GÁBE sobre a colaboração com Ângela Polícia: “Achei que a identidade e a energia do som dele eram bem parecidas com a minha”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

GÁBE convidou Ângela Polícia para uma colaboração via Internet. O resultado tem o título “As Noites Contam Histórias” e conta com um instrumental de Bova e um videoclipe realizado por JODO.

É verdade que as noites contam histórias, mas GÁBE e Ângela Polícia contam-nas melhor. Aquilo que acontece nas ruas do Brasil e de Portugal juntam-se numa peça que casa a obra entre dois noctívagos que procuram inspiração nas horas mais tardias, quando um copo, uma nuvem de fumo e um microfone são as únicas companhias possíveis para amenizar o stress de mais um dia na correria.

A representar o Rio Grande, GÁBE é uma das promessas da nova escola do rap brasileiro, um artista que não olha a fronteiras na horas de escolher o próximo beat ou inventar a próxima rima. Para quem o acompanha de perto no YouTube, já está acostumado aos sucessivos devaneios que entram com regularidade no seu canal. Anbu (A Teoria das Máscaras) é o EP de estreia, que contou com produção integral de Alã e saiu para a rua em Junho.

Nos radares nacionais está Ângela Polícia, multifacetado músico de Braga que chamou a atenção de GÁBE com o poderoso “Quarto Pt. 1” — o tema fez parte do alinhamento de Pruridades, o projecto de estreia pela Crate Records quem foi destacado como um dos 10 melhores projectos nacionais de 2017 pelo ReB. Numa troca de impressões sobre “As Noites Contam Histórias”, Ângela Polícia explicou todo o processo de criação:

“O Gábe veio falar comigo através do Facebook. Ainda não o conhecia. Disse que tinha gostado muito do tema ‘Quarto Pt.1’ e do meu álbum em geral. Apresentou-se e mostrou-me uns temas e vídeos dele. Fui espreitar o trabalho dele e espantei-me com a quantidade de material de grande qualidade que já tinha lançado, a solo ou com outros artistas e colectivos. Vi que era um artista dedicado em lançar o seu material e espalhar a sua mensagem. O seu conteúdo é muito rico, interventivo, complexo e brinca-na-areia com as rimas. Adoro isso. Dá para ver que gosta muito de ler, ouvir música, cinema, de viver a cultura e a vida. Está atento a panoramas sociais, movimentos culturais e aos estados sociopsicológicos da sociedade. É um individuo criativo, autogestionado, solidário e identifiquei-me com ele. Ele falou em fazermos uma colaboração e eu alinhei. Um dia mostrou-me um beat do Bova, que instantaneamente adorei. O Gábe disse que o mote era ‘As Noites Contam Histórias’ e eu alinhei. Escrevi as primeiras estrofes, gravei, mostrei-lhe, ele gostou e eu segui em frente com as gravações finais. Gravei as vozes no meu estúdio e enviei-lhe. Ele disse que estava tudo bem com as gravações e mostrou-me as dele, que adorei também. Passados alguns meses aqui está o resultado: mais uma ponte construída, mais um laço reforçado entre as nossas nações irmãs.”

À boleia desta nova parceria entre países irmãos, o Rimas e Batidas também aproveitou para falar com GÁBE, que orquestrou todo o tema a partir de Rio Grande, no Brasil, com o auxílio de Bova, JODO e Luweed da Cérberus Records.

 



Presumo que ainda não tiveram oportunidade para se conhecerem pessoalmente. Como é que surgiu esta parceria?

Conheci o trampo do Ângela com o lançamento do clipe de “Quarto Pt.1”, através da timeline de algum amigo do Facebook. Acabei entrando em contato com ele pela página e de lá seguimos trocando ideia.

Depois de ouvir o “As Noites Contam Histórias”, parece que a vossa poesia estava destinada a cruzar-se. Já seguiam o trabalho um do outro à distância?

Exatamente. Esse foi o motivo por logo ter entrado em contato com esse “tuga”! Achei que a identidade e a energia do som dele eram bem parecidas com as minhas.

Estando separados por um oceano e vários quilómetros de terra, qual foi o procedimento que usaram para chegar a este resultado: desde a ideia à escolha do instrumental, desde a escrita da letra à gravação e envio das pistas um para o outro?

Eu, particularmente, já tenho esse tipo de costume. Já tenho trabalhos em conjunto com MCs de vários lugares do Brasil que, por ser um país grande, dificulta o encontro presencial, então é esse o método mais simples. Mandei o beat e a ideia, o Ângela gravou de lá e me mandou as pistas. Eu gravei aqui de Rio Grande, que é onde moro. E com as vozes dele reencaminhei pro Luweed da Cérberus Records, um mano que vive em Florianópolis e que fez a mix e master. Com o trampo finalizado, enviei pro Lucas Negrelli de São Paulo, que junto com a JODO contribuiu pro audiovisual.

Além das rimas cerebrais, também o instrumental é todo ele muito introspectivo, bastante atmosférico, numa espécie de híbrido entre trap lo-fi e IDM. Quem é o Bova, como chegaram até ele e o que vos fez saltar sem receio neste instrumental?

Bova é um mano muito talentoso de Pelotas (salve, sweet home!), cidade vizinha de onde moro. Já tinha algum contato com ele e trocava bastante ideia. Assim que ele produziu o beat acabou me enviando e mesmo antes de falar com o Ângela eu já estava com ele em mãos.

Curiosamente falei do JODO recentemente no Rimas e Batidas — acho muito engraçado todo o enredo que ele cria para os vídeos que realiza, uma espécie de mini-história dentro de outra história, que é o tema que ilustra. O que é que vos levou até ele e de que forma o conceito do videoclipe casa com a mensagem que vocês transmitiram no “As Noites Contam Histórias”?

Então, o Negrelli (um dos representantes da JODO) era um mano que eu também já tinha trocado bastante ideia e deixado a possibilidade de alguma collab no ar. Quando o Bova me mandou o beat, já possuía o título “As Noites Contam Histórias”. Isso já tinha me trazido várias brisas e, discutindo sobre o tema, eu e o Ângela decidimos limitar a esse título, e acabou dando nesse som. Enquanto o Luweed mixava eu pensei na JODO pro audiovisual. Exatamente por essa proposta, de passar uma frase curta com um conceito amplo, onde eu sabia que eles iriam explorar a imagética que sempre trazem e resignificar o trampo, deixando ele ainda mais amplo.

Vêem-se a trocar mais ideias em cima de instrumentais, num futuro próximo?

Certo! Eu sou o entusiasta dos feats, acho que muitas mentes envolvidas engrandecem a energia da canção. Então espero que possam vir mais tanto com o meu mano Ângela, como com outros bruxos de Portugal e do Brasil!

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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