anos depois chega-nos este KSX2016

… este gatafunho.

Gatafunho porquê?

Tudo é processo criativo. Somos sempre nós no nosso lazer, na nossa vontade de sermos criativos, expressivos e chá-lá-lá-lá… mas este disco foi muito simples. Aqui foi experimentar a MPC, criar os instrumentais da forma mais natural possível porque queria fazer algo que era importante para mim. Eu tinha-me perdido completamente de mim próprio no sentido em que tinha estado cinco anos a trabalhar sem parar, sem férias, sem fazer algo que gostasse… e apercebi-me que não estava a levar a vida que queria. O disco foi uma espécie de reencontro comigo. A fechar-me no mesmo quarto em que me fechei há 10 ou 12 anos…

E isso não é a expressão completa de um artista? Despir-se por completo de preconceitos e entregar-se à criação?

Sim, talvez seja. É como ser criança outra vez! Voltar a ser um poeta – como dizia o Agostinho da Silva: todos devemos ser crianças, poetas e sonhadores. Eu foi aos 28 que decidi ter essa paragem. Talvez seja mesmo a chamada crise dos 28, identificada pelos psicólogos, que é o período da pós-entrada no mercado de trabalho, que é quando questionas, pela primeira vez, em força, aquilo que estás a fazer. Se calhar essa crise está neste imbróglio de ideias.

É voltar a ser criança, mas a falar de assuntos de crescidos: as lutas de uma vida adulta, a imigração, as dúvidas, o emprego, a família… E o período em que viveste em Londres.

É um disco muito político, social. Quem conhece aquilo que eu faço sabe tento sempre caricaturar e fazer as coisas de uma forma mais irónica. As duas primeiras faixas são dramáticas e claras: falam da minha situação de desespero com a situação no mercado de trabalho, não conseguir uma situação laboral minimamente decente, a saltitar de contrato de trabalho em contrato de trabalho – em que associo a nova ideia do empreendedorismo, e isso dava uma conversa muito longa. A segunda faixa é sobre a minha experiência de Londres, numa análise à minha vida na metrópole que mostra que não há muita diferença entre viver num sítio ou no outro, isto no que diz respeito a questões de trabalho, de mercado ou aspectos financeiros. A diferença está na parte da família, dos valores da nossa língua, que é tudo isso que às vezes não é palpável, mas que são as coisas mais importantes da nossa. Depois, a terceira faixa, “Rooftops”, já é um bocado o “back in the days” que apresenta quem eu sou, o que faço e de onde venho… e vai por aí fora.

O disco começou a ser construído ainda em Londres?

Não.

O processo criativo acabou por ser um “throwback”, também.

Sim, uma reflexão. Por isso é que eu trato o disco como um “rascunho”. Não é algo onde eu ponho tudo – nem de perto nem de longe. Um ano depois de regressar de Londres parece que as coisas ainda estão piores aqui: há mais gente a pensar ir para fora, já se começa a ver os jovens a pensar em ir para fora, já se começa a ver os jovens a ir para a faculdade com a ideia de se instruírem para serem “exportados”. As pessoas já nem projectam o seu futuro aqui! São questões muito presentes e que só não vê quem não quer. O turismo – que só não vê quem não quer, em que de repente andamos aqui a ceder o nosso espaço a pessoas que só trazem dinheiro e lixo. Isto dava pano para mangas.

 


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“No meu gueto, pelo menos, ainda sou alguém”


Porque é que voltaste de Londres?

Por aquilo que digo em “BruceGrove”: Londres é uma cidade com enormes problemas ao nível socioeconómico, é super neoliberal, e as pessoas sofrem as consequências disso. No caso de jovens emigrantes com cursos artísticos ou hotelaria, por exemplo, são jogados numa amálgama que é o ‘backoffice’ da cidade. Tu nem sequer vives a cidade ou aquilo que é o país. Anda-se ali na parte de trás de qualquer coisa e nunca chegas a ser um cidadão.

“Saí de um gueto para entrar num gueto”, como cantas na faixa de abertura.

E é isso. Só que no meu gueto, pelo menos, ainda sou alguém. Tenho família, amigos, as pessoas sabem o meu nome, eu respeito-as, elas respeitam-me. Temos histórias em comum. Se for preciso alguma coisa, as pessoas estão lá. Falamos a mesma língua e trocamos ideias sobre aquilo que nos é comum.

Foi preciso voltar a casa, para o conforto, para escreveres sobre o desconforto que viveste?

Claro que sim. O retiro que fiz – de quase três meses – só foi possível com o apoio da minha família e amigos, se não não dava. Ou continuava a trabalhar, batia em alguém e era despedido e arranjava outro trabalho – e ia passar a vida nisto ou acabava num hospício. Consegui viver esses três meses com alguma tranquilidade e isso ajudou-me muito – perto da minha família, dos meus amigos, no bairro onde nasci, com vidas simples e modestas.

 


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“Até ao final do ano ainda vai sair um disco de remisturas – com cada faixa a ser reinterpretada por um produtor diferente”


Dizes que este KSX2016 é um rascunho. Já sabes o que gostarias de fazer depois disto? Fazer algo a que pudesses chamar de obra completa?

Eu até já andava com projectos para este ano… mas vou deixar respirar o disco. Até ao final do ano ainda vai sair um disco de remisturas – com cada faixa a ser reinterpretada por um produtor diferente. Mas tenho muita vontade de fazer mais: até porque há que ter em conta que este disco foi feito à parte dos cinco anos de música que eu perdi. A única faixa que sobreviveu foi a faixa-bónus – que só está no disco físico. Essa faixa, “O Medo”, é a cara daquilo que eu estava a fazer e que posso vir a fazer. O ambiente é mais negro, mais conceptual no sentido dos drums, melodias mais profundas, em que não há a métrica normal do rap.

Sei que és amigo do Nerve há já um bom par de anos, desde que moraste aqui em Lisboa, e que respeitam-se muito enquanto rappers. E são dois estilos diferentes dentro do amplo universo do hip hop português, mas com um traço muito particular e comum, sobretudo nos vossos dois últimos discos: o de serem mais virados para dentro.

Sim, mas atenção que eu tenho muito da outra parte do lado mais festivo do hip hop. Tenho-a porque não a posso negar porque nasci aí. Nasço do rap do Porto, do início da década de 2000. Tenho faixas de “pump it up, braços no ar e vambora”, claramente de celebração. E acho que vou ter sempre. Isso também funciona muito bem. Não se trata de serem altos e baixos. Quando apresentei o KSX2016, pela primeira vez, aconteceu algo que nunca me tinha acontecido: eu a tocar num profundo silêncio. Pensei que as pessoas nem sequer estavam a gostar! “O que é que eu vim aqui fazer?”, pensava. Só no fim, e passado uns dias, é que percebi que é possível fazer com que as pessoas estejam a sentir-se numa sala de espectáculos, a observar um cantor – um fadista, por exemplo, que tem que ser sentido, escutado e a chorar com ele, como a seguir também temos de nos agarrar e celebrar com ele.

Identificas-te, de alguma forma, com esse lado mais íntimo, cru, despido e sentido dos fadistas?

Claro! O meu pai fazia stand-up comedy, imitações há muitos anos. Perdeu a oportunidade dele quando casou com a minha mãe: teve convites para vir trabalhar em televisão com o Óscar Branco. Na altura, pelo casamento e valores de família, acabou por ficar por lá. Mas é normal, de lés a lés, acabar as noites com o meu pai com uma grande bebedeira a fazer sessões de karaoke de fado! Ele ama o fado. Não é fadista porque a carreira dele é de hotelaria, mas podia perfeitamente ter-se dedicado. Canta o “Povo Que Lavas No Rio” de uma forma… dói na alma. Eu sou muito português. Fui educado pelo rap, nunca fiz outro género e foi sempre o que ouvi. Mesmo não sendo o que ouço mais – e assumo sempre isso – os grupos de rap foram os meus pais, as minhas amas. São um pilar da minha vida.

Bandas e grupos portugueses?

Não. Maioritariamente franceses. Alguns americanos, também.

 


Keso © André Henriques

“Fui educado pelo rap, nunca fiz outro género e foi sempre o que ouvi. Mesmo não sendo o que ouço mais – e assumo sempre isso – os grupos de rap foram os meus pais, as minhas amas. São um pilar da minha vida.”


Quando dizes que és da escola do rap do Porto, o que quer isso dizer? És mais da cidade ou mais da música?

