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Fotografia: Rafael Baptista

O músico do Porto faz parte da lista de créditos do novo disco de Trippie Redd.

FRANKIEONTHEGUITAR: “A vontade de chegar mais longe esteve sempre cá”

Fotografia: Rafael Baptista
Em Março de 2017, altura em que falou pela primeira vez com o Rimas e Batidas, Francisco Gualter Baptista ainda era um jovem acabado de entrar na idade adulta que procurava (de guitarra em punho) o seu lugar no hip hop nacional. Dois anos e alguns meses depois, o seu nome está nos créditos de um álbum que, em semana de estreia, aterrou no primeiro lugar da Billboard 200. De Aveiro até A Love Letter To You 4, o mais recente disco de Trippie Redd, nada como uma boa dose de vontade, persistência e sorte para conseguir um placement que pode mudar tudo:
“Em Setembro, eu fui lá ao estúdio do Mic, a Sine Factory, em Aveiro, e a história foi muito engraçada: nesse dia eu não tinha sessão marcada, era o Bispo. Eu estava no Porto e o Bispo ia de Lisboa para lá e falou comigo para ir também. Eu estava com uma ideia de dois samples, até tinha feito durante a noite anterior e gravado para o telemóvel com voz. Não sei porquê, estava a tocar guitarra e saíram-me umas melodias com voz. Eu perguntei ao Mic se podia ir mais cedo para gravar pelo menos uma dessas ideias, e foi o que aconteceu. Depois fizemos a sessão com o Bispo, e já era uma ou duas da manhã, o Michael já estava a arrumar as coisas e eu estava com aquele bichinho, ‘tenho ainda este sample…’ O Michael já estava com olheiras — ele trabalha mesmo todos os dias para imensos artistas. E eu, ‘ó Michael, não dá para gravar?’ E ele”, epá…” Mas depois lá aceitou. Comecei a gravar, ele curtiu da ideia, ainda estivemos mais uma ou duas horas a experimentar cenas no sample e foi tudo rápido. Eu saí da sessão com o sample em MP3 e mandei ao produtor, ao Hammad Beats, com quem já tinha trabalhado em algumas cenas.”
No entanto, é preciso dar ênfase à palavra “persistência”:
“Nos primeiros meses do ano comecei a investigar produtores que trabalhavam com ele, não só produtores, mas A&Rs e managers para poder enviar ideias, mas tudo pela Internet. Se souberes usar a Internet, safas-te muito mais facilmente do que antigamente. A cena não só com o Trippie, mas com outros artistas americanos é que eles muitas vezes gravam 10, 15, 20 ideias e só uma delas é que sai. Se tu lá nos Estados Unidos não fores um Murda Beatz ou um Metro Boomin e estiveres realmente com os artistas em estúdio, eles são capazes de gravar e, se não for para sair, ninguém te contacta. Poderás nunca saber. Eu, por acaso, na altura estava a colaborar com três ou quatros produtores que trabalhavam directamente com ele e um deles disse-me que tinha gravado uma demo, supostamente até com o Playboi Carti. E eu ficava sempre naquela expectativa. “
Se a Internet possibilitou tudo isto, também foi por lá, mais propriamente por uma rede social, que descobriu que o artista norte-americano estava a trabalhar em cima daquilo que tinha criado:
“Gravei guitarra, voz e baixo neste sample. E enviei a ideia [ao Hammad]. E ele, ‘é esta’. Ele mandou-me o beat de volta passado umas horas, mas não me disse logo que tinha enviado ao Trippie. Eu depois fiquei de lhe mandar as stems para ele organizar, mas ele já tinha feito o beat com MP3. Isso foi numa quinta-feira. Na segunda-feira, enquanto estava num jantar de família, fui ao Instagram — e o Trippie é daqueles artistas que posta alguns snippets. Eu ponho aquilo no ouvido… Saí da sala, fui para a sala ao lado, ouvi e foi uma sensação… pá, foi uma sensação fixe de concretização. Logo a seguir o Hammad mandou mensagem a dizer que tínhamos conseguido.”
Se o primeiro sinal chegou em Setembro, a confirmação só aconteceria algum tempo depois, exigindo alguma paciência da parte de FRANKIEONTHEGUITAR, que seria obviamente recompensado com a entrada num mundo novo:
