Crónicas de um HipHopcondríaco #43: Cidades-fantasma

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

Vivemos tempos estranhos. A crise pandémica causada pela COVID-19 não só nos apanhou todos de surpresa como alterou drasticamente a dinâmica do nosso quotidiano. De repente, as rotinas que dávamos como garantidas deixaram de preencher as nossas agendas mensais. Sair de casa para ir a um concerto (em festival, salas de grande dimensão ou até pequenos clubes de diversão nocturna), visitar as galerias de um recheado museu (a última vez que o fiz foi há mais de um mês em Tanger, Marrocos), entrar num café ou numa pastelaria e sentir o cheiro do café a fundir-se com o do pão acabadinho de fazer (um estímulo de sentidos capaz de deixar qualquer um a salivar), passar uma tarde de domingo com amigos numa tasca típica lisboeta (coisa rara mas ainda possível nesta capital entregue ao turismo), caminhar à beira-mar ao sabor do vento e da apaziguante rebentação das ondas (banda sonora insubstituível quando a mente pede algum tipo de terapia), ir a uma loja de discos e deixar que o acaso nos leve até ao frontispício de um dos discos que marcou a nossa vida (quantas e quantas vezes), reunir umas poupanças e marcar uma viagem com a nossa alma gémea a uma cidade que ainda não foi riscada do mapa (tantos planos desses para o corrente ano…) e, por fim, combinar uma simples jantarada em casa com amigos ou familiares (as promessas de boa mesa quando isto tudo passar começam agora a acumular-se em hipotéticas marcações). São tudo exemplos de coisas que, de um dia para o outro, deixaram de preencher o nosso livro de normas e costumes.

A isto acresce-se ainda todas as mudanças a nível laboral. O novo coronavírus guiou-nos ao teletrabalho (o que para alguns já era uma realidade, revelou-se para outros um mundo totalmente novo) e, infelizmente, ao desemprego. O travão em sectores como o do turismo, cultura e lazer, importantes roldanas para a economia de um país (se falarmos de casos como Portugal, o turismo será muito possivelmente a grande roda dentada do motor económico), está a ter sérias e preocupantes implicações na vida das pessoas que faziam disso vida e que, em alguns casos, chegavam ao fim do mês com o dinheiro à justa para pagar as suas contas. Não falo apenas de artistas, técnicos de audiovisuais, programadores culturais e guias turísticos, mas também de todos os donos de negócios que subsistem do acto de alguém sair de casa para ocupar o tempo livre, seja ele a viajar, a beber copos ou simplesmente a visitar uma exposição. Toda a actividade que se estenda para lá dos limites daquilo que é considerado de primeira necessidade (hiper, super e mini mercados, farmácias, bancos, serviços de telecomunicação e informação, etc.) está, neste momento, parada. E isso levou a que as cidades se transformassem em verdadeiras cidades-fantasma. Não no que diz respeito à ausência de vida na rua, até porque ela existe em função dos postos trabalhos imprescindíveis ao nosso dia-a-dia e da nossa normal deslocação aos estabelecimentos que facultam os bens de primeira necessidade, mas sim no que se interliga ao restante comércio que garante o pulso às artérias das freguesias. Em Benfica, onde eu moro, existe uma abundante oferta local, entre restaurantes e pastelarias, sapatarias e pronto-a-vestir, floristas e relojoarias. O encerramento provisório deste tipo de loja descaracteriza o bairro e transforma-o num simples aglomerado de prédios recheados de famílias que somente saem à rua para reabastecer os frigoríficos, restabelecer o stock de medicamentos, dar curtas caminhadas de manutenção física ou passear os animais de estimação — salvo raras excepções (há sempre quem tente a todo o custo contornar as normas impostas pelo Estado), esta é a regra. Nos passeios, os contactos são evitados, a desconfiança e insegurança é muita. Cruzam-se olhares, fintam-se os vizinhos, individualizam-se as acções. No outro dia, uma grande amiga dizia-me que parecemos estar todos inseridos na trama de um filme, no sentido de isto ser mau demais para ser verdade. E é, de facto.

Em 2016, FloFilz, um dos produtores hip hop que mais sigo, lançou Cenário, um disco que traça um belíssimo retrato da capital portuguesa. Canções como “Passagem”, “Taxi Bossa”, “Ruamarelo”, “Bairro Alto” e “Last Pastel” pintam o quadro de uma cidade movimentada, repleta de vida e bastante heterogénea, onde tão depressa se concentram negócios erguidos em função do turismo como bairros de contornos tradicionais e comércio de igual característica. Uma Lisboa com tanto de bom como de mau mas que, feitas as contas, guarda uma pulsação única, inigualável em qualquer que seja a parte do mundo. FloFilz conseguiu captar muito bem essa sinergia em Cenário, assim como o fez com Londres, em Transit, e com Paris, em Metronom, todos eles com o carimbo quase sempre infalível da Melting Pot Music. Todos diferentes, cada qual com a sua particularidade. Esta parece ser uma missão contínua do produtor alemão: visitar cidades e pintar quadros instrumentais dessa curtas vivências. Que foto tiraria FloFilz à actual Lisboa?


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