Keso // O revólver entre as flores

keso

[TEXTO] Francisco Noronha*

*Aproveitando o lançamento, amanhã, 6 de maio, do novo álbum de Keso, KSX2016, recordamos artigo de Francisco Noronha sobre o artista portuenseoriginalmente publicado no site Rua de Baixo, em Agosto de 2012. Em breve sairá crítica do mesmo autor ao referido álbum.

Em 2003, Keso, tripeiro de gema, assinou, sob o heterónimo de KS Xaval (nome por que, ainda hoje, é carinhosamente conhecido), e com apenas 16 anos, Raios Te Partam, um álbum de beats vigorosos e sem papas na língua. Era tempo de um rap combativo, sério q.b. (típico da idade) e introspectivo, mas, também, o primeiro indício do que de extraordinário viria Keso a fazer mais tarde, em O Revólver Entre as Flores (2011). De facto, se, do ponto de vista musical, era já notória a tendência para a experimentação e para o ecletismo (“Sorte”, “Sempre presente”), o mesmo se diga para a predominância do humor e do calão chavasqueiro nas letras (“Homens de estilo” e, bem assim, os deliciosos skits à De La Soul em “Jabardim da Penisquita” ou “Intro”). De qualquer forma, seria por sons mais duros, como “Bairrismundo” ou “Pintor de interiores”, que o nome de KS Xaval ficaria gravado na cabeça de muita gente.


https://www.youtube.com/watch?v=x0YPij99F44


 

Em 2009, volvidos seis anos, e já com novo heterónimo, Keso anunciava a edição comercial do seu novo álbum, O Revólver Entre as Flores (gravado entre 2006 e 2009). Todavia, o álbum nunca chegaria a ver a luz do dia, por força do encerramento da editora responsável pelo seu lançamento, a mítica Matarroa. Os fãs desesperaram. Mas Keso não. Foi assim que, pelo meio de muitas desventuras, lançou, ele mesmo, uma versão do álbum para download gratuito, sendo que, no entretanto, o álbum viria a ser distribuído, de forma independente, por algumas lojas do Porto. Os fãs rejubilaram.

E que disco é esse, afinal? O Revólver Entre as Flores é, com grande probabilidade, um dos tesouros mais bem escondidos do hip-hop português, com entrada directa, arrisco dizer, no top 10 do género. Na verdade, O Revólver… só não é um disco perfeito devido à sua (demasiada) curta duração – quase todas as (apenas) 10 faixas têm duração inferior a 3 minutos. O que, bem vistas as coisas, significa uma autêntica revolução copernicana no modo como encaramos o conceito de “comercial”, atribuído, precisamente, aos artistas que “despacham” hits em faixas pré-fabricadas de 3 minutos. Mas o que explica, então, tanto louvor? Explica-o, por um lado, a produção. Keso é um produtor de mão cheia, que faz dos samples, mais do que simples decorativos melódicos (loop sobre loop acompanhado de batida em pano de fundo), ingredientes sobrepostos na composição de um todo mais elaborado. Ainda no sampling, destaca-se, também, o recurso frequente a frases e diálogos retirados de filmes, o que só evidencia a dimensão cinematográfica do álbum (a primeira faixa, “Belarmino de volta ao ringue!, é uma homenagem evidente a Belarmino, 1964, Fernando Lopes, filme-ruptura do cinema português influenciado pela Nouvelle Vague francesa).

Por outro lado, é latenta uma verdadeira mestria na composição musical, por força do arsenal de recursos de que se serve Keso, que, não se confinando aos samples, cria uma atmosfera orgânica arrojada. Ela notabiliza-se através da utilização abundante de instrumentos, nomeadamente, de teclas e cordas (os riffs de guitarra e o baixo adocicado em “Na rua tenho acústica. Puta!”, por exemplo – sim, a faixa tem mesmo este nome), os quais, coabitam, na perfeição, com beats mais tradicionais como aqueles que encontramos em “Acólito por alcoólico” ou “Insólito Kesone”, este último com um groove de fazer inveja aos Premiers e Pete Rocks do outro lado do Atlântico. A ousadia na composição, agora ao nível rítmico, manifesta-se, igualmente, em faixas como “Oiçam”, onde o portuense ensaia um breakbeat colorido, desafiando as convenções do boom bap a que estamos a associar ao hip-hop mais clássico.


