Crónicas de um HipHopcondríaco #27: Contado ninguém acredita

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

A Kadoc foi durante muitos anos uma das mais emblemáticas discotecas do país, ou pelo menos uma das mais requisitadas do roteiro da noite portuguesa. Localizada no Algarve, no concelho de Loulé, este mastodôntico espaço, actualmente rebaptizado como LICK e com todo um novo código de conduta e missão (lá chegaremos), albergou um imensurável número de festas, repartidas por vários pisos, salas e até zonas exteriores. De tão grande que era, a Kadoc dava-se ao luxo de evocar um carácter heterogéneo. Havia a pista principal, onde cheguei a ouvir sets dos grandes DJs de techno, entre eles Dave Clarke e Jeff Mills, numa longínqua festa Technology; as salas superiores, por vezes dedicadas ao hip hop, onde se curtiam os grandes bangers da altura (falo dos anos que se seguiram à viragem do milénio), e o espaço exterior, ideal para respirar e recarregar baterias antes de regressar ao interior para mais uma enxurrada de decibéis. 

Ouvi a “Nightrain” um incalculável número de vezes, quase como se fosse um hino da casa – por vezes crua, na sua versão mais conhecida, outras vezes remisturada em longas maratonas de bombos e pratos de choque. “The Bells”, “Spastik”, “Higher State of Consciousness”, “The Man With The Red Face” e “Energy Flash” foram outros dos clássicos que rodaram no majestoso paralelepípedo algarvio. 

Havia uma certa mística no interior daquelas quatro paredes. Por fora, era um verdadeiro mamarracho com a palavra “Kadoc” escarrapachada em letras gigantes e um enorme parque de estacionamento que no final da noite servia de leito para corpos embriagados e de passerelle para um verdadeiro desfile de mortos-vivos. Por dentro, a discoteca tinha um ar quase industrial, com um passadiço de ferro que atravessava a pista principal, ladeado de duas escadarias, a partir do qual se vislumbrava de alto o público. Por cima das cabeças, junto ao tecto, erguia-se um verdadeiro arsenal audiovisual capaz de colocar qualquer amante da tecnologia em sentido. Era uma verdadeira catedral da dança. 

Apanhei a Kadoc ainda nos seus tempos áureos, muito antes das badaladas festas da espuma e do house azeiteiro que se apoderou das setlists dos DJs que por lá passaram. Confesso que cheguei a ir a uma dessas festas, por curiosidade, e jurei para nunca mais. Não fazia de todo o meu género, além de ser, acima de tudo, uma valente imundice – a espuma saía branca dos canhões e ganhava uma cor acastanhada ao chegar ao chão; isto para não falar, claro, do insuportável cheiro a químicos que ficava no ar.

Actualmente, a Kadoc, reerguida como LICK, goza de uma nova vida. Encontrou a direcção e a linguagem ideal para sobreviver e continua a ser um importante destino da noite algarvia. Mais gourmet e elitista, com uma forte programação para os meses em que o turismo aperta na região mais a sul. Um verdadeiro renascer das cinzas para uma discoteca que quase chegou a cair no esquecimento.

O episódio que mais me marcou na Kadoc foi o da noite em que Mokobé e Diam’s fizeram estremecer o chão da pista principal. Não me lembro do dia nem do ano mas sei que coincidiu com uma altura em que a discoteca andava a dedicar algumas das suas noite ao hip hop, algures entre 2000 e 2005 – ainda tentei procurar o panfleto do acontecimento no Google mas sem sucesso, não existe registo digital que tal tenha acontecido. Felizmente, guardo comigo uma prova de que não se tratou de um sonho. Aconteceu mesmo. Acreditem em mim.  

Quem acompanhe esta minha crónica desde o início sabe que passei uma boa parte da minha vida de antenas viradas para o hip hop francês (hoje em dia não tanto, apesar de ainda me manter atento). Tenho NTM, IAM, Psy4 de La Rime, Sniper, Booba, Fonky Family, Sinik, Mafia K-1 Fry, Diam’s e 113 como artistas de eleição. Tudo velha guarda, é verdade, mas todos donos de obras excelentes, as quais ainda hoje me dou ao trabalho de ouvir. A visita de Mokobé (113) e Diam’s a Portugal foi para mim uma dádiva de Deus. Contudo, na altura, sem o auxílio da Internet e do Facebook para conferir os eventos, cheguei a pensar que tal coisa não fosse acontecer, que tudo não passaria de um DJ set com foco nos dois artistas – afinal de contas, tratava-se de uma informação transmitida de um amigo para outro e de outro amigo para mim. Mas lá decidimos ir tirar as teimas.

O meu disco rígido interno guarda algumas memórias dessa noite. Lembro-me de um DJ que tratou do warmup com algumas das canções dos nomes que mencionei no parágrafo anterior e do carácter efusivo do público que, infelizmente, não preencheu o espaço por completo (houve um claro défice na divulgação do evento…). Lembro-me da entrada dos heróis da noite, altura em que as minhas dúvidas sobre a vinda dos rappers se dissiparam. Lembro-me de ver Mokobé a partir a casa toda e do estardalhaço que a sua intervenção causou. Mas lembro-me, sobretudo, de ver Diam’s pendurada na cabine DJ, de microfone na mão, a devorar por completo o seu caderno de rimas, com um flow de fazer inveja e uma presença indescritível. Não me recordo de todas as canções interpretadas pela dupla, como é óbvio, mas sei que o magnífico “Un Gaou a Oran” fez parte da festa. E só por isso foi memorável.

No final, tive direito a um autógrafo de Mokobé. Aparentemente, é a única prova física de que tal evento aconteceu…


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