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Texto: ReB Team
Fotografia: Chikolaev

Youngstud e Sensei D. emergem do caos em oito temas.

Faixa-a-faixa: o álbum de estreia dos MACTO explicado pelos próprios

Texto: ReB Team
Fotografia: Chikolaev

I: Emergir do Caos é o primeiro acto de MACTO no formato longa-duração e aterrou hoje nas plataformas digitais enquanto edição independente.

A origem do projecto MACTO remonta a 2018, quando Youngstud e Sensei D. cruzaram os respectivos ofícios em “Snatch” — a faixa solta era ainda assinada com o nome de ambos os criativos e não durou na nuvem do YouTube por muito tempo, tendo sido recentemente republicada. A química em estúdio e os gostos em comum entre rapper e produtor catalisaram, de forma natural, a vontade de assumirem um trabalho a quatro mãos mais sério. Dois anos e 1001 experiências depois, a dupla solidificou as ideias mais urgentes num disco de 30 minutos de duração.

“Estamos aqui para vos retirar as entranhas sem anestesia”, dizia-nos Youngstud aquando do lançamento do videoclipe para o primeiro single de I: Emergir do Caos. O álbum de apresentação de MACTO é uma espécie de ensaio em torno das inquietações que atormentam a espécie humana — há sobredosagem de loucura em cima de beats nefastos, vestígios de desgaste psicológico e até se pesa a alma em sessões de confissão sem filtros.

Ouçam-no, se é que se atrevem. E decifrem-no com a ajuda do homem responsável por dar voz ao LP, que descreveu ao ReB alguns dos conceitos e ideias que serviram de base para os temas que compõem este alinhamento.


[“Semideuses / Semiloucos”]

“Esta faixa é a ‘sinopse’. Surge com uma aura sinistra e desconfortável até que rebenta um banger com graves gravíssimos. No tema, o meu statement é entreter com assuntos pesados e desagradáveis sem qualquer expectativa de que alguém os interiorize ou pense muito neles. É um bocado este o mote. Começo a letra com: ‘Messias? Esperavas? Querias! Não trago profecias, eu embelezo o esgoto para que te entre melhor como vaselina’. No meio disto acabo por satirizar um bocado o estereótipo dos ‘messias’ da sociedade moderna. A mensagem é clara, o que se vai seguir durante o álbum não te vai salvar a vida. Tal e qual como os teus deuses não o vão fazer.”


[“Burnout”]

“Com uma sonoridade ali entre o trap e o grime, esta faixa representa um lugar complicado em que estive na minha cabeça. A letra já tem uns dois anos, foi numa altura em que contemplei o suicídio e em que não estava sobre o controlo nem das minhas emoções nem das minhas interacções com as outras pessoas. Muita paranóia. As coisas que digo não são as mais meigas mas era realmente o ponto de situação da minha mente naquela altura. O sample do beat assenta que nem uma luva, acho que passa bastante aquela sensação da vertigem da ansiedade e do descontrolo. Daí ter abordado este tema num instrumental mais frenético em vez de uma cena mais lenta.”


[“Até Quando Eu Sou Fake”]

“Gosto bastante desta malha pelo facto de ter algumas cenas mais groundbreaking e por não ser como se costuma dizer ‘nem carne nem peixe’ a nível de sonoridade. É uma mescla de hip hop, trip-hop, ambientes tribais e um topping de heavy metal para completar. A nível de temática, é a minha abordagem ao conceito de ser ‘real’, algo que toda a gente julga e diz ser, mas nem sempre os outros o vão achar, porque todos temos o nosso próprio conceito. O statement é dizer-te para primeiro seres real contigo porque nunca vais ser unânime nesta vida, não existe uma convenção de mandamentos dos ‘reais’, por isso não te esforces muito para agradar que não vale a pena, nem fiques melindrado se te apontarem o dedo, porque tu não sabes verdadeiramente o que vai na cabeça das pessoas nem elas na tua. Orgulha-te do que és com todos os teus defeitos e fraquezas. A diferença torna isto giro…”


[“Inserir Refrão Aqui”]

“Uma faixa que atravessa os terrenos do trip hop e do hip hop, regada com o saxofone magistral do Zé Zambujo. Neste tema faço o ouvinte viajar pelas minhas observações da sociedade moderna, quase como se estivesse sempre preso ao papel de observador sem poder intervir, porque a avalanche humana de ignorância é um gigante em relação às considerações de um misfit, nunca vou poder ganhar. Só tentar absorver as réstias de humanidade enquanto há tempo. O refrão é literalmente ‘inserir refrão aqui’ repetido várias vezes. Um bocadinho um paralelismo com as captions nas redes sociais, do género ‘qual seria a tua caption para o que eu disse?'”


[“21Gr.”]

“Este tema fala da minha crença em energias invisíveis e no peso da alma, ao mesmo tempo que me questiono sobre tudo isso, porque não te posso garantir a existência de nenhuma destas coisas. É inspirado na morte de pessoas próximas e vai beber também alguma inspiração a dois filmes que gostei bastante: 21 Gramas (tal como a música) do Iñarritu, e o Enter The Void do Gaspar Noé. É talvez a nível de sonoridade a faixa mais ‘hip hop convencional’ do álbum, acompanhada com o génio do miúdo Vasco Sequeira no violino, e a Sofia aquece-nos e conforta-nos com a sua voz no refrão. Talvez a faixa mais séria do álbum.”


[“Edelweiss (Interlude)”]

“‘Edelweiss’ é um interlúdio. Para quem não souber, a Edelweiss é uma flor que cresce na zona dos Alpes acima da linha das árvores. Diz-se que os audaciosos que se aventuram a trepar e a trazer uma destas flores cá para baixo dão a maior prova de amor ou devoção a algo ou alguém.
O statement é dizer-te que eu ainda quero lá chegar acima da linha das árvores e sentir esse compromisso e esse amor, e trazer a flor cá para baixo.”


[“Spitfire”]

“Talvez a faixa a nível de som mais pesada do disco. Temos um show de variedades nesta: trap, riffs de guitarra do nosso amigo Trauma com distorções maradas, um breakdown de heavy-metal e a participação do Alex dos Above the Hate, que nos empresta os seus guturais mortíferos para o refrão. É uma faixa de egotrip e ao mesmo tempo para espicaçar a malta.”


[“Falling”]

“Uma música sobre a descrença no amor moderno na sua generalidade. Sobre a volatilidade das relações, relações por interesse, sentimentos descartáveis, desilusões. O beat tem uma energia do caralho. E um refrão fucking rock n’ roll como nós gostamos, com a guitarra e a voz electrizante do João Campos.”


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