Crónicas de um HipHopcondríaco #15: Saber dar o primeiro passo

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

“No mundo, uma em cada quatro pessoas será afectada por distúrbios mentais ou neurológicos a certa altura da sua vida”. A frase poderá ser encontrada no press-release de um relatório publicado pela World Health Report (WHR) a 4 de Outubro de 2001. O estudo acrescenta ainda que “cerca de 450 milhões de pessoas sofrem [à data do estudo] de tal condição, colocando os distúrbios mentais entre as principais problemas de saúde e incapacidade a nível global”.

Fundada a 7 de Abril de 1948, a World Health Organization (WHO), por nós conhecida como Organização Mundial de Saúde (OMS), é uma agência das Nações Unidas especializada na saúde pública internacional. Actualmente, as prioridades incluem as doenças infecciosas, como HIV, ébola, malária e tuberculose, a mitigação de doenças não infecciosas, a nutrição, a segurança alimentar e o abuso de substâncias. A WHO visa ainda impulsionar o desenvolvimento de relatórios, publicações e networking sobre a matéria, sendo por isso responsável pela World Heath Report, uma publicação iniciada em 1995 que tem como principal foco providenciar a informação necessária para serem tomadas as devidas políticas e as decisões certas de financiamento na área. 2001 foi o ano em que a WHR dedicou o seu relatório anual à saúde mental.

“Existe tratamento”, continua o mesmo press-release. “Contudo, cerca de dois terços da população com doenças mentais nunca procura a ajuda de um profissional. O estigma, discriminação e negligência impossibilitam que o tratamento chegue às pessoas com problemas. Onde existe negligência, existe pouca ou nenhuma compreensão. Onde não existe compreensão, existe negligência”, sublinha.

O relatório, intitulado Saúde Mental: Nova Concepção, Nova Esperança, convida os governos a tomarem decisões e escolhas estratégicas para impulsionarem uma mudança positiva na aceitação e tratamento das doenças mentais, adiantando alguns curiosos e importantes números. “Mais de 80% dos doentes de esquizofrenia podem ver-se livres de recaídas depois de um ano de tratamento com medicamentos antipsicóticos combinados com acompanhamento familiar. Cerca de 70% dos doentes de epilepsia podem libertar-se das grilhetas quando tratados com anticonvulsivos simples e baratos. Cerca de 60% das depressões podem ser tratadas com uma apropriada combinação de antidepressivos e psicoterapia”.

Este é um estudo que data de 2001, muita coisa terá mudado até aos dias de hoje. Contudo, há um factor que ainda parece sobreviver aos avanços da ciência: a aceitação. Num artigo publicado em 2017 na Psychology Today, intitulado Eight Common Challenges to Accepting a Mental Mental Health Problem, Lauren Mizock fala sobre os grandes desafios da aceitação de uma doença mental, uma espécie de anexo do livro Acceptance of Mental Illness: Promoting Recovery Among Culturally Diverse Groups que escreveu em parceria com Zlatka Russinova. A leitura do artigo transmite que, apesar de não ser fácil e de todos os obstáculos inerentes, este é um importante passo para procurar um tratamento.

Em 2007, Saïd M’Roumbaba, mais conhecido como Soprano, membro do colectivo de hip hop francês Psy4 de La Rime, procurou resolver os seus problemas através da gravação e edição de Puisqu’il Faut Vivre – traduzido em português para algo como “e porque é preciso viver” – um álbum em formato de terapia que afastou os seus fantasmas e o ajudou a emergir do mar depressivo onde há muito vivia mergulhado.



Recuemos um par de anos. Em “Comme une Bouteille à la Mer”, um arrepiante tema pertencente a Enfants de La Lune, álbum dos Psy4 de La Rime editado em 2005, Soprano já havia lançado sérias pistas sobre a sua condição psíquica. Este é um retrato de um náufrago em busca de um porto seguro, uma ilha ou um simples pedaço de madeira que lhe permita continuar a lutar pela vida depois dos vários episódios que o empurraram borda a fora do barco que ainda equilibrava as suas emoções: a pobreza que o acompanhou em infância, as desilusões da vida, a solidão, o insucesso escolar, a tendência perpétua à melancolia, as constantes discussões com a mãe, o drama de viver com um pai ausente e, por fim, um filho que nunca chegou a conhecer, entregue pela sua ex-mulher aos serviços de acolhimento franceses, a DDASS.

Todos estes acontecimentos contribuíram para que Soprano, artista de descendência comoriana, desenvolvesse episódios de ansiedade, depressão e angústia. Por diversas vezes, como relata nas suas músicas, Saïd terá tentado colocar termo à vida – “sofri ao ponto de querer cortar os pulsos”, pode ouvir-se em “Mélancolique Anonyme”. Como refúgio, Soprano terá esvaziado um elevado número de caixas de Prozac, um potente antidepressivo que tem como princípio activo a fluoxetina.

2007 é o ano de viragem. E é à boleia de Puisqu’il Faut Vivre que isso acontece. Ao longo de 17 temas, Soprano exorciza os seus males, num exercício de autoterapia metaforizado em consulta de psicologia. Do primeiro ao último tema, o autor de “Comme une Bouteille à La Mer” assume a posição de paciente num consultório, sentado confortavelmente num divã (como é possível testemunhar na própria capa do disco), e expõe os seus problemas ao mundo. Dramas familiares, a dor de não poder ver o seu filho, a incapacidade de lidar com o lado mais negativo e extremista da religião que segue, o Islamismo, mas também alguns momentos isolados de alegria e felicidade que, apesar de serem de curta duração, ainda vão colorindo o seu quotidiano.

“Este álbum melhorou a minha vida pessoal, ajudou-me a fazer boas escolhas”, admitiu Saïd numa entrevista para o Le Journal du Dimanche a 29 de Novembro de 2007, numa espécie de rescaldo pós-consulta. “Se eu não tivesse aberto as válvulas das minhas emoções, teria guardado tudo para mim e acabado amargurado. O rap é o meu divã”, rematou confiante. Ainda que não se saiba se Soprano procurou mesmo acompanhamento profissional para curar os seus males, além, claro, de toda a terapia desenvolvida no disco, a verdade é que, a dada altura da sua vida, aceitou ter um problema e procurou resolvê-lo. Conseguiu dar esse importante passo. Terá sido meio caminho andado.


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