https://www.youtube.com/watch?v=LU_eKvTjh_M


Mas a frescura que Keso imprime ao hip-hop português não se fica por aqui. É que, coisa rara no rap [n.d.r.: este texto foi escrito em 2012, altura em que a escola de rappers-cantores, de que Drake é expoente máximo, ainda não tinha a dimensão que hoje tem], Keso não só rima como canta (e bem!) muitos dos refrões, dispensando os habituais coros das meninas da soul. Para mais, o portuense afirma-se – convém dizê-lo claramente – como um belo escritor de canções, as quais primam, sobretudo, pelo humor e fina ironia (sem lugar, portanto, para aquele rap de ar sério e grave que Rakim imortalizou em “I ain’t no joke”), capazes de oscilar entre a reflexão mais profunda (“Eternamente em cena”) e a punchline mais javarda (“Fuck you / enfie a multa no rego do ass / Preocupe-se com pinguins e ursos quando o habitat deles derrete”, como se ouve em “O fumo que eu fumava”).

Mesmo quando aborda tema sérios, o rapper fá-lo de modo subtil, com frio cinismo – em “O fumo que eu fumava” (clássico instantâneo), Keso, com olhar sociológico aguçado, expõe ao ridículo a moderna tendência política para regular os mais particulares gestos do quotidiano como… fumar (“E quem diria que o fumo que eu fumava / era o fumo que matava tornando-me um criminoso”). “Acólito por alcoólico”, em registo vagamente autobiográfico, revela, através de um diálogo imaginado com a figura materna, o lado mais íntimo do músico, questionando o papel da fé (“O padre que no meu baptizado muda o meu nome de Ivo para Marco / com que liberdade interfere na minha vida?”) e o seu papel enquanto instrumento de alienação no interior de uma família (“Tu dizias para rezar pelo pão e agradecer ao Deus Pai a multiplicação / Mas Deus Pai está no céu / E em casa havia outro nabo que só multiplicou em ti os olhos pisados”). “Eternamente em cena», uma mais belas canções (magníficos o baixo, a guitarra e o saxofone, de fininho, no fim do refrão) que o hip-hop português já conheceu, é um retrato da condição do artista, do seu hercúleo e persistente caminho, contra tudo e contra todos, na exposição da sua obra. O sample inicial (“Olha uma coisa que eu te vou dizer / Tu aqui não tens futuro nenhum”) ecoa, de modo muito particular, num meio como o hip-hop português (que, para todos os efeitos, continua a ser um género altamente marginal, exceptuando dois ou três nomes com acesso privilegiado ao mercado) e, especialmente, numa época de crise como é a nossa.


https://www.youtube.com/watch?v=fp5l-aRhbYI


 

O humor e sarcasmo de Keso, esses, vêm ao de cima, sobretudo, em faixas como a já mencionada “Belarmino de volta ao ringue” (que explica a ida do músico para Lisboa, onde estudou sonoplastia para Cinema), “Insólito Kesone”, “Oiçam” (“Não cheguei ao Top +, só me falta arranjar os dentes / Tenho um talento inequívoco, chova o guito!”) e “Na rua tenho acústica. Puta!”, onde há tempo para brincar com o hit de Boss AC (“Princeeesa, diz adeus ao Keso porque o Keso quer hip-hop à mesa!”). A isto se junta um flow imparável, que lhe permite rimar como bem lhe apetece, ora acelerando o ritmo, ora entabulando diálogos com si próprio (alternando os interlocutores), ora enfiando punchlines memoráveis.

De resto, o álbum conta, ainda, com participações de luxo – Sir Scratch, DJ Kronic, DJ Kwan (Mundo Complexo), D-One, Nerve e Maze (Dealema) – e um artwork muito interessante da autoria do próprio rapper (ele que também faz graffiti). Quem o viu, há umas semanas, a recitar poesia como gente grande no Hard Club, só ficou com uma certeza maior: este é um dos mais talentosos artistas no hip-hop nacional, cujo futuro merece um acompanhamento mais de perto. Uma nota para o futuro: a nova escola do Porto – como já lhe chamaram – está de boa saúde e recomenda-se, se pensarmos que, ao nome de Keso, se juntam, actualmente, os de Virtus, Enigma ou Minus.


Francisco Noronha

Jurista, investigador universitário e crítico de música e de cinema em diversas publicações. Autor do programa de rádio "Regresso ao Futuro" (Antena 3, Rimas e Batidas). obosforo.blogspot.com.