Crónicas de um HipHopcondríaco #24: Agradável surpresa

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

“Uniting People of the World” era o lema da 23ª edição do festival Summerjam, o primeiro e até à data único festival fora de Portugal no qual marquei presença. Aconteceu em 2008, numa altura em que andava muito próximo da cultura reggae (apesar de ainda prestar alguma atenção ao género musical, nada se compara à ligação que mantinha há dez anos). O festival erguia-se – e ergue-se – nas margens do Fühlinger See, um lago artificial localizado a norte de Colónia, e é, como se conclui facilmente, inteiramente dedicado à música reggae.

A decisão de ir ao Summerjam aconteceu de forma quase espontânea. Procurei na Internet festivais além-fronteiras dedicados ao estilo (havia também o Rototom Sunsplash, realizado em Itália, no leque de possibilidades), marquei férias na empresa onde trabalhava, lancei o repto a um amigo, reservámos os bilhetes (fomos levantá-los a Paris) e fizemo-nos à estrada – no verdadeiro sentido da palavra, já que fomos mesmo a conduzir até à Alemanha, de mapa na mão, como ditam as regras das aventuras do asfalto antes do surgimento dos smartphones e das aplicações de navegação.

Houve de tudo nesta viagem, desde uma slot machine que nos garantiu o pagamento de todas as portagens da viagem de ida e volta (não me lembro ao certo do valor do prémio despendido pela máquina, em Espanha, mas sei que saímos do café com os bolsos a transbordar de moedas), a bebedeiras em áreas de serviço que nos obrigaram a pernoitar dentro da viatura, ao caos no Boulevard périphérique de Paris (equivalente à nossa 2ª Circular), e acabando, claro, na urgência de encontrar dormida no centro de Colónia (acabámos por pagar um balúrdio por um quarto do qual pouco ou nada usufruímos, vistos termos escolhido ir para os copos nessa noite).

Nada bateu, contudo, o episódio da montagem da tenda sob chuva torrencial e de só termos reparado, passada uma boa meia hora, completamente encharcados, que estávamos a tentar erguer o habitáculo ao invés da estrutura principal. Resultado: dormimos essa noite com a tenda completamente alagada.

Não me recordo ao certo se fui ao Summerjam pelo cartaz em si ou pela vontade de viver uma experiência diferente das que estava habituado em território nacional (apesar de se fazerem em Portugal festivais com nomes fortes da música reggae, a dimensão de um Summerjam estava a anos-luz de ser alcançada). Digo isto porque tenho a sensação de ter chegado à Alemanha e de, já no interior do recinto, de bilhete picado e pulseira colocada, ter finalmente olhado com atenção para o cartaz e decidido o que queria ver, a que horas e onde. Ou seja, sinto que só mergulhei a fundo no cardápio quando lá cheguei, quando senti que a coisa se estava mesmo a tornar realidade. Por isso sim, acho que o que me fez rasgar o asfalto em direcção à Alemanha foi mesmo a vontade de experienciar um festival inteiramente dedicado ao reggae, independentemente das bandas.

Vi concertos de Stephen Marley, Cocoa Tea, Dub Inc, Patrice, Culcha Candela, Jah Cure, Luciano, Jahcoustix, Cécile, Alborosie, Irie Révoltés, The Black Seeds e Ky-Mani Marley (entre muitos mas mesmo muitos outros). Houve, porém, um nome no cartaz – isto na altura em que traçava o roteiro dos espectáculos propostos – que me intrigou de imediato: Common. O meu lado hiphopcondríaco sugeria-me que pudesse ser o rapper norte-americano, mas o meu raciocínio lógico obrigava-me a crer que tal não fosse possível acontecer num festival com contornos bem desenhados. Tratar-se-ia, eventualmente, de um projecto reggae com o mesmo nome. Lembro-me ainda de teimar com o meu amigo sobre a possibilidade de ser ou não a pessoa que também responde por Lonnie Rashid Lynn: ele dizia que sim, eu respondia-lhe que seria muito improvável.

Ainda longe dos Facebooks e Instagrams desta vida, ideais para seguir a actividade dos nossos artistas predilectos, lá decidimos ir tirar a teima ao palco secundário (local escolhido para a actuação, num aprazível início de noite). E qual não é o meu espanto quando, depois das luzes apagadas e introdução feita com pompa, surge em cena o homem de “I Used to Love H.E.R” – metáfora que fala da cultura como se de uma mulher se tratasse, analisando a sua evolução desde os tempos em que a conheceu até à falência do sentimento (uma alusão à proliferação do gangster rap). Lembro-me do concerto como se fosse hoje. Plateia de ouvidos trancados no palco, para captar todas as palavras debitadas ao microfone, Common eficaz na entrega e acompanhado por um DJ que foi também ele irrepreensível na missão. Foi não só uma agradável surpresa como também um espectáculo memorável, possivelmente o que mais me marcou nesta aventura alemã.

Esse meu amigo tinha mesmo razão. Ainda bem que não apostei nada com ele.


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