Crónicas de um HipHopcondríaco #28: Cães danados

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

No passado sábado, risquei os Prophets of Rage da lista de bandas que quero ver antes de dizer adeus à vida terrena (uma forma de falar, claro). Na verdade, teria ficado mais realizado se ao invés dos Prophets of Rage tivessem sido os Rage Against the Machine mas, infelizmente, essa oportunidade já há muito me passou ao lado.

Da última vez que estiveram em Portugal, os Rage Against the Machine subiram ao palco do festival – na altura denominado – Optimus Alive, em 2008, 12 anos depois daquela que foi a sua primeira passagem por terras de Camões. Na altura, se bem me recordo, um grande grupo de amigos meus rumou a Algés para ver o colectivo de Tom Morello, Zach de la Rocha, Brad Wilk e Tim Commerford em acção. Eu, lamentavelmente, não consegui ir. Não tenho certas as razões. Talvez estivesse na altura no Algarve (região onde vivi uma boa parte da minha vida) e me fosse logisticamente impossível subir até Lisboa, talvez me encontrasse já em Lisboa a trabalhar e a data do concerto não coincidisse com um dia de folga, ou, a mais provável das três hipóteses, talvez não tivesse dinheiro suficiente amealhado para comprar o bilhete/passe.

O que realmente importa destacar é que não fui, e isso causou-me uma imensa amargura, principalmente sabendo que se tratava de um regresso para espectáculos ao vivo, depois de um hiato de cerca de sete anos e que, muito provavelmente, seria algo que não se voltaria a repetir. No dia a seguir do concerto no Optimus Alive, os relatos dos que marcaram presença foram invejáveis. Falava-se de um concerto estrondoso, como nunca visto, repleto de canções emblemáticas, muita energia em palco, atitude revolucionária ao mais alto nível, rematado com mosh pits de arrepiar. Um desses amigos que respondeu à chamada dos RATM, um tipo batidíssimo em concertos de punk e hardcore, chegou a dizer-me que tinha sido um dos melhores espectáculos da sua vida. Se já me tinha custado não poder ir, imaginem como não terei ficado depois destes fervorosos testemunhos.

Fui convidado pela BLITZ para fazer a reportagem da edição deste ano do Vilar de Mouros, festival por onde passaram artistas como Anna Calvi, Skunk Anansie, Offspring e, claro, os Prophets of Rage, entre muitos outros. Trataram-se, para mim, de dois reencontros e duas estreias. Se por um lado me voltaria a cruzar com os talentos de Calvi e dos britânicos Skunk Anansie (destaque, claro, para o ciclone Skin, que mais uma vez levou tudo à frente), por outro colocaria pela primeira vez os olhos e ouvidos nas bandas lideradas por Dexter Holland e Tom Morello. Os Offspring não desiludiram e assinaram um dos melhores concertos do festival (no top 5 da lista compilada no rescaldo do certame), enquanto os Prophets of Rage provocaram um sismo de magnitude imensurável que certamente se terá feito sentir em todo o concelho de Caminha.

Para quem não sabe, e deverão ser poucos os que realmente estão a léguas do assunto, os Prophets of Rage são constituídos por elementos dos Rage Against the Machine (Tom Morello na guitarra, Tim Commeford no baixo e Brad Wilk na bateria), Public Enemy (Chuck D nas rimas e DJ Lord nos pratos) e Cypress Hill (B-Real nas rimas). Pronta para fazer estremecer o chão que pisa, esta verdadeira armada dos anos 90 mune-se de canções do repertório dos três colectivos, com principal foco no património dos RATM; de uma mistura sonora milimetricamente ajustada, com o espectro de frequências todo no sítio e a zona grave a colidir como se deseja contra o peito, e, por fim, de uma plateia sedenta de ouvir clássicos como “Killing in the Name”, “Guerrila Radio”, “Bullet in the Head” e “Bulls on Parade”, citando apenas alguns exemplos.

Apesar de não substituírem Zach de la Rocha no exercício vocal, B-Real e Chuck D são muito competentes na sua missão, alternando entre si a responsabilidade de despejar ao microfone as letras do vocalista dos RATM. Morello, esse, é um espectáculo dentro do próprio espectáculo. A forma como trata a sua guitarra e as sonoridades que consegue sacar das suas cordas, pickups e pedaleira, leva-nos a concluir, se dúvidas ainda existissem, que há poucos neste mundo como ele. Não tem só a ver com o talento mas também com a abordagem ao instrumento. Não são poucas as vezes no concerto em que a guitarra de Morello não soa simplesmente a guitarra, assumindo novas texturas e até identidade – a certa altura ganha os contornos de um violino, por exemplo.

E depois há o peso causado pelas baquetas de Brad e pela vibração das cordas de Tim, dois elementos essenciais para a fórmula final. Sem eles não há ritmo nem dinâmica que faça o público saltar e centrifugar em ciclónicas rodas de encontrões e empurrões, levanto toneladas de pó pelos ares. Não marquei presença no Optimus Alive de 2008 e isto foi o mais próximo que consegui estar dos cães raivosos de Los Angeles. Serve de consolação.


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