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Fotografia: Joey Wharton
Publicado a: 23/01/2026

Difícil de catalogar e óptimo de se escutar.

DJ Harrison: “É bom ter um disco que me permite ir a todo o lado”

Fotografia: Joey Wharton
Publicado a: 23/01/2026

Produtor, multi-instrumentista, membro dos Butcher Brown e uma das figuras mais discretamente influentes da cena musical de Richmond, Virginia, Devonne “DJ Harrison” Harris construiu ao longo da última década uma obra que atravessa jazz, hip hop, funk, R&B e rock sem nunca se deixar prender a categorias. Os seus discos a solo sempre reflectiram essa inquietação: eram exercícios de autonomia criativa, feitos quase inteiramente por si, onde tocava, gravava e moldava cada detalhe sonoro como se estivesse a montar um pequeno universo pessoal em estúdio.

ElectroSoul, o seu novo álbum, nasce de um momento muito diferente. Depois de um problema de saúde em 2024 que o obrigou a passar um período prolongado no hospital, afastado do estúdio, dos instrumentos e do acto físico de fazer música, Harrison regressou a casa com uma consciência renovada do valor do tempo, do espaço criativo e, sobretudo, das pessoas à sua volta. O resultado é um disco que mantém a solidez rítmica e a identidade sonora que lhe conhecemos, mas que se abre como nunca à colaboração. Pink Siifu, Yaya Bey, Fly Anakin, Yazmin Lacey, Angelica Garcia, Kiefer e outros convidados transformam ElectroSoul numa espécie de mapa afectivo da sua comunidade musical, um álbum que soa simultaneamente íntimo e comunitário.

Ao mesmo tempo, este trabalho funciona como mais um capítulo do seu diário sonoro sobre Richmond — cidade que atravessa toda a sua discografia — mas agora filtrada por novas experiências, novas perspectivas e uma relação diferente com o tempo e com a própria criação artística.

Nesta conversa, falamos sobre como esse episódio de saúde alterou a forma como trabalha e pensa a música, sobre o papel da colaboração como ferramenta criativa e emocional, sobre a ideia do álbum como uma “loja de discos” onde cabem todas as suas influências, sobre a linhagem da Stones Throw que o moldou, e sobre como ElectroSoul representa simultaneamente o fecho de uma etapa e o início de outra na sua trajetória.



Começo por lhe dizer que este álbum foi uma surpresa e quero dar-lhe os meus parabéns por ele.

Obrigado, eu aprecio isso. Demorou algum tempo a terminá-lo, foram dois anos. Fazendo agora uma retrospectiva, talvez nem tenha sido assim tanto tempo, se for comparar com outros artistas. Mas sim, estou feliz por finalmente conseguir cruzar a meta.

Ele foi anunciado num comunicado de imprensa que menciona um problema de saúde que você teve em 2024 e fala de como isso afectou o próprio disco. Consegue ser um pouco mais específico e dizer-me como é que essa situação alterou a forma como você trabalha e de que forma serviu de inspiração para este álbum?

Bem, eu estive um bom período no hospital e essa foi a primeira vez que eu me vi impossibilitado de ir para o meu estúdio fazer música. Isso fez-me pensar: “Os meus instrumentos não estão aqui nem posso estar com os meus amigos a tocar…” Não é que eu tivesse dado tudo isso como garantido, mas quando me vi naquela situação, privado de tudo isso, deixou-me a pensar nas coisas. Quando finalmente consegui voltar para minha casa e ter acesso ao meu estúdio, pus-me a trabalhar com isso em mente, porque realmente as coisas podem ser-nos retiradas assim tão facilmente.

É verdade. Eu apanhei um susto desses há 10 anos e uma coisa que eu aprendi com isso foi passar a olhar para o tempo de uma forma diferente.

Sim, exactamente. E também aprendemos a dar um outro valor aos pequenos momentos da vida.

Olhando para o seu trabalho a solo, ele foi muito construído a sós, consigo a tocar os instrumentos quase todos, a controlar tudo sozinho. Para este álbum você convidou mais pessoas para o processo. Isso também foi uma consequência desse episódio em 2024?