São coisas que não andam separadas. Vejo os Dealema como cara do Porto. Há faixas, e um género, que é muito marcante. Os Dealema demoraram sete anos a fazer o primeiro disco, o que é muito interessante numa banda que já tinha nome, que já toda a gente conhecia. Faixas como “Dealema S.A.”, “Bloco 24”, “Expresso do Submundo” ou as participações nas mixtapes do Cruzfader… aquilo era a cara do rap do Porto! Eram um estandarte. É essa a escola do hip hop do Porto de que eu falo.

Quando falas da escola do hip hop, falas também da tua ligação ao graffiti.

Que foi por aí que comecei! Em 1998 estava em Genebra, na Suíça, e já pintava. Era mesmo novinho.

Andar a pintar paredes faz os writers sentir as cidades de forma diferente dos normais transeuntes?

Como sabes, o Porto não é muito grande, mas eu sou mesmo do Porto. Com seis ou sete anos ia para o rio tomar banho. Educado e criado no Estádio das Antas (risos). No graffiti, e no rap também, há muito pouca gente nativa do centro. Cresci no centro, mas já não era uma zona muito habitada, tirando os bairros sociais. Se calhar também há esse sentido de autenticidade, porque tudo o que acontecia no rap e no graffiti, na altura e na maioria, vinha dos subúrbios.

E o Porto marca muito o tom e os ambientes deste KSX2016.

N’O Revólver Entre as Flores estava mais afastado. Vivi em Lisboa cinco anos e, embora fosse quase todos os fins-de-semana ao Porto, o disco foi todo feito cá com as pessoas que não faziam ideia do que era o Porto. Foi quando conheci o Nerve, o [Sir] Scratch, o Kacetado, Bob [da Rage Sense]… malta incrível. Pessoal inspirador. Este disco foi regressar ao Porto: perceber quem sou, onde estou e porquê.

Como é que olhas hoje para o Porto? Fazem-se muitos elogios à cidade. Diz-se que tem sabido crescer, com grande enfoque no lado mais cultural.

Não cresceu muito bem. Nem culturalmente nem de outra forma qualquer. O Porto está com os mesmos problemas que outras grandes cidades. Mas Lisboa é uma cidade mais experiente – este processo pelo qual o Porto está a passar, Lisboa já passou há 20 anos ou mais. Há 500 anos já era o centro do mundo. O Porto abriu a porta aos investimentos, à Ryanair… na realidade o que se vê é um investimento hoteleiro e não cultural. Nem tínhamos política cultural com o Rui Rio. O último grande investimento cultural foi a Casa da Música, que representa o quê para a cidade? Há muito turismo, muita hotelaria, famílias e meninos que herdaram edifícios e têm uma oportunidade de renovar os edifícios e arrendar a turistas… Continuo sem ver grande futuro para a cidade.

 


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“Convém é abrir a pestana e não andarmos a calcar-nos uns aos outros. É melhor sermos honestos, ajudar-nos e pararem de olhar para o umbigo. Acho que a mensagem do disco também é essa”


Aquele retiro que fizeste no regresso de Londres, mudou-te de que forma? Tornou-te num homem mais confiante ou mais realista?

Há um dito interessante que diz: “A consciência torna-nos cobardes.” Eu era um gajo de uma coragem e atrevimento incríveis. Continuo sem ter medo de nada em situações mais radicais, mas estou muito pouco confiante. Chegar a adulto foi pesado. Hoje tento balancear as coisas de forma a conseguir ser adulto, responsável e consciente e ao mesmo tempo conseguir viver relaxado, mas é um bocado impossível.

Então és mais realista.

Muito mais. Mais consciente. Muitas vezes damos roupagens a nós próprios – queremos parecer outra coisa que não somos. Mas o meu dia-a-dia é passado em reflexão. E eu, que sou muito virado para dentro, não perco o fio à meada.

Os discos são capazes de salvar vida?

Não! Quem salva vidas é o INEM! Já tenho ouvido muitas pessoas a dizer que salvam vidas com a música deles – epá, parabéns! Mas isto não é disco para salvar a vida a ninguém. Aliás, é mais para avisar as pessoas que se não têm cuidado, não vai haver ninguém para salvar. Como tu sabes, todos nós estamos sozinhos no mundo, independentemente de termos os pais por perto. Convém é abrir a pestana e não andarmos a calcar-nos uns aos outros. É melhor sermos honestos, ajudar-nos e pararem de olhar para o umbigo. Acho que a mensagem do disco também é essa.

 


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