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Fotografia: Gil Simão

Desvanecer e desaparecer em sinal aberto.

Folclore Impressionista: “Seria muito interessante ver um dia a RTP a licenciar qualquer coisa de A New Sensation…”

Fotografia: Gil Simão

“E, nesse sentido, mas não só, A New Sensation: Music For Television é um claro triunfo porque se liberta do tempo – sai em 2020, mas bem podia ser um registo perdido criado, como já sugerido, em 1979, 1983 ou até 1995 ou 2004…”, escreveu-se por aqui no início de Setembro. Não há, realmente, necessidade de colar a obra dos Folclore Impressionista a datas: ela sobrevive nas margens como parte de um tempo que é uno, passado, presente e futuro em simultâneo.

Este mês, há duas datas para entender o espectro total desta hauntologia à portuguesa, uma nas Caldas da Rainha, outra em Lisboa. Se quiserem perceber o que vão encontrar, podem ler a nossa reportagem da apresentação do disco na SMUP.

Numa troca de e-mails, fomos ao fundo da questão: que camadas são estas que compõem estranha música para televisão?



O Folclore Impressionista assinou com o A New Sensation aquele que é provavelmente o seu mais ambicioso trabalho até à data. No conjunto da vossa obra sentem que representa o elevar da fasquia, sentiram-se a ir mais longe?

Admitimos que possa ser feita essa leitura, tendo em conta as múltiplas reacções elogiosas que temos vindo a receber, algumas delas bastante surpreendentes e até mesmo improváveis. De qualquer modo, apesar das diferenças notórias entre os vários álbuns, podemos encontrar uma espécie de tronco co­mum em todos eles, que é a ideia de desvanecimento, no sentido de “eeriness“, que lhe é atribuído por Mark Fisher.

CAMPOS ESPECTRAIS I centra-se no desvanecimento da memória. Recorrendo às estratégias operativas da psicogeografia, procuraram-se portais de acesso a um passado remoto mais ligado à infância, para a partir daí confabular sobre esse mesmo passado reminescente de uma ruralidade já desaparecida, onde ainda era possível encontrar vestígios de uma mitologia pagã, apesar dos espartilhos da igreja católica e do regime político da altura. CAMPOS ESPECTRAIS II trata do desvanecimento dessa mesma paisagem, no sentido que lhe é dado por Brian Eno em On Land, quando tem a percepção de que jamais existe uma clara distinção entre o plano de background, onde realmente tudo acontecia (espaço de liberdade, fantasia, aventura, magia, etc), e o plano de foreground. A NEW SENSATION aborda o desvanecimento do fascínio pelo “novo”, sem dúvida um dos elementos estruturantes da ideia de futuro e da forma de pensar das gerações que cresceram no pós-guerra, mas claramente  em processo de extinção desde a transição para a pós-modernidade, como consequência do cinzentismo estratégico das políticas neo-liberais. É uma espécie de “eerieness of the weird”.

Portanto, num certo sentido podemos dizer que temos vindo a trabalhar sobre o mesmo tema (um meta-tema) a partir de diferentes perspectivas. É um processo continuado e cumulativo, onde em cada etapa vamos chegando um pouco mais longe. Mas, claro, do ponto de vista formal há diferenças bastante óbvias entre os três álbuns e, nesse aspecto, concordamos que esta edição atingiu de um nível de resolução mais interessante do que as anteriores.

São vocês mesmos que descrevem este trabalho como “uma colecção caleidoscópica de melodias estranhamente familiares para televisão”. Quando compõem, como é que conseguem aceder a esse banco de memórias? É um acto meramente reflectivo e intelectual ou implica também alguma arqueologia nos labirintos mais remotos do YouTube em busca de velhos genéricos de programas, antigos documentários, etc?

Bom, na realidade acontece um pouco de tudo isso. Podemos dizer que existem vários processos a correr em paralelo, que vão tendo influencia uns nos outros e, com isso, vão redesenhando dinamicamente um caminho que se vai aproximando mais ou menos do conceito inicial. Não há uma linearidade neste processo, existe sim uma certa circularidade na forma de fazer as coisas, apesar de haver sempre um rigor conceptual na orquestração dos vários eventos.

