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Ilustração: Riça

Do hip hop para qualquer lado: Crónicas de um HipHopcondríaco é da autoria de Manuel Rodrigues.

Crónicas de um HipHopcondríaco #42: O efeito borboleta

Ilustração: Riça
Para quem não tenha reparado, To Pimp a Butterfly completou há dias a sua quinta volta ao sol. É verdade, parece que foi ontem que Kendrick Lamar nos presenteou com tamanho acto de mestria e inspiração. No início de 2020, questionei na minha página pessoal do Facebook se este não seria o álbum da década. Se passarmos os olhos pelas publicações que aproveitaram a efeméride assinalada no dia 16 de Março para efectuarem uma releitura ao disco, é caso para dizer que existe algum tipo de consenso quanto à sua dimensão, havendo até quem o compare com os maiores clássicos de sempre da música. Quando escrevi sobre o álbum para o extinto Palco Principal, disse que este respirava “a actualidade da instabilidade social norte-americana, gerada pela desigualdade social e pelo reacender dos tumultos na Terra das Oportunidades”. E não podia ter aterrado em melhor hora nos ouvidos da comunidade afro-americana (e não só, claro): no decorrer de 2015, multiplicavam-se os protestos em cidades como Ferguson e Baltimore gerados pela brutalidade policial, elevando o tema “Alright” a hino do movimento Black Lives Matter. To Pimp a Butterfly, cujo título é inspirado no livro To Kill a Mockingbird de Harper Lee — um dos maiores clássicos da literatura moderna norte-americana, que tem como epicentro as desigualdades raciais — explora vários universos sónicos, do jazz ao funk e do hip hop à soul, implementados não só pela participação de nomes como Rober Glasper, Terrace Martin, Thundercat, George Clinton, Pharrell Williams e Kamasi Washington, mas sobretudo pela visão ecléctica de Kendrick Lamar. Numa recente entrevista para o site dos Grammys, Marcus J. Moore, que se prepara para lançar o livro Butterfly Effect, inspirado no álbum de 2015, aborda algumas questões relacionadas com o processo. “O que aprendi dessas sessões de gravação [através de conversas com os protagonistas] é que Kendrick é essencialmente um músico jazz. Quando pensamos na tradição jazz, pensamos numa pessoa com um trompete ou um saxofone, e, visto ser tudo essencialmente baseado na improvisação, eles tentam entrar e sentir que caminho devem traçar com as notas. Tanto Robert Glasper como Terrace Martin dizem que Kendrick faz exactamente a mesma coisa”, revela. “Ele vai ajustar a sua voz de forma a que encaixe na tarola de variadíssimas maneiras. Ele vai controlar a sua respiração e as dinâmicas para deixar o instrumental ganhar forma e ganhar o fôlego necessário para a expansão”, acrescenta.

O jazz está a viver uma nova era de abordagem e inspiração, com vários músicos a derrubarem os padrões tradicionais e a construírem novas linguagens, muitas delas fundadas nos alicerces da aprendizagem clássica mas embebidas nas vivências de cada indivíduo ou banda — dos géneros que consumiram enquanto jovens, antes de se matricularem nas emblemáticas escolas jazz, às próprias sonoridades enraizadas nas diversas comunidades que se encaixam nos arredores das grandes metrópoles. Londres é sem dúvida o maior exemplo deste mundo novo, mas o exemplo estende-se, ainda que com outros contornos, a Chicago, Melbourne e Amesterdão, citando apenas alguns exemplos. “O impacto imediato de TPAB, especialmente quando saiu em 2015, foi inspirar um série de outros álbuns”, afirma Moore. “De repente, o jazz voltou; foi uma combinação do sucesso de TPAB e de The Epic de Kamasi Washington. Não é que tenha desaparecido. Surgiu foi no seio de um público jovem. Neste momento, o jazz pode enquadrar-se num festival”, conclui. Marcus J. Moore, que lançará em Outubro de 2020 o já citado livro, é um jornalista musical que nos últimos 10 anos assinou artigos nos meandros da soul, jazz, hip hop e música electrónica para órgãos como a Pitchfork, NPR Music, The Atlantic, Billboard, SPIN, MTV e BBC Music. Actualmente, contribui como editor no Bandcamp Daily e redactor no The Nation. “Eu acho que [TPAB] é um daqueles discos que vai estar constantemente a voltar”, diz de sua experiência. “Não interessa em que ponto vamos estar daqui a cinco anos, o conteúdo é de tamanha riqueza que vai encontrar uma nova geração de ouvintes e manter-se assim eterno”, adiciona. “Para mim, e escrevi isso mesmo no meu livro, TPAB está ao mesmo nível de What’s Going On? de Marvin Gaye e ressoa da mesma forma que Songs in the Key of Life de Stevie Wonder. Se colocares qualquer álbum icónico de qualquer género ao lado de TPAB, vais ver que está lá”, garante. A par de To Pimp a Butterfly, Kendrick Lamar editou Section.80 (2011), good kid, m.A.A.d city (2012), untitled unmastered. (2016), DAMN. (2017), Black Panther (2018) e circulam rumores que se prepara para lançar um novo álbum este ano. Criticado pelo facto de estar já a escrever um livro quando Lamar ainda tem muito para dar artisticamente, Moore contrapõe. “Temos que dar às pessoas as suas flores enquanto elas estão perto para as poderem cheirar connosco, porque nunca se sabe. Pop Smoke morreu com apenas 20 anos, perdemos Kobe Bryant inesperadamente”, lamenta. “Eu só queria contar a história de Kendrick porque é bastante impactante e inspirou-me a mim e a muitas pessoas. Eu penso que é importante para nós. Precisamos de mais livros a celebrar a cultura negra de uma forma não adulterada. Temos que nos celebrar a nós próprios e não esperar sermos validados pelos outros. O livro é tanto sobre a evolução da cultura negra quanto sobre Kendrick”.

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