Crónicas de um HipHopcondríaco #17: O conteúdo e a forma

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

Illmatic é frequentemente apontado como o melhor álbum de NAS, rapper norte-americano, mais concretamente de Nova-Iorque, que conta com uma extensa discografia – onze discos, no total – e vários êxitos que se transformaram em autênticos hinos da cultura hip hop. Com uma forte componente lírica e uma sólida ligação às ruas, Nasir bin Olu Dara Jones, filho do trompetista e cantor de jazz Olu Dara, é um dos artistas mais respeitados dos Estados Unidos, sendo comummente aplaudido e acarinhado pelos seus pares, da costa oriental à ocidental, de norte a sul, todas as latitudes e longitudes possíveis.

Editado a 19 de Abril de 1994, Illmatic facilmente alcançou o estatuto de culto dentro e fora dos limites do género. E não sou eu que o digo. Na lista The 500 Greatest Albums of All Time publicada pela revista Rolling Stone, o álbum surge em 402º lugar, ao lado de Californication, dos Red Hot Chili Peppers, à frente de importantes marcos como Back to Black, de Amy Winehouse, e In Utero, dos Nirvana. Illmatic surge ainda em 1º lugar na lista 100 Greatest Hip-Hop Albums para o site About.com; em 5º na selecção The Critics Top 100 Black Music Albums of All Time para o site The Source, e em 2º na lista The Greatest Hip Hop Albums of All Time da MTV, perdendo apenas para Paid in Full, de ERIC B. & Rakim.

Illmatic, que se destaca por ser também a estreia discográfica de NAS, é um álbum de rima pura e dura assente sobre instrumentais simples e crus, quase todos a cargo de DJ Premier e Large Professor, onde o prodígio de Queensbridge coloca a nu toda a sua destreza, por vezes acompanhado, como serve de exemplo “Life’s a Bitch”, na qual se faz secundar pelo seu colega de crew AZ, mas maioritariamente só, com adrenalina na língua e um olhar cerrado naquilo que o rodeava na altura. Illmatic é um conjunto de recortes do quotidiano entregue por um jovem de 20 anos que focou a sua atenção nas vivências de rua, das drogas aos problemas com a polícia, das mortes precoces às desavenças entre gangues, quase sempre com uma nesga de esperança e positivismo.

Do álbum destacam-se os clássicos “N.Y. State of Mind”, “Life’s a Bitch”, “The World is Yours” e “It Ain’t Hard To Tell”, entre outros, e uma importantíssima linha: “I’m out for presidents to represent me”, retirada de “The World is Yours”, utilizada por Jay-Z  num dos seu maiores clássicos, “Dead Presidents II”. A frase viria a ser posteriormente usada como arma de arremesso no desentendimento que os dois artistas nutriram durante anos, com o próprio Jigga a disparar em “Takeover”, um dos temas de ataque a NAS, a mortífera linha “so yeah, I sampled your voice, you was usin’ it wrong / you made it a hot line, I made it a hot song”.



Não obstante o facto de ser o álbum mais aclamado, a par de Stillmatic (2001) e talvez It Was Written (1996), Illmatic não é de longe a minha obra predilecta de NAS. Alberga instrumentais bons, rimas ainda melhores e dicas que se tornaram frases-chave no seio do movimento, contudo, se formos falar de um todo, da coesão entre elementos e do resultado final apresentado, dou preferência a Hip Hop Is Dead, editado em 2006. O oitavo episódio discográfico de Nasty Nas, nome pelo qual também responde, é significativamente mais maduro e desafiante, não só do ponto-de-vista das estrofes servidas e temáticas abordadas mas também no que diz respeito à escolha dos instrumentais e edificação da obra.

Ao longo de 17 temas, Nasir Jones assina um muito discutível obituário do hip hop, puxando muitas vezes dos seus galões enquanto figura incontornável da cultura e guardião de um certo código de conduta que faz constantemente questão de evocar. Não sou de todo defensor de discursos conservadores e muito menos saudosistas, já fiz questão de o sublinhar inúmeras vezes nos meus textos, todavia, em Hip Hop is Dead, NAS fá-lo de forma habilidosa, recorrendo a metáforas inteligentes e argumentos fortes – tudo assente numa narrativa estimulante que se inicia em “You Can’t Kill Me” e “Carry on Tradition”, atravessa o tema-título e “Who Killed It?”, e aterra na apaixonante “Can’t Forget About You” e na belíssima a cappella “Hope”. 

Por altura da sua edição, Hip Hop is Dead gerou alguma polémica. O título do disco e a mensagem transmitidas não foram bem aceites por alguns parceiros de profissão que não se reviram na visão apocalíptica do rapper nova-iorquino. Mas NAS foi inteligente ao ponto de se ter rodeado de nomes importantes do meio como Kanye West, Will.i.am, The Game, Jay Z e Snoop Dogg: uma forma de garantir que as suas palavras ganhariam outra força na hora de as debitar ao microfone. Este é daqueles casos em que, mesmo não concordando com o conteúdo, sou obrigado a fazer uma vénia à forma. Hip Hop is Dead está muito bem conseguido e ficará para sempre lembrado como o álbum em que NAS e Jay-Z enterraram oficialmente o machado de guerra – as tréguas haviam sido alcançadas em 2005, com uma interpretação ao vivo de “Dead Presidents II”, com os dois rappers a pisarem o mesmo palco, porém, só em “Black Republican” é que o armistício é realmente assinado.

Vale a pena recordar.


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