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Fotografia: Inês Sofia Pereira

Síria, Estados Unidos da América e Brasil no mapa do festival sineense.

FMM Sines’19 – 26 de Julho: e tudo Omar levou

Fotografia: Inês Sofia Pereira

Talvez o singelo caso de Omar Souleyman conseguisse convencer os cépticos quanto ao porquê de se recair neste emaranhado de “música do mundo” (puxando a brasa para uma sardinha muito específica). O alastramento da guerra pela hoje inóspita Síria forçou o prolífico cantor de casamentos, signatário de uns estimados 600 discos, ao exílio na fronteiriça Turquia. É uma relocação, pois claro, umbilicalmente ligada aos agenciadores europeus e norte-americanos que não o deixaram de perturbar desde aproximadamente 2007, com a ressurgência das suas cassetes no mercado ocidental. Havia aqui uma pútrida narrativa de salvação branca à espera de activação, mas a sua estética não foram os programadores que a inventaram — nem mesmo Souleyman, que insiste que o seu delírio electrónico de folk é a continuação de um legado territorial.

O que dizer sobre a relevância da “música do mundo” — sempre o Ocidente a tomar as suas rédeas — na potenciação, se não criativa, comercial do palmista techno? Não tanto quanto se poderia esperar: a parte de leão dos seus compromissos performáticos tem-se dado em certames de grande porte, não de nicho. Fará esta categoria alguma coisa por ele? Não parece que alguma vez lhe vá salvar a vida (apesar de, hipoteticamente, abrir as portas para conterrâneos e próximos seus), mas permanece como plataforma de longo alcance, quando a sua “novidade” oxidar — fenómeno a que, como veremos esta noite, Souleyman parece estar imune.

O concerto anterior é a sua verdadeira competição numa sexta-feira de volume (e assistência) exponencial para o FMM, que se ergue de pedra e cal — sem vacilar no projecto de dar relevo e contexto a cada artista, como somos recordados pela locutora que intercede no fim dos intervalos entre espectáculos. Antes de mais, a cabo-verdiana Lucibela enche as medidas de uma matiné bem composta e o perene brasileiro Chico César aquece o princípio da noite. Posto isto, atravessamos o Atlântico de barco e passamos a Brooklyn Bridge (o boné dos Yankees aqui perto significa que poderíamos estar a ser menos literais) e aportamos no swing mais obstinado e à prova de aborrecimento. Se KOKOROKO foram assertividade num modo casual, a festa de hoje fica entregue a uma das suas referências — como comprovado pelo tributo que lhes foi feito ontem pelos novos nomes do Afrobeat.

Os nove escudos dos Antibalas são céleres a munir o Castelo de Sines, como, de resto, têm sido desde o ano em que Bill Clinton definitivamente não esteve sexualmente envolvido com Monica Lewinsky. A artilharia principal é o vocalista Duke Amayo, que exsude, logo à entrada, a energia que vai despoticamente exigindo da plateia: “A vossa energia não tem limite, significa que não temos limite, somos infinitos”; “vamos activar a nossa energia!” São ideais que circulam numa actuação em crescendo permanente, uma ignição dilatada que consegue longevidade pelo investimento conjunto de tambores retumbantes, saxofone, trompete e guitarras fervilhantes, e um baixo que bate como um martelo; glória ao técnico de som pela mistura que autoriza o brilho individual e complementar. Uma hora e um pouco depois, a voz do FMM anuncia “Destino: Síria” e incorre numa rara imprecisão: dizê-lo kitsch. Porquê?

Omar Souleyman dá-nos a conhecer três movimentos fundamentais. Há o segurar hirto do microfone enquanto canta. Há o mesmo segurar, mas para postergar o microfone, enquanto dobra as mãos em direcção ao tecto. Há, finalmente — e aquilo que todos querem ver —, o acondicionar do microfone entre o antebraço e o tórax, libertando as duas palmas para encontrarem o delírio da batida. Milhares de mãos já se prontificam para quando o sírio decidir voltar a mimetizar os trovões pulsáteis de “Warni Warni” ou “Ya Bnayya”, vitaminadas ocasionalmente com um “yeeeaaaaah” por todos nós ecoado, mas nada mais.

Em boa verdade, pouco acontece durante um concerto do sírio, para além do seu calcorrear de lado a lado do palco, e do desferimento de pulsões e outros isótopos rítmicos, pratos em colisão e os sopros da sua terra nativa — uma banda contida no Korg do seu companheiro, que o manipula com o mínimo olímpico de entusiasmo. Não é para ficarmos surpreendidos, que fomos avisados no início. Souleyman já riscou uma pletora de países, festivais e orçamentos de uma lista que há algum tempo poderia nem saber ter, mas o estado de negócios mantém-se fiel a quando era um cantor de casamentos, e a entrada é tão anti-climática que chega a ser hilariante, quando é só o mais despretensiosa possível.

O seu teclista entra, desajustado, testa um pouco de “Wenu Wenu” (terá havido sequer soundcheck?); a acção parece afirmativa e segue-se das primeiras vocalizações de Souleyman, ainda fora de palco. Quando nos chega, gritos por todo o lado, para recebê-lo na sua aura plena — como imortaliza Gabriel Szatan na Crack, “óculos de sol, keffiyeh e um bigode finamente aparado”. E não há um ossinho ou uma vértebra que não se renda trémulo ao mestre: as suas palmas são os nossos mandamentos.

A acção também se atrasa e arrasta durante as festividades de sexta-feira, levando a que Rincon Sapiência, originalmente marcado para as 2h30, só suba ao palco Galp na Avenida Vasco da Gama já depois das 3 da manhã. O Manicongo, como o Rimas e Batidas testemunhou no Musicbox, em Lisboa, está em plena forma: a sua Galanga Livre, com picos em “A Coisa Tá Preta” e “Ostentação À Pobreza”, serve de mantimento — e o notável bónus de “Placo” — aos órfãos do Castelo, ainda famintos por mais. Mas a noite foi irrevogavelmente de Omar Souleyman. Há um movimento extra enquanto está no palco, também designada por benção: em que leva uma mão aos lábios, e deles endereça-nos um singelo beijo. Nesse momento, celebra-se em Sines uma boda especialíssima.


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