O landscape televisivo dos anos 60 e 70, e até mesmo do início dos 80, representa um tempo em que ainda se sentia esse fascínio pelo “novo” e por uma concepção de uma ideia de futuro. E aqui, a library music, operando como reconector de memórias, mas actuando a um nível mais subliminar, funciona como trigger, abrindo portas de acesso a  mundos imaginários.

A noção de “estranhamente familiar” foi fundamental em todo este processo. Houve, claro, do nosso lado, um trabalho de pesquisa, que incidiu sobretudo no universo da library music, não só através de pesquisas no hiper-abundante YouTube, mas também a partir de documentários e publicações escritas, ao qual não escapou o Rimas e Batidas. Contudo, sem querer menosprezar a importância da investigação feita, foi sobretudo o conceito subjectivo de “estranha familiaridade” que acabou por tomar as rédeas do processo. O álbum não é propriamente uma tese sobre library music, pelo que demos primazia ao efeito emocional, de caracter mais pessoal e subjectivo, induzido pelos temas a partir das nossas memórias difusas. Isto ao ponto de praticamente só nos interessarem aqueles temas que nos faziam sentir uma sensação de déjà-vu, ou seja, que nos dessem a estranha sensação de já existirem.

Há igualmente uma espécie de dimensão de manifesto quando declaram na apresentação do novo disco que esta música tem “uma dimensão psicadélica que permite a ligação a um mundo Exterior, um acto de deleite, mas também de resistência perante a insipidez da realidade mundana”. Espero estar a traduzir correctamente. Podem elaborar um pouco mais sobre esta ideia? Em tempos, quando tínhamos o Espaço 1999 ou A Quinta Dimensão na TV, as nossas mentes adolescentes viviam capturadas por uma ideia de futuro. Agora que já vivemos no futuro, será no passado que vamos encontrar a libertação?

Sim, em parte já abordámos isso em pontos anteriores. Mas, de forma um pouco mais explicita, do que se trata é de destacar a dimensão política, entendendo que a conjectura de mundos paralelos, tão frequentemente associada à hauntologia, para além das possibilidades estéticas que abre, constitui também uma estratégia de resistência às políticas neo-liberais do capitalismo, que de forma sistemática tem incorporado uma lógica de negócio em todos os sectores da sociedade, desinvestindo na ideia do bem comum/público e num conjunto de estruturas fundamentais ao desenvolvimento do pensamento criativo e intelectual, que lenta e progressivamente têm conduzido a uma cultura de normalização, a tal realidade insípida de que falámos, e ao cancelamento da possibilidade de uma ideia de futuro.

Entendendo esta ideia de futuro como uma trajectória, que a cada momento produz as suas próprias expectativas relativamente ao que poderá ser esse futuro, normalmente traduzido por deslocamentos significativos relativamente ao presente, percebe-se que essa ideia de futuro tem vindo a ser desmantelada, e que será necessário recuar até um tempo anterior à transição pós-moderna para reencontrarmos novamente a força desse conceito. E, de facto, os últimos vestígios duma ideia de futuro encontramo-los nos futuros prometidos (mas nunca alcançados) às gerações que nasceram nas décadas de 60 e 70, suportados pelo mito de um progresso linear ao nível social, político e científico, este tão bem capturado por nós através de séries como o Espaço 1999. Mas, de facto, o nosso presente nem representa os futuros conjecturados nas décadas passadas (esse futuro não chegou), nem mostra ter capacidade para conjecturar novos futuros, que não aqueles que passem por ansiedades várias de natureza ecológica. Resta-nos, por isso, usar o poder da fantasia para escapar do presente.

Podem falar um pouco sobre a dimensão mais técnica deste álbum: foi gravado em casa? Em que período e com que ferramentas?

O ponto de partida para este álbum foi a gravação do tema “Music for Television” para uma compilação da britânica Woodford Halse, que saiu em Agosto de 2019. Inicialmente havia a intenção de incluirmos este tema no álbum, mas acabou por ficar de fora, apesar do título.

O álbum foi composto, gravado e misturado em casa, quase de rajada, durante os meses de Agosto e Setembro de 2019. Agrada-nos bastante esta ideia de que as coisas façam parte de num contexto temporal concreto, de preferência próximo do momento da energia inicial, e talvez o facto de tudo ter sido realizado num tão curto espaço de tempo tenha sido um factor determinante para a unidade do álbum. Claro que nos meses que se seguiram, e enquanto a edição não estava definitivamente fechada, fomos fazendo algumas alterações. É muito difícil ter um processo destes aberto e conseguir resistir à tentação de lhe mexer…  A edição estava inicialmente prevista para a Primavera de 2020, mas acabou por ter de ser adiada para setembro, por razões relacionadas com a pandemia.