Sim e não. Muitos dos artistas que estão neste disco são pessoas com quem eu trabalhei em anos anteriores — participei em projectos deles, eles participaram nos meus. Quando eu comecei a juntar a música deste disco, tentei puxar um pouco por esse aspecto comunitário. É a tal questão de dar valor a certos momentos — tanto pode ser para o acto de fazer música sozinho, mas também o convidar certas pessoas para compartilhar esses momentos.

E aproveita para estar rodeado de amigos e boa energia.

Sim, sem dúvida.

Vê esse aspecto da colaboração mais como uma ferramenta criativa ou como uma necessidade emocional?

Bem, eu tenho alguns artistas convidados no Shades of Yesterday, também tive colaboradores no Tales From The Old Dominion… Mas sim, provavelmente neste álbum tive mais convidados do que em qualquer outro trabalho meu. Eu acho que a questão tem mais a ver com… É que eu ouço tantos álbuns diferentes e tenho tantas paletas sónicas diferentes, tantas avenidas criativas para percorrer… Eu sempre quis fazer este tipo de álbum, em que uma pessoa quase que se sente como se estivesse a entrar numa loja de discos — tem uma faixa que podias encontrar na secção do rock, outra que podia estar na prateleira do hip hop, uma na secção de funk… Quis que este álbum tivesse todos esses sabores.

Tem aqui convidados como Pink Siifu, Yazmin Lacey, Fly Anakin, Yaya Bey, Angelica Garcia, Kiefer… Na sua cabeça, o que conecta todos estes artistas? Porque eles são todos muito diferentes.

O ponto de conexão sou eu. Tem a ver com a tal ideia de ver o álbum como uma loja de discos. É eu conhecer todas estas pessoas de trabalhos anteriores e chegar a um ponto em que estou a fazer uma música, quero elevá-la a um outro patamar e penso: “Vou chamar o Kiefer para este solo. Vou chamar o Fly Anakin para este verso.” Eu conheço-os todos de trabalhos anteriores e sei o que eles podem adicionar a cada situação, o que é que cada um deles pode contribuir para levar a minha música para o próximo nível.

Você disse que o álbum reflecte um processo de cura, mas ele não é um trabalho sentimental nem suave — pelo contrário, é muito sólido. Como é que você balanceou essa vulnerabilidade com o groove, a disciplina e a estrutura?

Vem do coração. Sou eu a confiar no que eu senti naquela altura, a confiar nas pessoas que chamei. Depois é deixar tudo isso vir cá para fora. Quando uma pessoa lida com uma questão dessas, que a obriga a passar uma temporada no hospital, já só quer deixar as coisas fluirem cá para fora. Este álbum é quem eu sou. É uma extensão de mim e de todas as pessoas que colaboraram comigo.

No passado já tivemos a oportunidade de falar sobre Richmond, Virginia. Obviamente que esse lugar tem um papel importante na sua música, mas de que forma é que este ElectroSoul reflecte essa sua cidade, em comparação com os discos anteriores?

Ele reflecte a minha vida aqui, as coisas que eu vivi aqui. Se você pensar num livro, a última página de cada capítulo encerra esse mesmo capítulo. Eu sempre falo da minha cidade, Richmond, em todos os meus discos, mas neste capítulo eu sou mais velho, passei por coisas diferentes e há certas pessoas comigo que me viram passar por elas, ou elas próprias passaram por essas mesmas coisas. Eu tento canalizar isso a cada novo capítulo.

Este álbum também acaba por seguir uma espécie de tradição da Stones Throw, de trabalhos que são conduzidos por um produtor e estão recheados de colaborações. Esse legado influenciou o seu método para chegar a este álbum de uma forma consciente?

Claro que sim. Se formos falar de MF DOOM, Madlib, J Dilla, DāM FunK… Ainda noutro dia estava a falar disto com alguém: quando eu estava na escola, escrevi um artigo que falava do quanto eu queria conseguir assinar pela Stones Throw. Eu manifestava isso desde cedo porque me sinto parte dessa linhagem. É uma honra fazer parte dessa linhagem, no sentido de ser livre criativamente e me poder expressar. Porque ter a minha própria identidade individual num disco e poder dizer que tenho alguém que acredita nisso, significa muito para mim.



