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Ilustração: Riça

Do hip hop para qualquer lado: Crónicas de um HipHopcondríaco é da autoria de Manuel Rodrigues.

Crónicas de um HipHopcondríaco #45: Lusoponte

Ilustração: Riça

Assinalou-se ontem o primeiro Dia Mundial da Língua Portuguesa, com várias personalidades do universo lusófono a associarem-se às celebrações das mais diversas formas possíveis, entre mensagens e concertos online e outras iniciativas que se moldaram ao paradigma actual da COVID-19.

Numa situação normal, esta efeméride haveria sido pautada com múltiplos concertos, palestras, reuniões e tertúlias espalhados pelos países da CPLP e Macau. Contudo, a necessidade de distanciamento social atirou com estas festividades – assim como tantas outras – para o mundo do digital.

No episódio de hoje, repesco parte de uma conversa que tive com o rapper brasileiro Emicida, um dos maiores embaixadores do hip hop lusófono, membro do projecto Língua Franca. O artigo data de 2014 e foi originalmente publicado no entretanto finado Palco Principal. Leandro Roque de Oliveira falou sobre o álbum que editara recentemente, a participação no álbum dos portuenses Dealema e, claro, a construção de pontes artísticas entre Portugal e Brasil.



O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, o teu disco de estreia, foi lançado há relativamente pouco tempo. Como tem sido o feedback?

Tem sido maravilhoso, o álbum foi eleito número 1 no Brasil por várias entidades. Na minha opinião é um álbum experimental. Tem uma mistura de vários estilos. No início até fiquei com receio que o disco soasse a uma colectânea. Felizmente, quando ouvi o resultado final, reparei que tinha uma linha no tempo e que tinha ganho uma estética própria. A partir daí, deixei-o falar por si próprio.

No início do ano, a revista Rolling Stone Brasil elegeu “Crisântemo” como uma das melhores músicas de 2013. Como te sentiste com tal distinção?

Tem uma magia maior ainda. É uma música muito pessoal, faz com que as pessoas se revejam nela. “Crisântemo” é uma música que não tem ambição comercial nenhuma. A sua estrutura está longe de ser pop. Não é uma música fácil para ser assimilada e cantada na rua. Muito pelo contrário. É uma música depressiva, forte; atira para baixo. É uma experiência de estúdio. A morte é uma temática que me encanta bastante, por andar de mãos dadas com a vida. Para nós que vimos de uma realidade muito triste, muito pobre, a morte surge de diversas formas. E o discurso da minha mãe no tema retrata isso. Quando alguém perde o pai, acaba por perder a mãe também. Ou seja, uma morte acaba por criar outras mortes em paralelo. E toda a gente tem uma situação destas na sua vida.

Sentes-te mais um contador de histórias do que propriamente um músico?

Sejamos sinceros, eu não sou um cantor de verdade. O meu objectivo é conseguir levar as pessoas para um determinado estado de espírito de acordo com um conjunto de palavras e o fluxo que eu consigo criar entre elas. Eu não quero, nem tento ser o Pavarotti [risos]. A mim interessa-me muito mais contar uma história. Quero que a minha música transmita um certo conjunto de sensações que faça com que as pessoas se identifiquem.

Sentes que o hip hop ainda vai crescer mais no Brasil, ou que já atingiu o pico?

Não sou o tipo de pessoa que fica aguardar ondas grandes. Faço música de forma profissional há cerca de 10 anos, já vi ondas altas, outras mais baixas. Assisti ao surgimento de muitos grupos de hip hop, que cresceram e acabaram por tocar nas televisões e rádios. Mas depois também presenciei Invernos onde grande parte desses grupos desapareceu. Eu acho que estas coisas não norteiam um género. Mas o importante é construir uma base para que o hip hop não dependa da perspectiva do mercado. Sabe porquê? Porque o mercado funciona muito por modas. Hoje é o hip hop, amanhã são os artistas pop de cabelo cor-de-rosa. É fundamental viver à margem dessas tendências. Não é que eu seja contra mainstream. Muito pelo contrário. Quanto maior e mais estruturado o nosso mainstream for, mais sólido vai ser o nosso underground. Eu acho que essas duas coisas dependem uma da outra, apesar de grande parte das vezes não dialogarem entre elas.

O importante é manter as bases…

Claro! Há muitas pessoas que são conservadoras e que não acreditam nisso, mas eu acho que é possível um artista alcançar o mainstream e ser sincero com as suas raízes. Há muitos exemplos de músicos que, apesar de se terem tornado populares, continuaram a ser fiéis aos seus princípios. Marvin Gaye, James Brown, Public Enemy, Racionais MC’s

Wu-Tang Clan, por exemplo..

Sim, são um óptimo exemplo. Eles alcançaram uma distribuição enorme, mas, ao mesmo tempo, mantiveram-se fiéis. Eu acho que é perfeitamente possível. É claro que há artistas que acabam por se desvirtuar e perder o rumo quando atingem esse nível. A solução para isso é manter uma estrutura psicológica forte. Graças a Deus, eu fui uma pessoa abençoada nesse aspecto. A minha mãe tinha o hábito de ler e eu acabei por herdar isso dela. O hip hop no Brasil sempre girou muito em torno dos problemas sociais, da política, da necessidade de lutarmos por respeito. Eu cresci nesse meio, a ouvir todas essas palavras fortes. Quando chegou a minha altura de falar, quis compartilhar toda essa informação que tinha adquirido. E eu acho que é isso que faz com que um artista tenha a estrutura psicológica para chegar a algum lugar, mantendo a integridade, independentemente do olhar de terceiros.

Os Dealema lançaram um álbum novo no ano passado que contou com a tua participação num dos temas. Já conhecias o colectivo?

Conhecia de nome. Eu acho que o hip hop lusófono é muito carente de pontes. Ele precisa de atravessar o oceano mais vezes… Eu acredito que isso se deva muito ao facto de nós dialogarmos pouco. Essa ponte deveria ser construída com mais frequência, não só entre Portugal e o Brasil, mas essencialmente entre todos os países de língua portuguesa. Eu conhecia os Dealema de nome mas não conhecia muito a sua obra. Nem tinha a noção que eles eram um grupo tão importante. Fiquei muito contente por participar com eles em “Comportamentos Bizarros”. Foi fantástico. São coisas que têm de acontecer mais, tanto aqui, como em África, como na América Latina, no caso do Brasil.

O festival Terra do Rap acaba por ser um incentivo a essa troca…

Sim, claro. Nós este ano vamos ter lá artistas muitos bons, como a Eva Rapdiva, Kid MC e Sam The Kid. Eu acho que seria muito positivo o Sam The Kid produzir alguns artistas brasileiros. Ele é um artista fantástico, e seria interessante que essa ponte não se limitasse apenas aos rappers e se estendesse ao universo da produção. O festival Terra do Rap acontece com um espírito de intercâmbio muito forte. Ele tem essa força. E já que ele leva as pessoas até lá, que se produza música e que essa música propague o português e as diversas sonoridades do português. É muito importante.


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