O álbum foi gravado em computador, mas este foi usado exclusivamente nos processos de gravação e mistura. Os sons foram gerados maioritariamente por maquinaria analógica dos anos 70 e 80, combinada com alguns instrumentos da geração mais recente, também eles maioritariamente analógicos, e só muito pontualmente recorremos a um ou outro sintetizador digital para sons mais específicos. Usámos também uma panóplia de pedais durante o processo de gravação, e pontualmente durante a mistura.

Na masterização, que também foi um processo caseiro feito por nós, utilizámos um antigo gravador de bobines, com fita de 1/4”.

A dimensão visual é decisiva na construção do vosso universo, tal como se pode constatar nas vossas apresentações do A New Sensation. Que mensagens se abrigam naquelas misteriosas imagens que exibem com a vossa música?

O universo visual para o A New Sensation parte do resgate simbólico da ideia de desvanecimento e desaparição no sentido de “eeriness” conforme foi referido anteriormente. Essa posição surge no início do próprio processo reflexivo sobre a questão fundamental que era “que imagens?”, em que conscientemente se optou por usar as imagens tendencialmente esquecidas, imagens que (já) ninguém quer ver e que por isso estão a desaparecer, como por exemplo as imagens-ciência em forma de ficção de Jean Painlevé ou Vladimir Kobrin, a par de documentários didáticos realizados em película nos anos 70 sobre a natureza (Nature Films) ou ainda o cinema experimental. Deste modo, a função estética predominante implicou, por vezes, a reconfiguração poética de elementos não poéticos ou extra-estéticos na sua origem, para se construir uma narrativa livre, em que as imagens trabalhadas ao vivo permitissem reforçar e acrescentar outras camadas na dimensão psicadélica de A New Sensation.

Os Folclore Impressionista têm vindo a reforçar as suas ligações a uma cena mais vasta e internacional, por muitos classificada como hauntológica, graças a participações em compilações, caso recente de uma colaboração com A Year In The Country, por exemplo. Acham que existe uma perspectiva portuguesa para a noção de hauntologia? O nosso passado catódico é “assombrado” por diferentes fantasmas?

Bom, o conceito de hauntologia é bastante tricky e, na nossa opinião, tem evoluído desfavoravelmente nos últimos tempos. É necessário manter alguma perspectiva histórica sobre o tema, porque aquilo que inicialmente era fundamentalmente uma sensibilidade e um espaço de resistência, rapidamente se transformou numa receita estética.

A sensibilidade que hoje designamos por hauntológica, surgiu em meados dos anos 90, ainda mesmo antes de haver um nome para a coisa (os nomes aparecem sempre depois, porque dão jeito). Começava nessa altura a surgir um grupo muito restrito de projectos que partilhavam essa nova sensibilidade, que não se enquadrava nos cânones da altura, e que se manifestava por uma nostalgia por um passado recente que ameaçava desaparecer e pela utilização de instrumentos e técnicas de gravação que haviam ficado obsoletas com a entrada no mundo digital. Não existindo ainda um rótulo para descrever o que estava a acontecer, eram naturalmente muito poucos os que espontânea e genuinamente começavam a trilhar esse caminho. Esta fase, que podemos designar de proto-hauntológica, tinha como representantes lá fora nomes como os Stereolab, Broadcast, Boards of Canada ou Air e, por cá, os Supernova. A sensibilidade hauntológica vai ter mais tarde um segundo momento quando, em 2005, Simon Reynolds e Mark Fisher cunham o nome “hauntology” para se referirem a um conjunto de projectos que cultivavam uma nostalgia relacionada com o modernismo popular britânico dos anos 60 e 70. A partir daqui começa a haver uma curiosidade natural sobre o tema, que começa a escalpelizado em diversas publicações. Se esta exposição mediática tem aspectos muito positivos, também tem o efeito perverso de transformar muito rapidamente esta subcultura num maneirismo estético, transportando-a para o território do mainstream. Este terceiro momento da hauntologia, que se inicia grosseiramente com algumas publicações de maior impacto, como Electric Eden ou Retromania, propicia o surgimento de uma panóplia de receituários vários de maquilhagem rápida, que prometem uma hauntologia instantânea capaz de transformar os Fleet Foxes nos novos Broadcast. Chega mesmo a ser hilariante ver alguns a tentar falsificar o passado, para procurar legitimar o presente.

