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Fotografia: Mário Martins

A quarta edição das Russian Library Sessions aconteceu anteontem na cada vez mais incontornável sala da Parede.

Ondness e Folclore Impressionista na SMUP: abstracções, ecos e memórias electrónicas

Fotografia: Mário Martins

Anteontem, na Parede, a SMUP recebeu a quarta edição das Russian Library Sessions, que contou com a presença de Ondness, um dos alter-egos de Bruno Silva (aka Serpente) que o ano passado lançou, na Souk Records, o álbum Meio Que Sumiu, e ainda do trio Folclore Impressionista, que assim estreou ao vivo material do álbum que acaba de ser dado à estampa, A New Sensation: Music For Television. Ambos os projectos já tinham deixado marca anterior no catálogo da Russian Library, tendo ambos repartido os dois lados de um dos singles da H Series, com que o selo se lançou.

Coube a Bruno Silva a responsabilidade de se apresentar em primeiro lugar, perante uma sala composta de público, devidamente sentado em cadeiras espaçadas como as regras impõem. À sua frente, dois laptops, um a debitar uma barragem de imagens abstractas, feitas de vagos motivos gráficos, de texturas, com um encadeamento que nega qualquer ideia de narrativa. As imagens servem antes de mais como traduções possíveis do som, mas mesmo tendo em conta o recurso a samples de vozes, tornadas etéreas pelo processamento, nada ali adquire um “significado” ou ensaia um qualquer arremedo de “mensagem”, para lá de uma livre ilustração visual do próprio som.

E na inóspita paisagem aural montada por Ondness há percussões desmembradas, sem pulso, sem “sentido” e, sobretudo, sem qualquer propósito “funcional” (a pista de dança, seja como for, já só pode existir na nossa cabeça e se calhar é assim mesmo, com sons desconjuntados e agrestes, que os neurónios dançam), reverberações espectrais, como se um microfone tivesse captado sob a abóbada de uma grande caverna a vibração interna do próprio planeta, e sub graves tectónicos que parecem carregar memórias muito distantes da rave. Há também ecos de uma certa exótica Hasselliana, farrapos de cor num oceano de carregados cinzentos.

Enquanto tudo isso acontece, a luz do monitor ilumina tenuemente o rosto do “performer” que se apresenta curvado sobre o teclado, obrigando-nos a pensar sobre o que significa a palavra “performance” neste contexto: o performer, perante uma grelha carregada de sons, é um decisor que em tempo real interage com um certo número de possibilidades que ele mesmo orquestrou. De certa forma, uma válida metáfora para os tempos que correm: “posto isto ou não? Envio este tweet ou nem por isso?”

Depois de um breve intervalo, João Paulo Daniel tomou o seu lugar entre Sérgio Silva, que ofereceu o elegante pulsar do seu baixo à electrónica assombrada do trio, e António Caramelo, que nos presenteou com um interessante puzzle visual, que se faz sobretudo de pormenores abstractos, embora se perceba que são sempre resultantes de uma qualquer subtracção aos arquivos da história e portanto pedaços da filigrana da memória. Há igualmente inóspitas montanhas geladas, inclassificáveis texturas orgânicas, pedaços de uma natureza tornada fluída e ultra-impressionista pintura mural, com interferências magnéticas nos suportes analógicos das imagens a acrescentarem uma psicadélica dimensão à projecção que se faz de carregado preto-e-branco, como nos alvores da televisão. E é de “música para televisão” que trata o longa-duração – que estava disponível numa bem recheada banca de merchandising – que os Folclore Impressionista acabam de lançar na Russian Library.

Beneficiando de uma excelente espacialização do som — João Paulo Daniel tinha à sua frente um gravador de fita, um par de controladores electrónicos, processadores de efeitos e, talvez o mais importante dos instrumentos, uma mesa de mistura –, a música do trio é altamente evocativa, traduz excitação pelo futuro, mas também uma delicada inocência que remete para memórias de infância, quando o monitor que se posicionava no centro de cada casa era a mais impressionante fonte de fantasia para as ávidas mentes de toda uma geração. E naquele contexto suburbano, numa sala que tem ela mesmo uma longa história e, portanto, o natural assombramento das memórias, fazem ainda mais sentido as viagens que o trio propõe, plenas de maravilhamento melódico e de rigor textural que nos coloca, logo às primeiras notas, noutro tempo. Ou, talvez melhor até, que nos libertam das malhas desse tempo. Com música assim, afinal de contas, há liberdade absoluta para sentir e para que cada um crie mental e emocionalmente os seus próprios filmes. A banda sonora proposta é, de resto, perfeitamente adequada para isso.

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