Janeiro: “O tempo é a coisa mais poética que existe”

[TEXTO] Vera Brito [FOTO] Guilherme Cabral

Começar pelo lado B de um disco é coisa que pode chocar os melómanos mais rigorosos, mas no caso de Sem Tempo, o mais recente disco de Janeiro e lado B para Com Tempo (ainda sem data prevista de lançamento), talvez seja algo que possamos ver como uma desconstrução desse conceito em si, capaz de nos inverter essa linha temporal, dando-nos voltas ao tempo.

Editado no passado dia 24 de Abril, a um dia da comemoração da liberdade, Sem Tempo, é um disco que Janeiro nos diz ser ele também um marco da sua liberdade, reflexo de alguém que está hoje mais resolvido consigo mesmo, que sabe bem que caminhos quer agora seguir e os atalhos que não lhe interessam mais. 

Para nos falar sobre tudo isto, Janeiro acedeu ao nosso convite para uma videochamada, em que o vimos descontraído no seu “habitat” natural, por entre microfones, MPD e toda a parafernália do seu pequeno estúdio caseiro, que fez questão de começar por mostrar, e onde confessa ser verdadeiramente feliz e a melhor forma que tem encontrado para lidar com este isolamento. 



Olá, Henrique! Tudo bem? Preferes que te trate por Henrique ou por Janeiro?

Olá! Prazer! É como preferires, eu respondo a qualquer um dos dois.

Em 2018, após o lançamento do teu disco de estreia, dizias que o próximo iria levar algum tempo, talvez uns cinco anos. Afinal não foi preciso esperar assim tanto. Sem Tempo era um disco urgente?

Sim, era um disco urgente até porque eu comecei a fazê-lo logo depois de acabar o Fragmentos. Na altura pensei que [o próximo] iria demorar mais tempo porque achei que precisava de ganhar maturidade depois daquela loucura toda do Festival da Canção e que precisava de bazar… aquela cena romântica que uma pessoa cria, não é? Mas acabei por chegar lá quase sozinho. Claro que tive os meus momentos de introspecção, mas acho que no final é mais uma questão de hardwork e de manteres a tua vida normal e os pés no chão, do que propriamente fugires para uma ilha secreta para fazer um disco.

Mas era um disco urgente, até pelo que se está a passar. Acho que estamos todos num ponto de viragem e que as pessoas estão a perceber que já não podemos viver assim, que já não é sustentável. Estamos todos a descobrir que esta cultura da abundância nos está a deixar meio difusos, meio dispersos e isso também me trouxe ainda mais essa urgência para o lançar, não tanto para o começar, porque comecei-o no final de 2018. Até este último som, o “Ya, Ta Td Bem”, é bué essa cena: “ok, estou a perceber o que é que passa com o mundo, no sentido de que ando a sentir o corpo e a cabeça meio difusa…”, mas ao mesmo tempo é também uma mensagem motivacional para as pessoas pensarem que pode ficar tudo bem e que vai ficar tudo bem, sendo que, eu acho que o truque aqui, ou a dica, é tipo: “don’t stick to the old habits”, percebes? Pelo menos é a minha forma de ver a cena que é: “meu… se realmente houve um vírus, se tudo isto aconteceu, bora não fazer as coisas como estávamos a fazer até aqui”. Acho que a geração dos nossos pais foi um bocado isso: a cultura da abundância, a cena desmedida de consumir e de querer tudo, e eu não concordo muito com isso.

Sabemos que Sem Tempo é o lado B de Com Tempo, ainda sem data prevista, mas para o qual pretendes gravar novamente todas estas 13 canções num só take. Podes explicar-nos um pouco melhor esta ideia e a tua intenção?

