Sine Factory: 10 anos a contribuir para o rap português a partir de Aveiro

[TEXTO] Moisés Regalado [FOTOS] Rafael Baptista

Bem-vindos à Sine Factory. Estabelecida em Aveiro desde 2009, a “fábrica” de Michael Ferreira já é um dos sítios incontornáveis do panorama nacional. Costuma acolher os grandes — ou, melhor dizendo, os maiores –, mas nunca lhe falta espaço para novos artistas. É Michael, o chefe, quem o garante, enquanto interrompe a mistura do novo tema de Jimmy P para receber o Rimas e Batidas numa das Mecas do nosso movimento. Em ano de 10º aniversário da Sine, está na altura de conhecer o homem que anda a moldar, na sombra, o som do rap português.

Se o assunto for hip hop tuga, Aveiro também é capital e Michael, um dos técnicos mais requisitados, ocupa o trono. Jimmy P, Wet Bed Gang, Bispo, Phoenix RDC, Estraca e Piruka, isto para citar apenas alguns daqueles com quem Mic costuma trabalhar, seja desde a captação, como acontece regularmente com Jimmy, mas também para misturar e masterizar temas que não nasceram na sua Sine Factory. Michael, Mic, como quase todos lhe chamam, ou ainda Michael “Mic” Ferreira, versão completa que vai estando cada vez mais presente nos créditos da música feita por cá.



Antes de se estabelecer no activo, há exactamente 10 anos, o luso-americano passou grande parte da sua vida entre continentes e foi como rapper que começou por dar voz às suas ambições, típicas de alguém que praticamente nasceu como ouvinte de rap. Se as referências culturais fizeram a diferença? Mic não sabe responder ao certo, mas desconfia que sim: “Lembro-me de ser puto e estar em casa a ver o funeral do B.I.G. na televisão, em directo”, revela no início da conversa.

Num dia normal chega ao estúdio de manhã e de lá só sai depois do sol tapado há muito. Nada que incomode quem está nesta vida por opção. “Quando entrei pela primeira vez em estúdio com os NAD (banda de Aveiro na qual desempenhava o papel de MC), para aí em 2005, apaixonei-me pela cena ao olhar para as máquinas. Adorei tudo, a mística do estúdio. A minha mãe queria que eu entrasse na faculdade e eu concorri a Belas Artes, no Porto e em Lisboa, mas não tinha média para nenhuma”. E então? “Mandei-me para os Estados Unidos”. E foi em terras do Tio Sam, perto da sua Nova Jérsia natal, que Mic começou a perseguir o sonho.



O primeiro obstáculo não tardou — “vi as propinas e eram algo como 16 mil dólares por ano”. Voltou a fazer as malas, regressou a Portugal e ingressou na Restart sem nunca mudar de ideias. “O meu objectivo era trabalhar num estúdio, não obrigatoriamente meu, e até foi o Kad (ou Sarcasmo, rapper de Aveiro) que me orientou um estágio curricular no Porto, mas rapidamente me apercebi que tinha que criar a minha cena. A Sine Factory começou como marca, como um selo de qualidade, e eu criei isso ainda na Restart, antes de ter estúdio. Depois disso é que passou para o meu quarto, e consequentemente para estas salas que têm vindo a crescer”.

Quem lá chega pode ficar surpreendido. As máquinas que o enamoraram à primeira vista estão presentes, é certo, só que não há cabine ou uma mesa de mistura tradicional. “Acho que a malta já se habituou. Às vezes ainda ficam naquela por não ter cabine mas são poucos os artistas que se importam com isso, desde que no fim lhes soe bem. Mesmo como artista não gostava da cabine, sentia que era bué frio. Imagina, estás na régie com o pessoal todo na galhofa e depois vais para uma sala à parte, onde vês o técnico e os teus amigos por um vidro. Isso não cria hype nenhum”. E talvez a proximidade seja um dos ingredientes mais importantes para esta receita de sucesso, não faltando situações que o ilustrem. “Por exemplo: quando estive a gravar com o Jimmy nos estúdios da Valentim de Carvalho, que são dos melhores a nível nacional, a ideia inicial era fazer mais viagens. Entretanto ficámos lá três ou quatro dias e ele percebeu que não estava fixe. Não pela qualidade de som, porque não ia buscar mais ou menos, mas por uma questão de conforto. Além de que comigo, gravas um take, dou play e praticamente já ouves o resultado final”.



A Sine Factory não anda nas bocas do mundo, mas basta olhar para o currículo do seu homem do leme, tão discreto na vida como nesta indústria musical que lhe paga as contas. O serviço não falha e é fácil perceber porquê: mesmo sem tempo — “Tenho a agenda preenchida até ao final do ano. Estou a marcar para Janeiro de 2020.” — e depois de uns quantos hits no bolso (“NÓS2“, “Chaminé” ou, mais recentemente, “Até Já“), nunca nega uma proposta de trabalho.

“Digo sempre quando é que estou livre. Se tiverem urgência disponibilizo-me para ir ao estúdio num domingo, que é o meu dia de descanso, mas cobro o dobro. Desde que o meu filho nasceu, o dia de descanso é prioritário, se não nunca estou em casa. E cobrar o dobro acaba por ser uma forma de dissuadir o cliente”. Perguntámos-lhe se a estratégia tem resultado, a bem do tão merecido descanso, e a resposta não deixou margem para dúvidas. “Tenho os domingos todos ocupados. E não, não é bom”, confessou enquanto sorria, sabendo que, no fundo, melhor é impossível.


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