Crónicas de um HipHopcondríaco #20: Comprometer tudo numa questão de segundos

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

Uma noite como tantas outras nas imediações do Pavilhão Atlântico, actualmente rebaptizado como Altice Arena. Público de idade variada aguarda impacientemente a abertura de portas. Partilham-se histórias, ingerem-se os últimos tragos de cerveja, fumam-se os derradeiros cigarros. Pouco falta para o tiro de partida. As grades traçam o caminho para os acessos ao gigantesco barracão à beira-rio plantado e as escassas filas para picar o bilhete indicam que este não vá ser um concerto muito concorrido, como tantos outros que fizeram este mesmo espaço rebentar pelas costuras, daí a passagem pelo dispositivo de segurança acontecer com uma invulgar calma e tranquilidade.

No interior, as suspeitas confirmam-se. Arena reduzida a metade, com o palco montado algures a meio do espaço que normalmente serve de plateia, deixando, ainda assim, alguns círculos vazios na audiência. As bancadas estão igualmente despovoadas e é quase possível contar os assentos ocupados. Ainda assim, o ambiente é de arromba. Há quem aproveite para marcar presença na linha na frente, quem faça questão de se reabastecer do sagrado combustível que corre das torneiras que se erguem do outro lado do balcão do bar, e quem dance ao som da música ambiente que antecede o início da celebração.

Esta é, muito provavelmente, uma das fotografias que melhor guardo das primeiras horas da noite em que a dupla NAS e Damian Marley aterrou na capital portuguesa, a 14 de Abril de 2011, para um concerto no Pavilhão Atlântico inserido na digressão de apresentação de Distant Relatives, álbum conjunto editado em 2010. Escusado será dizer que enquanto fã da obra a título individual dos dois artistas e igualmente apreciador do trabalho que desenvolveram em conjunto, fiz questão de marcar presença neste que seria um acontecimento único.

Lembro-me bem da baixa afluência nessa noite (no dia seguinte, as notícias davam conta de menos de sete mil espectadores no local, o que, para uma arena com a capacidade de 20 mil pessoas, é muito pouco) mas ainda me lembro mais do energético e saudável ambiente que se fazia sentir no interior do recinto. Poucos mas bons, como diz o velho adágio. Adivinhava-se um concerto para mais tarde recordar. Acabou por ser. E não pelas melhores razões.

Distant Relatives foca-se no paradigma político-social africano. Mais precisamente em questões como pobreza, injustiça e desigualdade. É um álbum de reflexão e ao mesmo tempo de esperança. Acima de tudo uma proposta de paz e harmonia. E pode-se dizer que grande parte da noite fez jus à missão da obra, de Richie Campbell aos Orelha Negra, actuações escolhidas para garantirem a primeira parte, passando pelo DJ que tratou do aquecimento para NAS e Damian Marley. A destruição desse equilíbrio aconteceria precisamente nos primeiros minutos do concerto dos grandes anfitriões do evento.



Combinei ver este concerto com malta amiga do Algarve. Reunimo-nos no coração da plateia, ligeiramente descaídos para a esquerda de palco e a uns bons metros de um dos pontos de venda de bebida e álcool, localizado junto a um das saídas de emergência.

Não me recordo ao certo da música que deu o tiro de partida para a actuação do duo – que se fez acompanhar de banda e de um elemento cuja única função era agitar uma colossal bandeira rastafari – mas tenho a certeza que “As We Enter”, single do disco, foi uma das primeiras. Vigor nos instrumentos, sangue na guelra e uma resposta do público a condizer.

Tudo perfeito. Mas eis senão quando, do nada, se abre uma clareira na plateia e sinto um mar de gente a tentar fugir de algo e a empurrar-me na direcção do bar. Espreito por entre o anel de pânico que se criou, esperando tratar-se de uma espécie de mosh pit, e reparo que está alguém estendido no chão a ser pontapeado por um grupo. Tento perceber se a pessoa se está a conseguir defender, se há alguma coisa a fazer, mas os primeiros milésimos de segundo são automaticamente entregues ao instinto de salvação de uma multidão visivelmente assustada.

O concerto não chegou a ser interrompido (NAS e Damian Marley não se terão, muito provavelmente, inteirado da situação) e seguiu com a maior das naturalidades, como se nada tivesse acontecido. A plateia, por sua vez, nunca mais voltou a ser a mesma. O ambiente de celebração que havia dominado grande parte da noite foi invadido por uma aura de medo, insegurança e tensão. Ouvi “Hate Me Now”, “Welcome to Jamrock”, “Got Yourself a Gun”, “Hip Hop is Dead” e “One Mic”, mas o que mais guardo é certamente a quebra de energia que o acto de violência causou no público (pelo menos naquele que se encontrava na proximidade do incidente).

No dia seguinte, as notícias davam conta de dois feridos no seguimento das agressões, sendo que um deles teve que receber assistência médica no posto médico do Pavilhão Atlântico por ter sido esfaqueado na zona lombar (sete pontos de suturação).

Estava a ser uma festa tão agradável…


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