DJ Shadow // Our Pathetic Age

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

Cobrar a um artista a suposta dívida da evolução quando o “cobrador” valoriza a imobilidade parece algo patético. DJ Shadow tem sido vítima recorrente dessa atitude, com cada novo trabalho desde, pelo menos, The Less You Know The Better (que já data de 2011) a ser recorrentemente comparado a Endtroducing….., o magnum opus da sua obra e, para muitos, um marco insuperável, não apenas pelo seu autor como por toda a sua geração. Ora, partir para cada novo trabalho de Shadow assumindo a comparação simplista como a única via de análise é, de facto, não entender os seus mecanismos criativos, o que o move, o que o propulsiona em cada momento para a sua própria ideia de futuro.

A obra do produtor californiano, que nos álbuns se estreou em 1996 com o já referido Endtroducing….., valorizou sempre o processo, talvez mais até do que o resultado final. Cada um dos registos de DJ Shadow é um documento da sua vida, do momento em que se encontra, e uma reflexão sobre o que o rodeia: a tecnologia, a arte, a política e a sociedade. Quando editou o seu primeiro álbum, com apenas 24 anos, Shadow era um miúdo branco, californiano, apaixonado pelo hip hop que entendia como uma utopia musical, um portal de possibilidades infinitas que se abria à história através do sampling. É importante perceber que o álbum de “Midnight in a Perfect World” ou “The Number Song” distava apenas sete anos de 3 Feet High and Rising, o mesmo intervalo temporal que separava Are You Experienced, de Jimi Hendrix, de Bo Diddley is a Gunslinger ou A Love Supreme de Blue Train, estes os dois de John Coltrane, pois claro. E essa é a distância da evolução e maturação de conceitos, a distância do refinamento de práticas, da evolução da tecnologia, do aprofundamento da relação dos artistas com os estúdios.

Quando Prince Paul usou todos aqueles excertos diversos, de Otis Redding aos Steely Dan, para erguer o trabalho de estreia dos De La Soul, o sampling estava ainda na sua infância e o acto de usar discos antigos para criar música nova era eminentemente cultural, com o produtor a aceder, antes de mais nada, ao armário de discos da sala dos pais. DJ Shadow, pelo contrário, entendeu que samplar era um acto intelectual, resultado de uma demanda e de uma libertária visão que considerava que todo o passado era passível de contaminar o presente através do sampler e não apenas o passado que pudesse estar encapsulado numa colecção doméstica. Daí que das expedições de diggin’que Shadow fez sempre questão de esclarecer que foram parte importante do processo de composição que o conduziu até Endtroducing…. – pudessem ter surgido samples de Giorgio Moroder (“Organ Donor”), Pekka Pohjola (“Midnight in a Perfect World”), Mort Garson (“Building Steam With a Grain of Salt”), The Third Guitar (“The Number Song”) ou, para dar apenas mais um exemplo, Tangerine Dream (“Changeling / Transmission 1”). Não foi, certamente, na estante de discos do seu pai que Josh Davis encontrou todas essas rodelas de vinil…

Em 2019 (como em 2011 para o já citado The Less You Know The Better ou como em 2016 para The Mountain Will Fall) tudo é diferente: DJ Shadow é um artista diferente, a tecnologia a que tem acesso é diferente, o mundo é ele mesmo diferente. E se em 1996 se poderia entender o secretismo em que Shadow envolvia os seus samples (antes de mais devido às complexas questões de direitos de autor), em 2019 é bastante esclarecedor que seja o próprio produtor a revelar aos seus fãs em primeira mão a matéria que usa nas suas criações, dispensando-nos a todos da consulta do site Who Sampled ou do recurso à aplicação Shazam: os singles “Rocket Fuel”, tema que conta com participação dos De La Soul, e “Rosie” foram precedidos de textos disponibilizados aos subscritores da sua newsletter em que contava a história dos samples usados (do grupo de doo wop Belmonts, no primeiro caso, e do trio afro-americano de folk The Phoenix Singers, no segundo). E o simples facto de, num momento, DJ Shadow aceder à memória de um grupo vocal italo-americano do Bronx e, noutro, recorrer a um excerto da obra de um trio afro-americano formado originalmente para acompanhar Harry Belafonte já deixa claro que ele continua capaz de olhar para lá da sua esfera cultural específica, embora, no presente, samplar já seja muito menos acerca de impressionar os seus pares com skills de diggin’ levados ao extremo (e portanto capazes de o levar a desenterrar obscuras e muito valiosas rodelas de vinil) e muito mais sobre ser capaz de encaixar matéria até aqui pouco usada no seu historial particular de sampling, obrigando-se a si mesmo a procurar música citável que esteja para lá do eixo funk/rock psicadélico/loner folk que originalmente explorou.