A intenção é ser uma metáfora não-literal para o tempo. A ideia já vem de bué longe, porque desde o meu primeiro EP, que lancei em 2015, que eu já tinha esse lado bué electrónico. Ainda agora ’tava a fazer uma entrevista para a Rolling Stone Brasil em que eles me diziam: “o som que mais ouvia teu, desde 2018, era o ‘Conversas de Quintal’”, que é um som bué antigo, bué electrónico, bué aquela estética tipo Kaytranada. Só que depois larguei um bocado essa cena porque comecei a trabalhar com uma agência que me pôs ideias na cabeça de que aqui em Portugal teria que fazer “uma certa coisa” para me poder afirmar “num certo panorama”. E este disco vem marcar um bocado a minha liberdade e eu me ter tornado independente. Mesmo estando agora a trabalhar com uma agência que me faz booking, sou completamente independente e faço a minha cena.

E este Com Tempo, Sem Tempo vem um bocado da desconstrução do meu lado acústico, do lado canção e do lado beats. A ideia surgiu dessa minha necessidade de querer estar nesses dois mundos ao mesmo tempo. Até foi curioso porque o Frank Ocean, há poucas semanas, lançou também uma cena também parecida, que é tipo um lado acústico e um lado com remix, e eu fiquei: “What?! Isto é a mesma ideia!”. Ou seja, a intenção era poder ter a mesma canção com arranjos diferentes, um lado para ouvir com tempo e outro lado para ouvir sem tempo, daí a metáfora não-literal do tempo para o que eu acho que é a compressão e a sedução. Sendo que o lado Com Tempo é mais o da sedução, mais intimista, mais discreto, de maior introspecção e o lado Sem Tempo, embora também introspectivo, é se calhar muito mais de beats e de feats. A ideia, portanto, é um bocado o descortinar desses dois lados. 

Disseste que no teu primeiro EP já apresentavas essa electrónica e de facto senti que Fragmentos e este Sem Tempo são dois lados distintos teus. Neste último, as guitarras e o piano parecem ter finalmente cedido aos beats mais electrónicos e r&b. Quais dirias que são as principais diferenças entre estes teus dois discos?

Acho que a grande diferença é a liberdade mesmo — a liberdade mental com que acedi a fazer a cena. E não só, é também o facto de estar a trabalhar com um produtor que eu escolhi e não aquele que uma agência me escolheu, o facto de eu ’tar-me a cagar se o disco tem asneiras ou não, ou seja, o facto de não haver essas pequenas limitações que são geradas por editoras, agências, jornais e tudo o resto. E é um bocado desconstruir essas ideias porque, independentemente de nós já  termos um lado, que em Portugal também é bué forte, que é o do hip hop, que eu consumo bastante, em que a maioria dos artistas ’tá bué livre na cena deles e em egotrip –que acho mesmo respeitável porque é uma egotrip que me parece saudável, tipo Slow J — ao mesmo tempo vejo que há toda uma outra cena, como o [António] Zambujo ou o Miguel Araújo, mais o lado das canções, que é todo demasiadamente politicamente correcto, ’tás a ver? Adoro o Miguel e adoro o Zambujo, não me interpretes mal, mas é bué tipo: “vamos tratar as pessoas como se elas fossem burras e vamos lançar um single super simples…” pá e eu estando no meio destes dois mundos, queria definir: “olha… eu já não sou assim, nunca fui”. É um bocado o que eu digo no primeiro single que lancei, o “Sem Singular”, que é: “fiz um álbum que não queria, ’pa agradar a quem nunca soube nada do que eu sou, pra que que eu aqui entrei?”

Por acaso, quando ouvi este disco, anotei precisamente essa frase que agora referiste da “Sem Singular” para te perguntar sobre isso: se sentes que estás agora finalmente a fazer o som com que realmente te identificas e porque é que achas que isso não aconteceu antes?

A grande diferença é mesmo a liberdade e eu poder dizer exactamente o que penso sem estar a ser censurado por alguém que tem um poder monetário ou de representação social, ou por alguém que acho que me pode afectar – aquelas coisas típicas de “se eu sair desta agência, os gajos vão-me lixar e depois já não dou gigs ali”, porque Portugal é um meio bué pequeno. ’Tás a ver esse tipo de cenas? [Este disco] sou eu a cagar para isso tudo e a dizer, “olha isto é a minha cena”, porque eu não vou ser feliz se estiver sempre a enganar-me a mim próprio.

