Crónicas de um HipHopcondríaco #40: Horizontes da memória

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

Não são poucas as vezes em que dou por mim a vasculhar os confins da memória em busca daquele que terá sido o meu primeiro contacto com o universo hip hop. Recordo-me perfeitamente do primeiro CD que comprei, tinha eu 14 ou 15 anos. Foi The Marshall Mathers LP (2000), de Eminem, adquirido na mesmíssima loja onde encontrei, semanas ou meses depois, o álbum The W (2000), dos Wu-Tang Clan – o Shazam perfeito, ainda longe da existência de tal plataforma, que deu origem a um dos episódios desta crónica. Não quero com isto dizer que este tenha sido o momento zero na aproximação da cultura, até porque, se bem me lembro, a aparelhagem lá de casa já tinha evidenciado o seu músculo a tocar discos emprestados de bandas como Cypress Hill, House of Pain e, perdoem-me os mais conservadores a heresia, Limp Bizkit – por altura de Significant Other (1999), a banda de Fred Durst articulava um metal paredes meias com o hip hop, repleto de instrumentais idealizados e exercitados à medida, com convidados de luxo, como serve de exemplo Method Man, e, inclusive, contributo produtivo de DJ Premier.

Estas não deixam de ser referências a nível físico, palpável. Contudo, é certo, já me havia cruzado inúmeras vezes com canções avulso, nos programas de televisão dedicados à música, como o Top +, ou até no velhinho canal Sol Música. Havia “Dúia”, dos Da Weasel, retirada de 3º Capítulo (1997), cujo vídeo mostrava Pacman e Virgul a exibirem as suas majestosas boinas brancas, reflectidas, segundos depois, no retrovisor circular da viatura de jante de recorte clássico, bem como “Todagente”, um vibrante vaivém de pessoas em vários cenários (praia, terminal da Transtejo, esplanadas), com direito a uma selfie, via Polaroid, nos instantes finais da música (a primeira selfie de sempre?). Boss AC com “Anda cá ao papá”, retirada de Manda Chuva (1998), experiência visual em ambiente de discoteca com cena de engate em convergência com o conteúdo da letra – imortal a passagem “corpo perfeito, alta mulata de caracóis; pernas de sonho, yes baby! G’andas faróis”.

Anos mais tarde, “Todos Gordos”, dos Mind da Gap, artefacto de A Verdade (2000) guiado por um sample viciante, letra de conhecimento universal e imagens do colectivo polvilhadas aqui e ali com movimentos de breakdance. Mais à frente, Sam The Kid com “Não Percebes”, hino de Sobre(Tudo) (2001) repleto de frames capturados em Quarteira, Gaia e Chelas, muito provavelmente um dos vídeos que mais visualizei dado um dos terços da trama ter acontecido numa localidade muito próxima da minha (Almancil fica a escassos quilómetros de Quarteira) e de me familiarizar com alguns dos rostos presentes – além, claro, de se tratar de uma zona onde passava grande parte dos meus dias. Paralelamente, Gabriel o Pensador com “Até Quando”, de Seja Você Mesmo (mas não Seja sempre o Mesmo) (2001), o vídeo metamórfico da poltrona a partir da qual o rapper brasileiro entrega uma das letras que mais me marcou nestes verdes anos. Seguir-se-iam telediscos (palavra muito utilizada nos tempos em que a televisão era um dos principais veículos de divulgação musical) de Eminem, Dr. Dre, 2Pac, Snoop Dogg e muito mas mesmo muito rap francês.

Mas recuemos até àquela que terá sido, muito provavelmente, a primeira manifestação da cultura diante do meu globo ocular: “Nadar”, dos Black Company, canção extraída da emblemática compilação Rapública (1994), editada no ano em que completei a minha oitava Primavera. Não sei ao certo se o single aterrou na televisão no mesmo ano em que o álbum saiu à rua (ainda tentei procurar essa informação em específico, mas sem qualquer sucesso; é possível que tenha havido aqui um ligeiro desfasamento temporal), contudo, recordo-me de ter ficado bastante surpreendido com o facto de ver um grupo de jovens a “falar” sobre um instrumental. Habituado que estava a que os versos me chegassem ao ouvido de forma cantada, pelas razões mais óbvias, este foi de imediato um admirável mundo novo: o mais próximo que tinha estado deste registo na altura foi, muito provavelmente, ao ouvir alguns temas de um tal de Pedro Abrunhosa, que tinha no seu clássico Viagens (curiosamente lançado no mesmo ano do Rapública) alguma similaridade na forma como se exprimia sobre o berço instrumental – tome-se como exemplo “É Preciso Ter Calma”, “Socorro” e “Mais Perto do Céu”.

A esta distância, “Nadar”, cujo vídeo é rodado nas históricas e representativas margem do rio Tejo, terá o seu quê de rudimentar e embrionário, contudo, não nos podemos esquecer que este foi, muito provavelmente, o primeiro grande aparecimento da cultura para lá das fronteiras dos bairros onde cresceu e dos ouvidos dos mais atentos, aficionados e praticantes, chegando o seu refrão a ser citado por um deputado em pleno Palácio de São Bento. No meu caso, e depois de muito revolver o enevoado baú das lembranças, arrisco-me concluir que este tenha sido o meu primeiro contacto a sério com a cultura. 


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