Se tivermos como perspectiva os primeiros dois momentos da hauntologia atrás referidos, podemos dizer que, a um nível mais macro, existe uma sensibilidade hauntológica comum, que é transversal a todo o mundo ocidental que nas últimas décadas passou por processos de transformação semelhantes. No entanto, à medida que nos aproximamos de escalas mais pequenas, os fantasmas que nos assombram passam a ser específicos de contextos culturais e geográficos locais. Até mesmo a ressonância de um mesmo acontecimento, filme ou situação, poderá ser bastante diferente de contexto para contexto. Mas é claro que para aqueles que seguem um receituário e tratam a hauntologia como um maneirismo estético, o que acabei de dizer não faz sentido nenhum, pois na sua base não está a honestidade intelectual, mas sim o brilho da aparência.

Podem dar-nos três ou quatro exemplos de TV de produção nacional dos anos 70 ou 80 para que gostassem de reimaginar as bandas sonoras?

Ah, seria muito interessante ver um dia a RTP a licenciar qualquer coisa de A New Sensation. Bom, mas isto somos nós a sonhar…

Antes de passarmos directamente à questão, importa sublinhar que o processo mental associado à composição de uma banda sonora para uma produção concreta é bastante diferente do processo de produção de material para library music, de que este álbum mais se aproxima, apesar de ambos terem um caracter funcional e um objectivo semelhante, que é o de contribuir para a criação de um mood especifico a partir de um plano de background. E a grande diferença é que na produção de library music não se conhece à priori o seu destino. Existe todo um mundo de possibilidades em aberto para a sua utilização, e muitas vezes esta surge em contextos dificilmente imagináveis para os seus criadores.

Agora pensando na TV de produção nacional dos anos 70 ou 80, seria muito interessante, por exemplo, podermos reimaginar algumas peças curtas para abertura de programas informativos, como o Telejornal, o Boletim Metereológico ou outros do género, pois este tipo de peças encerram sempre qualquer coisa de misterioso, apesar da sua elevada eficácia enquanto logos sonoros. Numa outra escala, o clássico Duarte & Companhia seria tão irresistível quanto um enorme desafio. E, por fim, o Lugar do Morto, apesar de não ser um filme para TV, pelo fascínio inexplicável que sempre exerceu em nós.

Neste momento, com que artistas internacionais entendem que possuem maiores afinidades?

Há vários artistas a fazer música por quem temos uma grande admiração, e essa admiração resulta não só da enorme qualidade da sua música, mas também da percepção que temos de uma certa ética na forma de fazer as coisas, que é uma dimensão a que cada vez damos mais valor. Logo à cabeça surgem o David Mason (Listening Center) e o Jon Brooks (Advisory Circle), que nos conseguem sempre surpreender.

A Russian Library já conta com vários lançamentos, mas o A New Sensation foi o vosso primeiro álbum. Há mais planos para lançar outros artistas neste formato?

Sim, temos planos para editar um novo 12” no primeiro semestre de 2021, mas não há ainda uma calendarização. Vamos com calma, pois antes desse ainda queremos fazer mais algumas edições noutros formatos. Acho que o próximo ano poderá trazer algumas surpresas interessantes por parte da Russian Library, se conseguirmos concretizar algumas das ideias que temos.

Próximos passos para o Folclore Impressionista, tanto em termos de apresentações como de edições?

Vamos ter mais dois concertos ainda em Outubro, que deverão ser anunciados em breve. O primeiro será nas Caldas da Rainha, no dia 14, e o outro em Lisboa, no dia 24.

Em termos de edições, vamos participar em mais uma compilação da britânica A Year In The Country, que será anunciada em breve, o que é fantástico, pois temos um enorme respeito pelo trabalho do Stephen Prince.  E depois temos previstas mais algumas participações em compilações, mas são coisas que ainda não estão calendarizadas. Um futuro álbum de Folclore Impressionista, muito provavelmente em 2021.


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