Mas há muito mais do que sampling neste trabalho. Shadow apresenta Our Pathethic Age como uma reflexão sobre os conturbados tempos em que vivemos, com títulos como “Intersectionality”, “Beauty, Power, Motion, Life, Work, Chaos, Law”, “Firestorm”, “If I Died Today”, “My Lonely Room”, “Drone Warfare” ou “I Am Not a Robot” a oferecerem possíveis janelas para observarmos o mundo que hoje é agitado por questionáveis líderes políticos, por um não assumido estado de emergência climática, por efeitos severos do capitalismo selvagem nas nossas cidades, por crescentes ameaças derivadas da evolução tecnológica. O álbum é então estruturado em duas suites: a primeira é instrumental e alonga-se por 11 temas e a segunda é vocal e tem 12 faixas que contam com colaborações tão diversas quanto as de Nas e Pharoahe Monch (“Drone Warfare”), Ghostface Killah, Inspectah Deck e Raekwon (“Rain on Snow”), De La Soul (“Rocket Fuel”), Paul Banks e Wiki (“Small Colleges (Stay With Me)”), Run The Jewels (“Kings & Queens”), Dave East (“Taxin’”) ou, entre outros, Samuel Herring (“Our Pathethic Age”).

Musicalmente, Our Pathethic Age parece adoptar o mesmo impulso com que John Coltrane descrevia a sua abordagem aos solos em conversa com Wayne Shorter: o saxofonista dizia que gostava de “começar no meio” e depois mover-se “em duas direcções ao mesmo tempo”. Se por um lado, através do sampling, mas também de certas programações de bateria, Shadow parece interessado em olhar para o seu próprio passado (e “Juggernaut” parece aqui ser uma espécie de actualização de “Stem / Long Stem”, tema do primeiro álbum, com a sua bateria hardcore em estado de ebulição máxima), por outro há uma atracção clara pelo futuro demonstrada logo em “Slingblade”, o primeiro tema que surge após a introdução algo solene de “Nature Always Wins”: aí, Shadow usa synths para desenhar uma atmosfera que bem poderia pertencer a um qualquer filme de futuro distópico, sobretudo quando surge o solo feito de estranhos arpeggios em cascata. Percebe-se bem que o produtor conquista aqui espaço ao DJ, duas dimensões que obviamente co-existem em Shadow: há um trabalho muito mais refinado de design sonoro do que em qualquer outro dos seus registos, com Our Pathethic Age a deter-se bastante em detalhes que favorecem a sua escuta em auscultadores, sobretudo na suite instrumental. Shadow parece agora estar menos empenhado em orquestrar samples e mais apostado em gerir diferentes frequências, tratando a mistura como um pintor que usa uma determinada paleta de cores. O que não significa, apesar das intenções, que Shadow acerte sempre no alvo: se há momentos brilhantes no lado instrumental de Our Pathethic Age – e certamente que “Beauty, Power, Motion, Life, Work, Chaos, Law”, breve aproximação ao jazz sustentada numa fantástica programação (será mesmo?) de bateria (que bem merecia edição em single de sete polegadas…), poderá reclamar esse brilhantismo –, também há por ali alguns equívocos – como é o caso de “Firestorm”, uma “balada” de piano que surge muito deslocada no alinhamento e que por isso mesmo pouco sentido faz, sobretudo por aparecer ensanduichada entre “Juggernaut” (um banger para Shadow trazer a casa abaixo em apresentações ao vivo) e “Weightless” (cinemática passagem que parece um estudo sobre a exótica easy listening assinado por alguém que à mão tinha apenas um gira-discos e uma caixa de ritmos).

O caso muda consideravelmente de figura no lado vocal de Our Pathethic Age: claro que reunir glórias de Nova Iorque como Nas ou a tropa de elite dos Wu-Tang, velhos aliados da Quannum como Gift of Gab e Lateef The Truth Speaker, estetas reverenciados da nova escola como Wiki ou Dave East, pesos pesados do presente como Run The Jewels, “malta do rock” como Paul Banks (Interpol) ou Samuel Herring (Future Islands) e ainda alguns “coringas” fora do baralho como o bluesman Fantastico Negrito (que aparece em “Dark Side of the Heart”) ou Stro Elliott (produtor e spoken word artist que marca “JoJo’s Word”), pode traduzir-se numa caleidoscópica viagem de montanha russa, com naturais altos e baixos e diferentes tons alcançados, mas Shadow cumpre com distinção a sua missão de criar beats que sirvam cada um dos seus convidados como uma luva (basta escutar a bateria e o baixo que sustentam as rimas afiadas de Inspectah Deck ou a tranquila síncope servida por guitarra acústica que carrega Dave East para se perceber isso mesmo). Aliás, é estranho que temas como “Been Used Ta” com Pusha T ou a versão longa de “Taxin’”, que além de Dave East ainda acomoda um verso fantástico de Loyle Carner, tenham sido deixados de fora das versões físicas de Our Pathethic Age e surjam apenas como bónus nas versões disponíveis nas plataformas de streaming.

Entende-se e aceita-se a vontade de Shadow equilibrar estas duas suites num mesmo lançamento: o produtor afirma dessa forma que continua ligado ao seu percurso passado de esteta que sempre “discursou” sem necessitar de subalternizar a sua arte à dos MCs, mas, por outro lado, afirma-se cada vez mais interessado em colaborar com rappers e vocalistas de diferentes escolas e origens estéticas. Ou seja, parece, de facto, mover-se em duas direcções ao mesmo tempo. Só que, a julgar pela amostra agora avançada, os resultados parecem bem mais entusiasmantes quando do outro lado da mesa de mistura há alguém agarrado ao microfone. Ou seja, não vale a pena continuar a lamentar o facto de Shadow não regressar a Endtroducing….: ele mesmo já afirmou que “you can’t go home again”…


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu

Latest posts by Rui Miguel Abreu (see all)