Independentemente disso, no Fragmentos sinto que também não me enganei a mim próprio porque acho que equilibrei as coisas, no sentido em que também já lá estava a parte das trips, a “! (Bonus Track)” que também é toda electrónica, ou seja, já estava lá muita coisa que desvendava um bocadinho do que é que é esse meu lado electrónico e esse meu lado de spoken word, se calhar até de rapper. Mas eu também gosto de não ser conotado como nada disso. Gosto de ser conotado só como um artista e um activista — alguém subversivo que tem coisas para dizer e para provocar a sociedade com aquilo que não concorda –, portanto acabo por não querer cair em lado nenhum. Para mim é grande respect se eu ’tou tipo ao lado do Zambujo a cantar um som que depois ele vai mostrar ao Caetano [Veloso], como ao mesmo tempo posso ’tar ao lado do Slow J e a ter o respect dele também, porque ele me ouviu a rappar ou a fazer spoken word. Para que as pessoas que estigmatizam isso nas cabeças como sendo, “este é rapper ou este é cantor ou este é não sei quê”, poderem desconstruir tudo isso e eu não ser nada disso e ao mesmo tempo ser tudo, percebes? 



São as tais “gavetas” de que até o próprio Slow J fala numa música sua…

Ya.

Outra coisa que também reparei assim que olhei para a capa do disco, antes de o ouvir, foi aquele Parental Advisory e depois percebi porquê — tem a ver com todas aquelas pequenas imperfeições em que que estás a gravar e te enganas, mas mandas seguir na mesma, às vezes com um ou outro palavrão pelo meio. Acho que isso até dá uma certa autenticidade a este disco…

Também acho.

Era esse também o intuito?

Sim, eu diria que sim. Ou seja, não foi uma cena pensada, não foi tipo: “vou para o estúdio fazer isto para as pessoas sentirem que é mais genuíno”. Não foi isso. Foi uma cena de grande discussão, porque acho que o álbum é tão conceptual que a maior parte não era a gravar, mas a discutir o conceito e a narrativa. Então era: “esta merda saiu, como é que abordamos isto?” Se queríamos fazer a cena com os primeiros takes, como é que abordamos o facto de eu me ter enganado no poema? Porque é que não pomos? Não seria isso espelhar essa liberdade que o disco tem? Produzi o disco com o Francesco Meoli, que é o nāga, e o Tiago Perestrelo foi quem misturou e masterizou, e nós os três estivemos sempre em grandes discussões conceptuais do que é que poderia ficar ou não, e o que é que poderia querer dizer ou não. Portanto para te responder a essa pergunta, sim, claro que acho que isso espelha mais genuinidade e mais liberdade, mas não foi propositado. Tal como a minha performance da banana no Festival da Canção não fui eu em casa à tarde a dizer: “vou levar esta banana porque depois vou querer malhar esta banana ao vivo”, cheguei lá e malhei a banana ao vivo sem pensar nisso antes, ’tás a ver? Ou seja, é um reflexo do que é o momento e não uma introspecção prévia do que vai ser o momento depois.

Acho que percebi a metáfora não-literal do tempo, que referiste há pouco, no entanto ao ouvir este disco ficou-me uma sensação algo contrária àquela que o título, Sem Tempo, inicialmente sugeria. Ou seja, são 13 faixas de batidas lentas que se espraiam por uma hora, dando uma certa elasticidade ao tempo. Numa altura em que muitos ficámos forçosamente com mais tempo, e em que parece que existe até uma espécie de “obrigação” em fazer algo dele, na primeira faixa, “Ter Tempo”, teces muitas considerações em torno desse conceito de “ter tempo”, que achei interessantes. Queres desenvolver um pouco melhor essa ideia?

