DJ SHADOW // Endtroducing… (Deluxe Edition)

dj_shadow_endtroducing_deluxe_edition_review

Jean Baudrillard, no seu “The Hyper-realism of Simulation”, chamou-lhe “fetichismo do objecto perdido”. DJ Shadow prefere um termo mais simples – “beat diggin’”. Um caminho para a construção de uma realidade nova a partir de excertos de um passado que só adquirem significância quando recontextualizados. Até ao momento em que são “repescados” numa loja de discos em segunda-mão ou numa cave poeirenta onde repousam “numa pilha de sonhos desfeitos”, como lhes chama o próprio DJ Shadow, essas marcas do passado impressas em vinil têm uma existência suspensa, como as transmissões de rádio que vagueiam pelo cosmos à procura de um receptor. O processamento possibilitado pelo sampler, resgata esses momentos ao limbo da memória e do tempo, conferindo a cada um desses “sonhos” uma nova oportunidade de realização.

Endtroducing…, a obra magna de DJ Shadow, editada em Setembro de 1996, é agora alvo de uma reedição na série Deluxe Edition da Universal (que já possibilitou o repackaging de obras clássicas como o primeiro álbum dos Velvet Underground, Dirty dos Sonic Youth ou What’s Going On? de Marvin Gaye). O CD original de Endtroducing… é nesta edição acompanhado de um álbum bónus repleto daquilo a que Shadow chama Excessive Ephemera: uma colecção de lados B de singles, demos, versões alternativas e até um set de DJ gravado ao vivo em 97 (em Oxford) para a BBC.


 


Como acontece no museu Rainha Sofia, em Madrid, em que esboços de Picasso dispostos em dois corredores nos conduzem até uma sala onde “Guernica” está em exibição, preparando-nos para a experiência maior, também estes “extras” na edição especial de Endtroducing são “meros” documentos que ajudam a esclarecer um pouco o processo de trabalho de DJ Shadow. E, verdade seja dita, a obra de Shadow é tanto processo como intenção. Na cultura pop, a intenção domina – a obra, criada solitariamente ou em grupo, existe sempre para lá do processo que a torna visível: “Michelle”, dos Beatles, existe num assobio entoado em plena rua, na versão gravada para Rubber Soul ou numa cover de um pianista de hotel. A canção pop é como uma entidade espectral que se separa do mundo real para simplesmente existir. Shadow, por seu lado, construiu uma nova ordem de coisas, mantendo a intenção e o processo como uma única entidade indissociável. Assim se entendem os esforços de uma comunidade internacional de fãs em documentar cada passo dado em Endtroducing, ao construir, a partir de um esforço colectivo, detalhadas listas de samples usados nesse álbum. O mesmo fenómeno aconteceu no passado com obras como 3 Feet High And Rising dos De La Soul ou Paul’s Boutique dos Beastie Boys. Porque só recriando o processo se percebe a intenção. Mas, nesse ponto específico, a obra de Shadow não se afasta da prática mais vasta da pop de citar o passado. Elvis, os Stones, os Beatles ou até Kylie Minogue fizeram-no insistentemente ao longo de décadas, voltando o seu olhar para os que, antes deles, enunciaram intenções semelhantes às suas. A pop, como tantas outras forças de cultura, alimenta-se da repetição. Mas, uma vez mais, Shadow pegou nessa tendência para criar algo de diferente.

Endtroducing é, ainda hoje, um álbum revolucionário, não por causa dos métodos e do tal processo utilizado na sua construção, mas porque soube usar os excertos pilhados no passado como peças de um puzzle que revelou uma nova imagem do hip hop – libertando-o de uma vocação discursiva nata e ainda assim conseguindo imprimir à sua música uma fortíssima componente narrativa (ou cinemática, se preferirem). Os sons, as melodias, as atmosferas construídas em Endtroducing contam de facto uma história. Shadow revela a Eliot Wilder, nas notas de capa desta reedição de Endtroducing (extraídas de um livro com o mesmo nome na Continuum Books), que em toda a música que cria “existe a ideia de se embarcar numa viagem. Experimentam-se coisas e chega-se ao fim, completando um círculo – e se tudo correr bem, tendo aprendido alguma coisa, tendo ganho algo com a experiência.”

De facto, há – ainda – muito a ganhar com a experiência de escutar Endtroducing de uma assentada. É um álbum que nos transporta até um mundo secreto, carregado de códigos, onde cada disco atirado para cima da tal pilha de sonhos desfeitos encerra a promessa de um loop, de um break, de um som que, quando processado nas entranhas de um sampler, poderá revelar-se como peça fundamental de um quadro maior. Isso é hip hop. Mas é algo mais também. Algo de indizível, ainda não inteiramente apreendido pela modernidade. É que grande parte da beleza de Endtroducing reside, precisamente, no seu carácter opaco, na resistência que, nesta década que está prestes a cumprir-se sobre a sua edição original, tem oferecido à compreensão geral. E isso porque a intenção e o processo não se desligam. Isso porque, apesar do sucesso e dos anos que passaram, Endtroducing continua ser uma obra íntima, secreta e indivisível. E isso só acontece com a grande música.

 

*Texto originalmente publicado na Blitz.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu