Crónicas de um HipHopcondríaco #5: A arte e os seus diferentes pontos de vista

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

Há coisa de semanas, tive oportunidade de visitar pela primeiríssima vez o Museu do Prado, em Madrid. Apesar de não ter sido uma estreia na capital espanhola, esta foi a única vez em que tive realmente capacidade de organizar o meu tempo nesse sentido, daí ter conseguido reservar uma tarde inteira para deambular no interior do edifício construído a mando de Carlos III.

São vários os artistas que povoam o Museu do Prado, entre eles, Diego Velázquez, Peter Paul Rubens, Hieronymus Bosch e Francisco de Goya. Adorei as obras de todos, no entanto, não posso deixar de salientar o meu especial fascínio pelos trabalhos de Bosch (com o seu fabuloso e hipnótico “Jardim das Delícias Terrenas”) e Goya (um génio misterioso, atormentado, desordeiro e, ao mesmo tempo, magnetizante).

Se há coisa que me deslumbra na pintura – e, no geral, em qualquer forma de arte – é a capacidade que tem de ser subjectiva, de estimular várias interpretações, muitas vezes em direcções completamente opostas. O que aos olhos (e ouvidos…) de uns parece uma coisa, poderá parecer outra coisa totalmente diferente aos olhos (e ouvidos…) de outros. E quando mais abstracta for a peça em questão, maior é o número de leituras obtidas.

Sou um fã assumido de storytellings. Não é por isso estranho dizer que tenho a Rhymesayers como uma das minha editoras de eleição, não só pelo seu carácter independente, mas também por ter sido co-fundada por Slug, um dos melhores “dizedores” de palavras que o universo do hip hop alguma vez conheceu. Do catálogo da Rhymesayers fazem parte os Atmosphere, um colectivo (constituído pelo próprio Slug e Ant) que tem na sua bagagem um total de oito álbuns de estúdio, entre eles The Family Sign, talvez o meu favorito. Aprecio a obra num carácter geral, no entanto, nutro particular devoção por “Became”, o terceiro ponto de paragem do disco.

“Became” é um storytelling brilhante, intenso, abstracto e extremamente bem executado. A leitura mais superficial leva-nos até ao coração de uma floresta, em plena montanha gélida, e ao desaparecimento de uma pessoa num hipotético ataque de lobos. Ao longo do tema, Slug, uma das personagens envolvidas, corre desesperadamente atrás do trilho de pegadas deixadas pelo seu companheiro de campismo. A dada altura do trajecto, depara-se com aquilo que aparentam ser pegadas de lobos. É neste preciso momento em que Slug, temendo o pior, intensifica a sua busca, ao mesmo tempo que as marcas na neve se tornam cada vez menos espaçadas, o que sugere uma perseguição. De subido, as pegadas humanas transformam-se em pegadas de lobos e, a dada altura, desaparecem por completo.

De uma perspectiva diferente, a história que Slug narra poderá facilmente ser enquadrada com uma relação amorosa, na qual uma das pessoas parte em busca de um novo mundo, desconhecido, perdido na floresta densa. Poderá também estar relacionado com o fim de uma relação, o regresso a paixões antigas ou, simplesmente, a uma fuga já há muito planeada. Os lobos, neste caso, seriam a representação da tentação, da aventura, da traição, da certeza que vence a dúvida, da acção que derrota o comodismo.

Uma outra análise a esta canção prende-se com a questão do vício inerente ao consumo de drogas. Desta feita, o amigo/namorada de Slug assume o papel de alguém preso nesse turbilhão, em que a tenda representa a segurança, o controlo, o distanciamento, e a floresta escura a perdição, o ponto sem retorno, o precipício fatal.

Slug persegue as marcas deixadas pelo companheiro na neve, onde a própria cor do cenário e a ideia de trilhos (“i’m looking at your tracks and you took a couple lap”) se tornam bastante sugestivos, e depara-se com as pegadas de animal, paralelas às já existentes. Neste caso, os lobos são o vício, a rotina, a fraqueza, o demónio que ameaça apoderar-se irremediavelmente de corpo e mente. E quanto mais o predador se aproxima da presa, mais o processo tende a ser irreversível.

A busca continua, até ao momento em que Slug se apercebe que as marcas humanas desapareceram, restando apenas as de animal, o que significa que, nesta altura do enredo, o vício tomou conta do consumidor, com a frase “with no sign of death, no sign of struggle/ no signs of blood, no signs of trouble” a sugerir que nem tenha havido qualquer tipo de resistência por parte da vítima. Poderá isto querer dizer que a pessoa em questão procurou conscientemente este final, como forma de aliviar a dor que o consumia (“you just another dog with hunger pains”), entregando-se por completo aos lobos, à dependência, deixando de fazer parte do jogo para passar a ser ele próprio o jogo (tanto o título como as últimas estrofes do tema transmitem a ideia do “tornar-se” e “transformar-se”).

Nada como procurar uma cadeira confortável no museu dos Atmosphere para apreciar este belíssimo quadro.

 


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