Olha já vem de uma faixa, que era assim meio um blues, do Fragmentos que se chamava “Horas”, e de grandes discussões filosóficas com amigos e família. Para uma pessoa chegar a um ponto em que é vista como um artista, tem muito mais a ver não com o trabalho que sai cá para fora ou como as pessoas te vêem, mas mais com o que tu discutes, os conceitos das coisas e como desconstróis o que te foi criado. Lancei um EP, que se chama Protocolar, com um sambista de São Paulo, que é o Paulo Novaes, em que pomos em causa todo o modelo social e a forma como o protocolo nos está a desumanizar, e esta questão do tempo está, para mim, intimamente ligada à questão do protocolo. O tempo, para mim, sempre foi uma cena bué difícil de perceber, bué abstracta, pelo facto de ser interdependente do espaço — essa cena que o Einstein nos trouxe, a teoria da relatividade, e acho que isso tem tudo a ver com este álbum também. Sempre fui muito curioso por física quântica e não só, e acho que este era o momento para falar sobre o tempo e o grande reflexo da minha liberdade vem da minha desconstrução do que é o tempo, de como eu vejo tempo e de como eu sinto o tempo. E essa liberdade também me foi trazida por eu ter dito assim: “não, eu tenho o meu tempo!” E esse poema, que tu dizes que te identificaste, talvez o tenhas feito por tu também já teres essa liberdade de teres o teu tempo, para fazeres as tuas coisas. Porque eu digo: “ter tempo só é ter tempo para quem vale o tempo”, ou seja, acho que tem a ver com a intenção com que o utilizas, porque é indiferente tu teres todo o tempo se tu não olhas para ele de uma perspectiva de valor. Se tu só olhas para ele apenas como tempo, ele deixa de ter preciosidade, não é? Quando esse é o activo máximo da sociedade e ninguém o entende! Ou seja, acho que o tempo é muito mais valioso do que o dinheiro e as pessoas dão-lhe muito menos valor, porque o tempo é a única variável que temos que se esgota realmente, porque o dinheiro é esta cena meio ilusória que nos foi criada, mas o tempo é mesmo a única variável que não controlas, tipo a tua pele desgasta-se, as cenas à tua volta caem… o tempo é a coisa mais poética que existe.

Eu já andava há muito para escrever sobre isso e quando me saiu esse poema foi uma espécie de um arrepio na espinha dorsal. Acho que é daí que vem também essa liberdade que eu tenho, do género: “man… eu posso não ter muita guita, mas tenho tempo para ti”. É isso que me torna valioso: eu tirar tempo para as pessoas e não a guita que tenho, ou o que sou na sociedade. Acho que é isso que faz um artista: o tempo com a intenção certa. Porque somos todos artistas, como dizia o [Joseph] Beuys: “everybody is an artist”, e eu admiro bué o trabalho dele, era um performer que se desdobrava e que criou toda uma performance à volta da vida e acho que um artista é isso. Acho também que foi por isso que ninguém percebeu a cena que fiz da banana ou o facto de ter falado do Kendrick [Lamar] e da minha faixa se chamar “Sem Título”. Não te consigo explicar de melhor forma do que isto, mas acho que consegui resumir mais ou menos o que eu sinto que para mim é o tempo e o facto de eu lhe dar tanto valor. Foi isso que me fez também querer ter um disco que é todo dedicado a essa massa inexorável, abstracta com que todos nós andamos a lidar e em que ninguém pensa.

Eu nem queria tocar nesse tema da “banana”, porque acho que é um assunto que tu próprio já deves estar algo cansado de explicar…

Não, eu próprio falo disso, porque acho que é importante falar…



Mas acho que tens essa noção de que és um artista peculiar e que trazes uma certa excentricidade, pelo menos dentro daquilo que estamos mais habituados a ver, e que divides opiniões, como se viu no Festival da Canção. Como é que lidas com essa percepção externa que as pessoas têm de ti?

