Carlos Maria Trindade no Lux: Quem disse que a electrónica era fria e sem emoção?

[TEXTO] Vasco Completo [FOTOS] Hugo Silva

Quase a encerrar um 2018 repleto de concertos, o Lux, em Lisboa, albergou a 3ª edição do Red Bull Music presents Locals Only. A noite prometia, por ser especialmente preenchida pelos nomes que juntava e pela variedade estilística dentro da electrónica com que éramos presenteados.

Na cave do mítico espaço lisboeta, a parafernália de Carlos Maria Trindade intrigava qualquer espectador: víamos um piano de cauda, um teclado, computadores, sintetizadores, pedais e ainda um violino.

O músico entrou, sentou-se ao piano que ocupava uma grande porção do palco e levou-nos imediatamente para uma peça solitária e emotiva. Assim que terminou a música, relatou um pouco sobre como começou a tocar piano muito novo e a origem da música na sua vida. Ao longo da sua apresentação falou sempre um pouco sobre o contexto em que cada uma surgiu, uma prática talvez mais habitual em universos mais eruditos ou académicos, e que nesta ocasião trouxe uma proximidade inesperada com Trindade.

Seguiu-se “West” de Mr. Wollogallu, em que ouvimos arpejos de piano durante a faixa. Seria apenas a primeira visita ao mítico disco reeditado recentemente pela catalã Urpa i Musell, que tanto em estúdio como no concerto recebeu especial atenção da audiência. Na primeira parte de concerto, em que o piano foi peça central, o músico ainda apresentou “improvisações estilizadas” suas — “Plano” do disco colaborativo com Canavarro, e “Aurora Boreal”. Trindade referiu que há músicas feitas com ligações e ideias mais robustas, outras que servem um propósito de canção de quatro minutos. Esta dualidade sintetizou bem o que compõe e como vê o seu processo criativo a uma primeira instância.

 



A primeira parte do concerto serviu para ressalvar as suas valências interessantíssimas como pianista, remetendo-nos para nomes mais recentes como Yann Tiersen ou, talvez, Nils Frahm. A tipologia de composição neoclássica para piano do músico, sem ser representativa de uma inovação e virtuosismo estrondosos, apresentou uma escrita soberba, harmoniosa e sonhadora.

A introdução da electrónica no seu espectáculo veio depois, com duas peças que denominou “Ready Made”. Uma “composição influenciada pelos sons e não o contrário,” em que alternou, como afirmou, entre os papéis de músico e DJ. Assim, pelo uso de samples, loops e sintetizadores, trouxe uma sonoridade incisiva com enfoque nos teclados e batidas, que transportaram a plateia para os anos 80, apontando para Vangelis ou Jean Michel-Jarre, por exemplo.

“The Joy Of Sadness” aproximou novamente o músico do piano e trouxe ainda o seu único acompanhante neste concerto — encontrou-se quase sempre solitário e rodeado da tal parafernália electrónica. A divagação sobre a tristeza colectiva da cultura lusitana com referência à literatura nacional resultou na parte do concerto mais intrigante ao nível dos timbres e do trabalho com a electrónica ambiente. “The Struggle”, uma “canção instrumental”, ligou os teclados e o violino processado a loops de sons exóticos, dignos de serem associados a um “quarto mundo” – tal como preconizado por Jon Hassell. O companheiro de palco controlou toda a melodia e a electrónica de “Guiar”, último piscar de olho a Mr. Wollogallu e a música mais celebrada pela audiência.

Para terminar, Carlos Maria Trindade apresentou quatro excertos de uma banda sonora que compôs no ano passado para um documentário sobre a vida na Terra, que anunciou como uma amostra de “10 segundos para o futuro”. O ambiente criado pelo músico foi embrulhado em tensão, com sintetizadores distorcidos e vocoders, a juntarem impecavelmente timbres de várias tipologias de electrónica, pegando principalmente no industrial à la Trent Reznor, mas numa abordagem totalmente singular de um dos nomes incontornáveis da música pop escrita em português.

Esta viagem prometida por Trindade foi cumprida com excelência. Quase que no significado literal de showcase, mostrou uma variedade estilística interessante ao longo do seu trabalho, mas demonstrou, principalmente, que se mantém como uma valência na música que merece atenção após todos estes anos e trabalhos.

 



De uma geração totalmente diferente, Surma fez-se acompanhar por dois intérpretes/dançarinos que ocuparam a pista de dança para avisarem que existiam dois “cabeças de cartaz” para esta noite. Débora Umbelino foi indubitavelmente uma escolha acertada para esta festa que pretende celebrar a arte local que deixa marcas no panorama. Em 2017, a artista apresentou o seu álbum de estreia, Antwerpen, levando a sua sonoridade única a um público vasto e actuando nos mais variadíssimos palcos, tanto nacionais como internacionais.

A multifacetada artista entregou-se completamente à performance, entre loops e pads, sintetizadores e teclados, baixo e guitarra. Um one woman show ímpar, englobando ainda a vertente interpretativa e improvisada da dança que deu novas dimensões ao universo musical que construiu.

Importante ressalvar “Maasai”, uma música que resulta muito bem ao vivo; “Voyager”, um dos seus temas mais fortes em que percute o que parece ser uma mala de viagem (mais simbólico era impossível); e “Nyika”, talvez o seu som mais club oriented.

 



A noite prolongou-se com iZem, que trouxe batidas entre o hip hop e as derivações por ritmos brasileiros, latinos e africanos. Num cenário lisboeta que tem Enchufada e Príncipe Discos a propagar a sua sonoridade de maneira estrondosa, a relevância do produtor francês (quase) nem precisa de ser justificada: ouçam Beni Lane e tirem as vossas próprias conclusões.

A iZem juntaram-se ainda Carolina Lethô – que representou Portugal na edição de 2018 da Red Bull Music Academy – em b2b com David Rodrigues e a editora No, She Doesn’t, que trouxe o house para a equação com a ajuda de DJ Baywatch, DJ Spielberg, DJ Permission e DJ Legwarmer.

Sentimos calores de vários tipos no Lux: uma noite dedicada a todos os que dizem que a música electrónica é fria e sem emoção.

 


ReB Team

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