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Keso: um rapper contra o mundo no palco do Maus Hábitos

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Catarina Coelho

Que semestre incrível este! No passado mês de Novembro, Nerve assinou no Mexefest um momento absolutamente memorável, deixando claro que um rapper deixado sozinho em palco com os seus pensamentos poderia mesmo assim encher uma sala, encher as nossas cabeças e apontar o caminho do futuro. Desde aí, concertos de Allen Halloween, Dj Ride, Orelha Negra, Blasph e Beware Jack, Pro’Seeds ou SP Deville – e falo apenas dos que eu mesmo presenciei – deixaram claro que o hip hop que se faz hoje em Portugal é um rico prisma multi-facetado, carregado de válidas e desafiantes propostas que apontam em múltiplas e entusiasmantes direcções: o comando matemático do microfone de Nerve, a força avassaladora de Allen Halloween, a sofisticação da live band de DJ Ride, o domínio perfeito do groove dos Orelha Negra, o carisma infinito de Blasph e Beware, a desconcertante capacidade perfomática de Berna ou a combinação de quase isso tudo de SP têm garantido momentos de superlativa vibração e qualidade aos públicos que sabiamente têm aceite os desafios dos cartazes que vão programando estes e outros artistas de excepção. Acrescente-se um nome a este impressionante panorama: Keso.

Ontem, no Maus Hábitos, no Porto, o “original marginal” apresentou com estrondo o seu novíssimo KSX2016, trabalho lançado pela atenta Biruta que é mais um incrível registo a juntar a um 2016 que tem tudo para ser ano vintage (O ProcessoO Justiceiro, Sou Quem SouSoft Power Sagrado…). Concerto incrível, claro.


L-Ali


 

A noite, décima primeira edição da festa Bent Convida, foi cheia e variada. Arrancou com Pesca e L-Ali a mergulharem o espaço de concertos do Maus Hábitos numa densa penumbra de graves. Baço, trabalho da dupla que já tem dimensão física e tudo, serviu de pretexto a um raide sobre os nossos ouvidos que não deixou neurónio sobre neurónio: a pose algo teatral de L-Ali potenciada pela sua máscara de arlequim grotesco associada a uma voz que parece desligada de um corpo, permanentemente enredada em jogos de sentido com as palavras e os beats abissais de Pesca, mais densos que o mais denso dos nevoeiros, serviram de certeiro arranque para a noite.


Madflava

RMA

Além de Keso, eu mesmo e o grande Madflava ainda tivémos oportunidade de partilhar alguns discos: a cuidada selecção boom bap de Madflava, que tanta sede de vinil vai saciando a tanta gente, foi dos Cypress Hill a KRS One deixando claro que um clássico cai sempre bem, seja onde for. Eu tentei percorrer a distância que separa J Dilla de  Roy Budd usando apenas discos de sete polegadas. Mas o principal da noite aconteceu quando Keso subiu ao palco…

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O alinhamento da apresentação incluiu muito do novo material de KSX2016, como se pode perceber, mas também clássicos secretos de um rapper que devia certamente ser mais celebrado. De “Bairrismundo” que já data da estreia de 2003 (de Raios Te Partam que volta a estar disponível em CD com marca da sua Paga-lhe o Quarto) a “Acólito Por Alcoólico” de Revólver Entre as Flores, já de 2012.

Ao longo do desfiar do novelo de mordazes observações de uma realidade mais negra do que cinzenta, Keso foi chamando aliados ao palco: Palhetas, Virtus, Minus e Kapataz, todos secundaram o protagonista da noite com segurança, alma e, acima de tudo, uma transparente devoção nascida de uma amizade que se percebeu ser sólida, sincera e duradoura. Percebeu-se que eram esses laços que estavam ali a ser celebrados, mesmo se Keso fosse avisando que ele e o mundo andam de candeias às avessas.

Sozinho, com um leitor de cds e um suporte de partituras onde dispôs algumas das letras mais recentes que a memória ainda não encaixa com a mesma desenvoltura dos temas mais rodados, Keso provou que chega e sobra para abraçar, comover e entreter todas as pessoas que esgotavam por completo aquela sala. Mesmo com falhas pontuais, sobretudo causadas pela emoção, Keso emanou segurança e classe absoluta. Flows variados, sussurros, refrões cantados, raiva, tristeza, ironia mordaz: a quantidade de recursos dramáticos que consegue convocar para a sua performance é assinalável. Mostra-o como um verdadeiro artista. Não um mero rapper que rima porque tem que ser, mas um artista que pega nessa necessidade e a questiona, a transforma, a usa para algo maior. E isso é raro.


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O público, aquele público pelo menos, adora Keso. Percebe-se que as pessoas que o incentivam, as miúdas que choram a ouvi-lo (“Gente e Pedra” arranca corações, sem dúvida), os rapazes que emprestam a voz aos coros, assumindo-os como uma marca de identidade e de pertença, estão ali porque aquele é o melhor lugar do mundo naquele momento. Um lugar onde alguém dá voz ao que eles também sentem e se calhar não conseguem tão bem traduzir. Por tudo isso, a noite foi incrível. Por tudo isso, ficará certamente na memória de todos. Por tudo isso, urge que se repita rapidamente. E a sul, se possível!

Semestre incrível este, de facto. Keso ou Nerve, SP ou Beware, Ride, Sam e demais Orelhas, Allen, Landim, Berna e L-Ali e tantos mais têm feito do labirinto do rap tuga um espaço onde ninguém deve temer perder-se. Até porque nunca se sabe o que se poderá encontrar. Talvez um escritor/pintor de interiores que nos descreve/retrata a todos melhor do que qualquer espelho. Se assim for, ouçam-no.


 

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