No início não sabia lidar e interrompi-te para dizer que acho importante falar sobre a cena da banana pela própria forma como eu lidei com isso depois. Porque tive malta a atacar-me e a mandar-me mensagens de ódio (outras de amor também da malta que tinha o cérebro mais desconstruído), mas sobretudo bué mensagens de ódio e senti quase a obrigação de me ir justificar nas entrevistas que dei e acho que isso foi um erro. Quando revi a cena — e para mim a cena máxima é a [geração d’]Orpheu, do Almada [Negreiros], do Amadeo de Souza-Cardoso e do [Fernando] Pessoa – comecei a pensar, “meu… o Pessoa não ia para o jornal justificar-se”, ’tás a ver? Assim como eu não devia ter justificado, naquela entrevista do Observador, que depois foi uma polémica do caralho, em que comecei a falar da geração d’Orpheu e a dizer que aquilo era uma performance e não sei o quê… eu não devia ter feito isso, porque acho que uma real performance não tem essa parte explicativa, percebes? A real performance acaba no final da performance, não acaba no final da explicação. Portanto, para te responder como é que eu lido, acho que lidei mal no início e isso fez-me reagir dessa forma assim meio defensiva, mas acho que agora estou-me muito mais a cagar para isso e muito mais resolvido comigo próprio, com os outros e com a cena externa, e a perceber que estamos em Portugal e que isto é minúsculo, que não interessa assim tanto e que eu não interesso assim tanto. Agora estou muito mais focado na cena da sustentabilidade e do ambiente, e na questão toda política no Brasil, sendo que faço também MPB, em que me estreei com este EP que te falei, o Protocolar, porque tenho família lá e sinto-me muito ligado. Por isso agora sinto-me muito mais resolvido e mais a pensar em questões ambientais do que propriamente morais.

E este teu disco, Sem Tempo, para além dessa metáfora do tempo, e de algumas músicas sobre relações, parece-me que é sobretudo um disco de muita auto-descoberta e auto-afirmação, na forma como te queres agora apresentar, um reflexo de quem está realmente mais confiante e resolvido consigo mesmo, coisa que talvez não tenhas tido oportunidade no Fragmentos

Opá, sim, houve um turning point para mim que foi quando estava no Brasil com este meu amigo e produtor, o Francesco Meoli, em que às tantas ele me diz: “man… se estamos há três horas a falar sobre o espaço-tempo e sobre vidas passadas, porque é no Fragmentos estás a falar cenas como ‘Eu amo-te tanto e tu não me amas a mim?’” E eu fiquei, “ya, meu, se calhar I’m done with that shit de pocket songs de amor. Ou então, se calhar vou continuar a fazer isso mas de outra forma, de uma forma mais cocky. Não sei se ouviste o “Se Me Tocas”, mas sou eu tipo a gozar com a indústria quase, do estilo “tomem lá uma canção de amor fixe”, mas a tirar um bocado a importância de mim e só a gozar com a cena. Então houve esse turning point de eu já estar a discutir assuntos muito mais profundos do que o amor superficial, e pensar que se calhar tinha de falar sobre outras coisas, e isso deixou-me também aberto e livre para explorar outras questões.

Tens uma demarcada veia poética na tua escrita, mas também fazes todo o lado da composição musical. Onde é que te sentes mais confortável?

Acho que me sinto mais confortável na parte musical, não sei se tenho sinestesia ou não, a sinestesia acontece em momentos bué específicos, em que tu associas tipo sons a cores, não é? E acho que isso me acontece em alguns momentos e sou muito mais dessa emoção, e as letras acabam por surgir depois, um bocado de conversas ou de pensamentos. Acho que sou muito mais da parte musical do que propriamente da parte lírica, mas tento que a parte lírica tenha tanto de conteúdo como a parte musical que apresento.

Por acaso achei que irias dizer que era o lado da escrita…

Não, às vezes até me engano bué nas letras e fico tipo, “qual é que era aquela letra?”.