“Só há duas ou três semanas é que veio o paperwork deles. Até lá havia aquela cena: não se sabia se entrava no álbum. Ele escolhe, mas a label é que tem a decisão final. Entretanto acho que ele já gravou em mais duas ou três ideias, mas talvez para um projecto de futuro. Neste momento, e eu nem acredito que estou a dizer isto, mas sei que a qualquer momento um Drake, um J. Cole, malta assim grande, está a ouvir cenas minhas e pode acontecer um placement. Lá está, estes artistas gravam N demos e maior parte não sai, mas a qualquer momento pode [acontecer] porque esses artistas já estão a ouvir as minhas coisas. E agora, na minha opinião, a arte falar por si e um bocado de sorte. É uma questão deles gostarem mesmo do sample e do beat. Tudo pode acontecer. Se há um ano me dissessem que eu iria ter esses artistas todos a ouvir as minhas cenas…”
Para os mais curiosos com as questões de royalties, o guitarrista do Porto também abre o jogo:
“Lá nos States, o produtor é registado também como writer. É mais pela parte da composição. Tal como aqui a maior parte dos artistas, pelo menos do hip hop, trabalham 50% para a parte da produção, 50% para a parte do artista que é normalmente quem escreve. Nos States ficou 50% para o Trippie, e eu e o Hammad dividimos a outra metade. Há um bolo ainda maior que a label dele tira, mas o resto é dividido dessa forma.”
Apesar de ter contribuído para hits com milhões de visualizações e plays (só no seu ano de estreia deixou marca em “Não Sinto” dos Wet Bed Gang e “Por Pouco” de Lhast), o sucesso precoce não o torna mais acomodado:
“Imagina, ainda é difícil [ser músico de sessão] em Portugal. Há algumas pessoas com muitos anos de carreira que conseguem viver bem, mas a vida de um músico ainda se baseia muito em hustle até chegar à estabilidade. E isso, para mim, também desafia-me até certo ponto a querer fazer sempre mais.”
Em apenas dois anos, o seu caminho tem sido feito em subida constante (não só trabalha com muitos artistas nacionais de topo como também é guitarrista na banda de Bispo). Existe uma receita para isto? “A vontade de chegar mais longe esteve sempre cá — e a sorte ajuda muito em algumas situações”, conta. “Conhecer as pessoas certas. Conhecer as pessoas erradas também é bom para aprenderes.” E não esconde o que lhe permitiu chegar ao outro lado do oceano:
“A cultura lá é mandar samples. Na minha opinião, a melhor maneira de chegares a placements grandes é trabalhares com produtores que já estão a trabalhar com esses artistas major. E a maior parte dos produtores estão à procura de samples, não de beats. Já estava há mais de meio ano a mandar e-mails, a mandar samples e a fazer ideias para enviar. As cenas acabam por acontecer. Eu, por acaso, nesse aspecto ainda não estou com essa patente, por assim dizer, mas eu espero daqui a um ou dois anos ajudar os produtores da tuga a chegarem lá fora. Se calhar tens melhores produtores cá do que tens lá nos States.”
Numa conversa que decorreu num pequeno café em Moscavide, o músico (que tem dois temas em nome próprio cá fora, “Good Vibes” e “Level Up”) falou ainda do “muito versátil” T-Rex e de Mic, com quem tem aprendido “imenso”, porém, o que fica na mente é a alegria de quem ainda está a tentar perceber se tudo não passa de um sonho. Pelo que tem publicado no Twitter nos últimos dias, a contribuição para “Love Sick” foi apenas o começo: já faz olhinhos a PARTYNEXTDOOR e Juice WRLD e os Internet Money, um dos colectivos de produtores mais mediáticos da actualidade, andam a sondá-lo. As cartas de amor, se forem enviadas pela pessoa certa, ainda fazem sentido em 2019. Vão lá perguntar ao FRANKIEONTHEGUITAR se não é a mais pura das verdades.

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