Você pode falar um pouco sobre a faixa “Stay Ready” com a Yaya Bey? Quais foram as conversas que ocorreram entre vocês quando pensaram em criar esse tema? Como é que a canção surgiu?

Basicamente, eu trabalhei um pouco com a Yaya no seu último disco. E com a minha banda Butcher Brown, nós já tínhamos trabalhado com ela no passado. Então eu fiz esse instrumental e tinha-lhe dado o título “Stay Ready”. Perguntei-lhe se ela era capaz de fazer algo com aquilo e ela pegou na faixa e levou-a para onde ela pensava que precisava ir. E esse é o espírito da coisa, dai eu ter dito que os artistas convidados elevam as músicas para o próximo nível.

Quando está a trabalhar num tema, como é que decide que ali lhe está a faltar uma voz ou um instrumento? Há algum clique que o faça convidar alguém?

São coisas que se sentem. Às vezes até posso enviar para um artista que nunca chega a mandar de volta [risos]. E outras vezes as coisas acontecem e correm bem. Há muitas músicas nas quais eu queria um vocalista, mas que acabaram por levar um instrumento. A “Recycled” foi uma delas. Eu passei algum tempo a escutá-la enquanto instrumental e ela tornou-se ali num mood, então senti poderia ser uma faixa só por si. É algo que a pessoa sente e temos de confiar no nosso instinto e saber quando é que tudo bate certo.

Você disse há pouco que o álbum foi pensado como se estivesse a passar por uma loja de discos. E é verdade que este álbum passa por momentos de hip hop, jazz, funk, R&B, e até indie rock. Ele vai a todo o lado. Quando está a criar, ainda pensa em arrumar as coisas nessas caixinhas? Pensa em géneros musicais quando está a produzir ou vai antes em busca de algo mais emocional ou até mesmo espiritual?

Este álbum é como se eu estivesse a entrar numa loja de discos e meto-me a imaginar ao que eu soaria a secção de rock, de jazz, de R&B, de hip hop, de funk… No fundo, sou eu mesmo a expressar a extensão do meu gosto musical. Eu sinto que vou a todos os lugares, até porque eu amo ouvir diferentes tipos de música, tenho diferentes discos de deferentes lugares na minha colecção. Eu não penso muito em géneros, penso mais nisto como se fosse tudo uma extensão de mim.

Eu acho que esse é um dos aspectos mais emocionantes da produção de música moderna. É exactamente essa recusa criativa em se encaixar algo numa única caixa e poder explorar diferentes sons. Eu acho isso fascinante.

Existem tantos caminhos criativos que eu preciso percorrer para me sentir satisfeito… Eu até posso querer fazer um álbum de rock ou um álbum de jazz, mas também é bom ter um disco que me permite ir a todo o lado.

Eu acho que vi você mencionar algures que vê este álbum como o final de uma etapa. Mas ele também marca o começo de algo novo?

Eu penso no meu catálogo — em todos os álbuns que eu criei — como se fosse um livro ou um diário oral. Então, todos os álbuns marcam um período da minha vida. O que eu quis dizer é que, agora que o álbum está prestes a sair, estou a fechar um capítulo, e com isso estou pronto para avançar para o próximo capítulo. Portanto, a próxima fase da minha vida vai culminar no álbum a seguir a este, porque esse passa a ser um novo capítulo da minha vida.

E sem revelar muito sobre esses próximos capítulos, pode dizer-me, por exemplo, o que está a planear fazer com Butcher Brown?

Estamos a trabalhar e temos aí um par de novos discos na calha. Temos um álbum com um convidado especial e temos um outro que… Bem, não quero falar muito nisso, mas posso dizer-lhe estamos aí a fazer coisas novas. Diria até que muito em breve vamos estar ainda mais ocupados.

Isso pode incluir concertos na Europa este ano? Sejam de Butcher Brown ou mesmo seus em nome próprio.

Isso está a ser planeado. Estamos a tentar solidificar as agendas, alinhar aí umas coisas, mas diria que as probabilidades são altas, até porque nós vamos à Europa com frequência — pelo menos uma vez por ano.


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