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Fotografia: Carolina Panta

“Isto é ORGÂNICO URBANO.”

ELÓI e Caronte traçam “a evolução do olhar humano num contexto cada vez mais sujo e sem grande hipótese de retrocesso” em novo EP

Fotografia: Carolina Panta
“Isto é ORGÂNICO URBANO.” ELÓI recrutou Caronte para um novo EP, que aterrou no Bandcamp na passada quinta-feira. O artwork do projecto é da autoria de Carolina Panta. A obra chega-nos dois meses após BAÚ, a primeira investida de ELÓI nos projectos feitos em colaboração com MCs, nesse caso ao lado de Claustro, composto por seis temas que estavam estagnados, lá está, no “baú” digital do beatmaker portuense há cerca de dois anos. Em ORGÂNICO URBANO é, por isso, notória a evolução de ELÓI, que aqui se apresenta num registo muito mais arriscado e exploratório. E a escolha de Caronte poderia induzi-lo no erro de tentar replicar a sonoridade de MONRÓVIA, até à data o único trabalho na rua por parte do artista trazido por VULTO. para a turma COLÓNIA CALÚNIA. O negrume e as paisagens de cortar a respiração mantém-se mas o quadro de ORGÂNICO URBANO é pintado noutras tonalidades, não abusando das ferramentas e processamentos digitais e alicerçado em cadências mais “swingadas”, como quem quer pular a cerca do hip hop sem deixar de frisar a influência que o boom bap teve na sua caminhada. Nas temáticas trazidas por Caronte para o EP já conseguimos encontrar uma ligação mais óbvia ao seu disco de estreia, marca de água de um autor movido a inquietações em torno do ego e do mundo, servidas em versos amargos mas sarcasticamente boémios, como quem se ri, longe do olhar alheio, daqueles cujo cérebro mora num constante transe. Ao Rimas e Batidas, ELÓI revelou como surgiu a hipótese para esta colaboração e do respectivo processo criativo.

Esta é possivelmente uma daquelas parcerias improváveis para quem não vos acompanha tão de perto. Como é que tu e o Caronte se cruzaram e o que é que viste de diferente na escrita dele e que te agradou? Concordo com a imprevisibilidade até porque esta nossa colaboração aconteceu depois eu de ter feito uma story no Instagram, na minha sala onde gravo e faço música, com a dica “Rappers?…” A abordagem por parte do Caronte foi quase momentânea, o que me deixou deveras satisfeito e empolgado com o que se poderia produzir através desta colaboração. Para além disto já conhecia o Caronte, que me foi apresentado pelo VULTO.. Sobre a escrita dele, agrada-me imenso o modo como por vezes bem detalha certas situações e ao mesmo tempo tem uma escrita complexa que não deixa deslindar certas dicas à primeira escuta. Acredito que o EP não tenha sido a primeira hipótese a ser lançada para cima da mesa. Quando começaram a trocar ideias sobre temas e em que altura é que sentiste que este projecto começou a ganhar os primeiros contornos? Não. O EP foi mesmo a primeira hipótese, pois da minha parte estou a esforçar-me por lançar somente EPs nesta primeira fase e com seis músicas cada. Acho que é pouco maçador e dá para elaborar algo mais intimista. Sobre a segunda parte da pergunta, foi tudo elaborado em 3 dias. O título que escolheram soa-me uma espécie de rótulo para a vossa música, um pouco ao estilo das tags que o blog do aPALAVRAdo escolhe para identificar diferentes vertentes dentro do hip hop. O que é isto de ser ORGÂNICO URBANO? A escolha do título prende-se mais por uma questão temática do que sonora. Não foi uma tentativa de catalogar o som, mas de ilustrar os temas recorrentes no projecto: a evolução do olhar humano num contexto cada vez mais sujo e sem grande hipótese de retrocesso. Uma coisa salta logo à vista: há uma clara evolução na forma como abordaste estas produções e julgo que estás agora mais perto daquilo que poderá ser a tua assinatura sónica. O que é que mudou no teu mindset ou na forma como tens olhado para o que crias? Há sim, até pelo espaço temporal que passou entre o BAÚ e o ORGÂNICO URBANO. Devemos considerar que três destes seis beats já existiam, os outros foram todos produzidos no momento em que estávamos a trabalhar e eu tento sempre adaptar-me um bocado ao que o artista gosta de ouvir e fazer. Uma pessoa que tem como portefólio, como falámos numa entrevista anterior, algo com o título Beats Para Todos os Apetites esforça-se por agradar a vários tipos de artista, mantendo alguma da minha própria identidade, é claro. Mas a evolução é notória, sem dúvida O EP não soa igual a nada do que nos tinhas apresentado antes, tal como está também muito distante do MONRÓVIA, o único trabalho que o Caronte tinha na rua até então. Houve alguma coordenada em específico à qual se propuseram rumar em sintonia para este trabalho? É verdade que tanto eu como o Caronte nos distanciamos do normal, mas isso a meu ver, e até pelas opiniões que tenho recebido, foi tão bom para o ouvinte como para os trabalhos anteriores. Liberdade total para qualquer dos intervenientes foi a coordenada na qual ambos concordámos. Contaram com um artwork assinado pela Carolina Panta e agradecem ao VULTO. nos créditos do ORGÂNICO URBANO. De que forma é que ele contribuiu para a conclusão do disco? Pela ordem, agradecer à Carolina Panta pela disponibilidade para fazer o artwork .O VULTO. tem-me ajudado imenso nesta primeira fase pois consegue puxar pelos meus sons e mixar os mesmos de uma forma que me agrada imenso, e ao Caronte também. Uma vez mais o meu obrigado pelo apoio e pela amizade.
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