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Ilustração: Riça

Do hip hop para qualquer lado: Crónicas de um HipHopcondríaco é da autoria de Manuel Rodrigues.

Crónicas de um HipHopcondríaco #39: Alunos sem respeito

Ilustração: Riça

Surpresa das surpresas. Quando nada nem ninguém o fazia prever, como se de um gigantesco coelho a pular do interior de uma escura cartola se tratasse, eis que Eminem volta a invadir uma cerimónia de entrega de prémios (a primeira aconteceu em 2000, nos MTV Music Awards) desta feita a dos Óscares da Academia, realizada no Dolby Theater, em Los Angeles, para interpretar a velhinha “Lose Yourself”, presente na banda sonora do filme 8 Mile, de 2002. Foi uma espécie de aparição divina, convenhamos. Por um lado, pelo facto de Eminem entrar em cena no movimento de uma plataforma elevatória, transportando consigo um generoso leque de músicos, divididos entre baixo, bateria, guitarra, teclas, naipes de cordas e metais e ainda um DJ – uma verdadeira armada pronta a deixar uma marca numa das mais importantes noites da sétima arte. Por outro, por esta ser uma actuação desfasada do presente quer musical quer cinematográfico. De grosso modo, todos ficámos surpreendidos com esta descida (neste caso subida) do Olimpo.

Existe uma razão para tal ter acontecido, claro. Em 2003, na mesma entrega de prémios, Eminem, Jeff Bass e Luis Resto, a tripla responsável pela edificação de “Loose Yourself”, arrebatou o galardão na categoria de Melhor Canção Original. Eminem não marcou presença na cerimónia e não lhe foi possível interpretar o tema nem receber a estatueta em pessoa, tendo sido Luis Resto o único desta tríplice a subir ao palco. Em declarações exclusivas para o site Variety no rescaldo do momento musical, o rapper de Detroit explicou o porquê desta actuação surpresa e cronologicamente desenquadrada. “Como não tive a oportunidade de o fazer na altura [em 2003], achei que seria porreiro fazê-lo agora. Eu nunca pensei que tivéssemos hipóteses de ganhar e como tínhamos acabado de apresentar a canção com os The Roots nos Grammys umas semanas antes, não achámos que fosse boa ideia. Também se deve ao facto de nessa altura eu não sentir que um evento como os Óscares me fosse compreender”, revelou.

Mais à frente nas declarações, Eminem desmantelou ainda o boato de não ter actuado em 2003 por uma questão de princípios face à suposta vontade da Academia lhe censurar algumas passagens da letra. “Não foi esse o caso, até porque não existem assim tantos palavrões na música – apenas um ou dois. Não é de todo verdade”, remata. Quanto ao convite para este ano, o rapper afirmou que aconteceu de forma espontânea, alinhada com o lançamento de Music to Be Murdered By, o seu mais recente trabalho de longa-duração, também ele editado sem pré-aviso. Questionado sobre o porquê da actuação ter sido mantida em segredo, obrigando rapper e músicos convidados a ensaiar noutro espaço que não o Dolby Theather, Marshall Mathers explica que esta foi uma decisão que veio do próprio engenho industrial. “Eu acho que foi uma ideia desenvolvida por eles [Academia, manager e editora] antes de chegar a mim. Foi-me apresentado dessa forma e eu gostei da ideia de nem sequer fazer anúncio prévio”, conclui.



O resultado final valeu mais pelo factor surpresa e pelo evocar de um dos seus maiores clássicos (ainda para mais com o belíssimo arranjo orquestral que lhe concedeu uma fresca roupagem) do que pelo desempenho em si, o qual está longe de ser um dos seus melhores (abrir o YouTube e digitar as palavras “Eminem Rap God Live” ou simplesmente “Eminem Best Performances” para aceder a alguns exemplos): demasiadas vozes pré-gravadas e momentos em que a respiração prejudicou a métrica e deixou algumas palavras por dizer. Apesar de tudo, esta não era uma missão fácil, muito menos uma tarefa ao alcance de qualquer um. Afinal de contas, estamos perante um dos maiores astros de sempre da construção de frases e combinação de fonéticas.

Na plateia do Dolby Theater em particular e nas redes sociais em geral, as opiniões dividiram-se. Uns aplaudiram efusivamente o acontecimento e deixaram claro que Eminem ainda é nos nossos tempos um artista merecedor de respeito, apesar dos dois últimos episódios discográficos o aproximarem mais de um desesperado cuspidor de palavras do que de um exímio contador de historias e estórias. Outros consideraram a aparição descabida e despropositada, não escondendo alguma estranheza ou até desagrado por verem o maestro Marshall Mathers rodeado da sua orquestra rap: basta olhar para alguns dos planos das câmaras que sobrevoaram a plateia do teatro californiano para perceber isso. Em 2000, aquando da edição de The Marshall Mathers LP, Eminem invadiu a cerimónia dos MTV Music Awards ao som de “The Real Slim Shady”, uma actuação que recolheu manifestações entusiásticas no seio de uma audiência de celebridades e que ainda hoje resume bem o seu contributo para a democratização do hip hop (ideia que eu já tinha desenvolvido num artigo que o Rimas e Batidas publicou no início do ano).

20 anos depois, uma idêntica plateia olha para ele com uma certa desconfiança e repulsa. Não será um crime punível tratarmos assim os nossos professores?


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