Crónicas de um HipHopcondríaco #11: Ganhar e perder

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

“Focado, interactivo e evoluído tecnicamente, o artista norte-americano é um caso sério de ‘underratedismo’ e comprovou-o em palco. Se querem escolher um rapper branco para abrir a porta, deixem o Macklemore de lado e ponham os olhos neste talento de Pittsburgh”. As palavras de Alexandre Ribeiro, editor do Rimas e Batidas e empenhado repórter nas horas em que troca a secretária pelo terreno, retiradas do texto que retrata a passagem de Mac Miller por Portugal na edição do ano passado do festival MEO Sudoeste, não se podiam distanciar mais daquelas que eu escrevi há coisa de quatro anos, aquando da estreia do artista em solo nacional, no Rock in Rio Lisboa.

“Quando a actuação de Mac Miller chegou ao fim, ficámos sem saber se aquilo que vimos em palco se tratou de um concerto de hip hop ou de uma aula de aeróbica”. Assim começa o texto publicado no já extinto Palco Principal, plataforma com a qual colaborei durante alguns anos, depósito de uma boa parte dos meus primeiros trabalhos jornalísticos. De facto, o músico norte-americano, chamado a substituir Nile Rodgers no Palco Mundo – um “imprevisto na agenda de gravações” terá estado na origem do cancelamento por parte do homem dos Chic –, numa noite em que também assumiram protagonismo Jessie J e Justin Timberlake, conseguiu servir um concerto com pouco sumo para espremer e excessivamente focado na interacção com o público.

Do pouco que me lembro do acontecimento, Mac Miller passou uma boa parte do tempo a exigir manifestações efusivas aos presentes (“agora saltem”, “agora metam aos mãos no ar”, “agora gritem” são alguns dos pedidos que é possível resgatar à reportagem em questão), desligando-se por diversas vezes da missão de servir um espectáculo com conteúdo no Parque da Bela Vista, missão que o seu compatriota Justin Timberlake viria a cumprir com excelência. Ainda assim, não deixou de ser curiosa a forma como o público respondeu aos constantes desafios lançados pelo rapper, comprovando que, apesar de tudo e independentemente do menu servido, somos um povo que sabe fazer a festa.

Mais tarde, nesse mesmo texto, viria a estabelecer um ponto de comparação entre o artista de Pittsburgh e os rappers que se encontrariam em funções na década em que este nascera (1992), alegando que o jovem (na altura do concerto, Miller tinha apenas 22 anos) aparentava não ter aprendido grande coisa com os grandes professores da cultura, no sentido de ter colocado a sua faceta de entertainer acima da de MC, desprezando esta última quase por completo. Critiquei a rima, a postura em palco (“numa hora, o rapper conseguiu dizer mais palavrões do que aqueles que seria suposto um ser humano ouvir no decorrer de uma vida”, pode ainda ler-se) e classifiquei a performance como uma das piores que havia presenciado nos meandros do hip hop até à data – o galardão foi entretanto reclamado por um rapper que assina os seus trabalhos com o nome Future.

As minhas palavras não foram as mais simpáticas, de facto, e opõem-se às que Alexandre Ribeiro utilizou para descrever aquilo que testemunhou no MEO Sudoeste, desfasamento esse que só confirma a evolução de Mac Miller nestes quatro anos, ou seja, em termos práticos, no espaço de tempo que separa Watching Movies With The Sound Off (2014) de The Divine Feminine (2016); “S.D.S.” e “Goosebumpz” da viciante e paakesca “Dang!”; a aula de fitness do Rock in Rio do concerto íntimo da famosa e prestigiada secretária da NPR, passando, claro, pela vitória na Herdade da Casa Branca, em 2017. Nos últimos anos, Miller esteve em claro percurso ascendente.

Malcolm James McCormick faleceu no passado dia 7 de Setembro, com apenas 26 anos, alegadamente vítima de overdose, segundo foi avançado por sites como a TMZ. É normal que este tipo de morte, que tem tanto de trágica como de precoce, coloque em debate toda a problemática relacionada com a dependência de drogas e toda a depressão que advém desse consumo. Por vezes, é mais fácil apontar o dedo, julgar e condenar do que tentar perceber que esta é uma problemática delicada e que, como tantas outras, precisa ser cautelosamente ajuizada. Uma coisa é consumir drogas outra é depender delas. E ao longo da sua carreira,  Mac Miller já havia dado claros indícios de toxicodependência, como se pode testemunhar em temas como “Blue Jeans”, retirado da mixtape Faces (2014), onde se pode ouvir, entre outras, a frase “don’t tell my mom I got a drug problem”.

Mac Miller evoluiu muito enquanto rapper, cimentou a sua prestação ao vivo e, com todo o mérito, colocou o seu nome na lista dos artistas mais respeitados do universo do hip hop, recolhendo vários elogios por parte dos seus pares. Venceu várias batalhas mas perdeu a guerra contra o seu pior inimigo, aquele que durante tanto tempo o atormentou. Não merecia ser derrotado desta forma tão inglória.

 


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