Trouxeste também muita gente para colaborar neste teu disco. Como é funcionam estas colaborações dentro deste teu registo singular?

Da forma mais fluída e natural possível, ou seja, desde jams no estúdio, a jams fora dele, em que de repente a cena surge e digo: “olha bora participar no meu próximo disco?”, mas nunca com o foco no disco, entendes? Sempre com o foco no processo da própria cena e em querer aprender com as pessoas com quem estou a trabalhar. E aprendi muito porque acho que o que me agarra a todo este processo de fazer discos é o processo em si, porque o resultado final é para as pessoas. Onde eu ’tou com tesão mesmo é na cena de estar em estúdio naquele writing rush, a aprender com os outros. Foi uma aprendizagem e uma escola gigante, e espero que para eles possa ter sido também, porque acho que somos todos professores uns dos outros, uns numas coisas e outros noutras.

Quem era assim aquela pessoa com quem adoravas um dia poder colaborar?

Em Portugal?



Ou lá fora, não te limites pela fronteira… [risos]

Lá fora era claramente o Frank Ocean, mas cá dentro era o Dino [D’Santiago]. Já estou há bué para fazer qualquer coisa com ele, até o convidei a ele e à Mayra Andrade para as Janeiro Sessions Live Tour, que fiz no início do ano, só que entretanto a cena não andou para a frente por bué merdas de managers e de posicionamentos, mas curtia mesmo fazer um som com o Dino. Na tuga era Dino, mas lá fora era o Frank ou o Daniel Caesar, ou um gajo de Londres, que me excita bastante, o Jacob Collier, que acho que excita todos os músicos, se calhar também curtia fazer uma cena com ele… mas aquele que me quebrava mesmo o coração era o Frank. 

Em 2017, quando iniciaste aquele teu projecto de live sessions em tua casa, com vários convidados, não deixa de ser engraçado porque parece que anteviste um pouco do futuro que agora estamos a viver — no sentido das sessões de música caseiras e improvisadas, e até aquele cenário de fundo da estante repleta de livros. [Risos] Agora, que começavas a levar estas sessões para os palcos, aconteceu tudo isto. Como é que tens estado a lidar com este isolamento?

’Tá a ser bué à nora porque ia fazer os três eventos maiores da minha vida. Ia fazer a Casa da Música, Tivoli e ainda uma performance no Melides Art, e, de repente, vi essa cena toda cancelada. Todo um build-up de uma carreira que tem uns quatro ou cinco anos, em que consegui, de forma natural, chegar a salas como essas e a uma performance no Melides Art, que para mim é mesmo high standard, e de repente tudo cancelado. Fiquei mesmo à nora mas tive de relativizar a coisa, ainda fiquei um dia ou dois naquele impasse a tentar perceber a situação e acho que todos passámos ali por uma fase meio estranha, mas fui muito rápido a relativizar a cena e dizer: “ok, isto é um vírus meu, temos de ficar todos bem primeiro e depois bora tocar”. Relativamente ao meu confinamento estou a ter alguma sanidade mental porque consegui criar uma espécie de um subgrupo em que fiz uma quarentena. Separei-me dos meus pais, porque o meu pai é de risco, e estou a ver uns amigos, mas com distanciamento de segurança, porque há malta que depois está com os pais. Estou aqui no Meco, no meio do nada, posso fazer uma festa com um sistema de som tranquilo e juntas cinco ou seis amigos que estão na boa com o COVID e quase que nos esquecemos disso. E acho que uma pessoa ’tá sempre bem quando tem uma MPD [que nos mostra através da videochamada]. [Risos] Há milhares de possibilidades, ’tás a ver?

Está a ser, então, um período criativo para ti?

Está a ser mais de concretização do que criatividade, porque pus na cabeça: “vou lançar a merda do disco” e a minha agência queria esperar, e parece que foi um acto de rebeldia, e acho isso estúpido, ter de estar sempre a romper, porque para mim não é um acto de rebeldia lançar um disco. Para além do trabalho de meter o disco cá fora, é também o trabalho de convencer as pessoas que trabalham contigo e isso é bué desgastante. Mas, como entrei nessa narrativa, estou a ter alguma sanidade mental e tenho estado bem. E para além disso acho que nós também somos bué privilegiados e acabamos por ter uma vida tranquila mesmo que não possamos sair, não somos médicos, não estamos activamente na linha da frente contra isto, não é?

Falavas há pouco que estás agora muito mais focado no activismo em questões ambientais. Nestas semanas temos sido obrigados a mudar muitos comportamentos, achas que vamos sair disto pessoas melhores?

Eu diria que não. Pelo que vejo diria que as pessoas estão todas: “quando é que vamos voltar ao normal?”. Agora estão a falar nesta cena bué estúpida que é o “novo normal”, não é? Que eu acho uma anormalidade, porque não isto é anormal, isto não é o “novo normal”. Acho que as pessoas que não faziam consigo próprias esse trabalho de se resolverem e de estarem bem consigo mesmas, tipo de não mandar um plástico para o chão e reciclar — coisas bué minúsculas mas que se fizermos todos a cena pode ficar muito mais tranquila — não vão mudar. Cada um tem de fazer a sua parte e acho que as pessoas cagam um bocado nisso, e isso acaba por me deixar pouco esperançoso nesse sentido. Acho que as pessoas não vão mudar, e que estão todos à espera de poder ir outra vez para os bancos e “dinheiro! dinheiro! capital! capital!”. Tens o exemplo na América em que vês o Trump a dizer que a economia tem que avançar e de repente são o país com o maior número de casos de infectados e montes de mortes, mas o Trump continua a dizer para as pessoas irem trabalhar, ou como o Bolsonaro no Brasil. É um bocado triste. Se a cena vai mudar a seguir? Eu diria que não.

Sei que agora é difícil fazer projecções para o futuro próximo mas, se tudo correr pelo melhor, que planos tens? Falaste há pouco da tua ligação com o Brasil, é um mercado que te interessa? Gostavas de criar lá uma base e de lá tocar?

Bué! Sou amigo de vários artistas lá, o Rubel, o Marcelo Camelo… é tudo malta que respeito bué e que sei que também respeita a minha cena. Planos para o futuro é totalmente isso: desenvolver-me enquanto visual artist e tripar mais na cena do vídeo e do design, andar para a frente com a cena da assessoria de imprensa no Brasil e tocar lá, continuar a fazer discos e a meter música cá fora, continuar a fazer faixas com a malta e desenvolver as minhas amizades com os músicos, e, fazer coisas diferentes também — como a cena que o Kanye [West] fez com agora com o [James] Turrell, Jesus is King, que curti bué –, gostava de me envolver com um artista visual e não dar a primazia apenas à técnica, mas mais ao conceito e à cena visual também. E fazer a tal performance no Melides Art, em que ia filmar tudo, e os concertos que me faltam das Janeiro Sessions Live Tour, que acho que era uma cena digna de acabar.

Para terminarmos reparei que neste Sem Tempo não existe nenhuma faixa trip, talvez porque todo ele seja uma trip, mas queria perguntar-te se continuas a tripar bastante com a tua música?

Bué, bué, bué…. e acho que a mais tripante para mim é a “Peppermint”, que vem dum poema que a Beatriz Novaes (prima do Paulo Novaes) escreveu para mim [a partir] de uma descrição minha, em que ela diz: “peixes luminosos caminham pelo ar”, que é a forma como ela me vê e que foi lido pela Swilaw. Acho que essa é a faixa mais tripante e claro que continuo a tripar em música e não consigo parar. Aliás, estava-te a mostrar há pouco um microfone novo que encomendei e mais umas cenas com que estou bué excitado, porque quantos mais álbuns um gajo faz, mais equipamento consegue comprar e utilizar, e mais criativo consegue ser também. Por isso acho que é tudo uma cena que vai sempre subindo.


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