Crónicas de um HipHopcondríaco #21: Aconteceu na Escócia…

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

Os momentos que se seguem à passagem do evento Gods of Rap por Glasgow são de intensa celebração. No The Strip Joint, bar localizado a escassos metros da SSE Hydro, arena oval que serviu de palco às actuações, a festa faz-se ao som de grandes clássicos de hip hop. Entre outras, ouvem-se “Hip Hop”, dos Dead Prez, “Jump”, dos Kriss Kross, “Full Clip”, dos Gang Starr, e, em jeito de rescaldo da noite de concertos, “Gravel Pit”, dos Wu-Tang Clan. Assim que soam as primeiras notas da secção de metais da música, a resposta é imediata no bar, com a letra a ser prontamente cantada por dezenas de fãs. Pena esta música não ter resultado tão bem ao vivo.

Não é todos os dias que podemos presenciar acontecimentos como aquele que rodou as Ilhas Britânicas (Londres, Manchester, Glasgow e Dublin) na semana passada. Ter os Public Enemy, De La Soul e Wu-Tang Clan em palco no mesmo espaço e na mesma noite é não só um privilégio como também uma benção. Trata-se de uma boa parte da história do hip hop norte-americano representada in loco, carne e osso, a poucos metros de distância. Não podia deixar escapar uma oportunidade destas. Contudo, para ser franco, o que realmente me fez comprar a passagem para Glasgow foi a possibilidade de ver a banda de RZA em acção. E que bem que soube.

O colectivo de Nova Iorque apresentou-se em palco com a formação quase completa (para desaire de muitos, Method Man faltou à festa), incluindo Young Dirty Bastard, o primogénito do falecido ODB – além de fisicamente se assemelhar ao pai, o jovem rapper reproduz as rimas e flows na perfeição. Secundado por um DJ e de frente para um mar de gente (13 mil pessoas é a capacidade máxima da sala ribeirinha), o clã deu voz a clássicos como “CREAM”, “Wu-Tang Clan Ain’t Nuthing Ta F’ Wit”, “Da Mystery of Chessboxin’”, “Protect Ya Neck” e “Triumph”, entre outros, num alinhamento que teve direito a covers (“Come Together”, dos Beatles, e “Mary Jane”, de Rick James) e passagens pelas caminhadas a solo de GZA (“The Mexican”, que recupera o original pertencente aos Babe Ruth), Raekwon (“Ice Cream”) e Ghostface Killah (“Black Jesus”).

Sempre me fascinou a faceta mais espiritual dos Wu-Tang Clan, da inclinação religiosa ao imaginário Kung Fu (boa parte dos samples utilizados pelo colectivo repescam frases às grandes películas da famosa arte marcial), passando pelos jogos de xadrez. É RZA o grande orquestrador da personalidade dos Wu-Tang. Em The Tao of Wu, livro assinado pelo próprio, o rapper e produtor relata algumas das viagens físicas e mentais que o ajudaram a esculpir o carácter do colectivo do qual é frequentemente apontado como líder. “Eu tinha 13 anos quando vi pela primeira vez o filme The 36 Chamber of Shaolin, sobre a história de um homem que treina para ser um monge de Shaolin e que decide, a dada altura, deixar o seu templo para ensinar ao mundo o seu Kung Fu. Nove anos depois, formei os Wu-Tang Clan, e deixámos Staten Island para mostrar ao mundo o nosso estilo de hip hop. Oito anos depois da formação, viajei até ao verdadeiro templo de Shaolin, vi a montanha Wu-Tang e senti tudo como parte de um só. Vi que éramos realmente aquilo que sempre quisemos ser: homens da Wu-Tang”, pode ler-se num dos primeiros capítulos da obra.

É por isso normal que grande parte da dinâmica do concerto gire em torno de RZA e das suas intenções. Não no âmbito da rima propriamente dita, até por que existem, no grupo, rappers mais eficazes na deposição de estrofes (GZA, Raekwon e Ghostface Killah são reis e senhores em palco), mas na condução da dinâmica e na cimentação desse tal pilar espiritual que tanto aprecio. É a sua voz que, logo no início do concerto, assente em melodias orientais de meditação, lança o mote para a noite, agradecendo às bandas que anteriormente pisaram o palco (fala dos Public Enemy, De La Soul e de DJ Premier), e alertando que estamos todos prestes a entrar numa nova dimensão, a dos Wu-Tang Clan, prontamente confirmada com a entrada de “Bring da Ruckus”.

Quase a meio do alinhamento, RZA faz uma chamada de paz a todos os presentes, recordando que a sua família de Shaolin também teve, em tempos, uma fase maculada, relacionada com as vivências de rua, onde a violência e as drogas ganham principal destaque, mas que encontraram a sua paz e equilíbrio através da música – a principal ideia do discurso do artista é mostrar que existe sempre forma de canalizar as energias num sentido positivo e benéfico. No caso dos Wu-Tang Clan, essa harmonia foi alcançada à boleia de histórias de templos sagrados, metáforas de combate e profundos exercícios de meditação, numa incessante procura por sabedoria, conhecimento e elevação – como explicado em The Tao of Wu.

Foi bom ouvir os clássicos, independentemente do facto de “Gravel Pit”, um dos meus temas predilectos, não ter sido servido nas melhores condições (faltaram as rimas de Method Man, pelas razões mais óbvias, e também o verso mortífero de Ghostface Killah, que não se atreveu a embarcar no agitado instrumental), mas foi melhor ainda presenciar em palco os guerreiros que tantas vezes me envolveram nos seus magníficos contos de espadas. Wuuuuu Taaaaaaang.


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