LP / CD / Digital

Capicua

Madrepérola

Universal Music Portugal / 2020

Texto de Alexandra Oliveira Matos

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Mais de uma década depois do primeiro murro na mesa da mais importante MC portuguesa — que se ouviu com estrondo em Capicua Goes Preemo –, Capicua volta a lançar uma pérola fruto das areias que a incomodam. Madrepérola subiu a palco pela primeira vez em Dezembro de 2019 e o Rimas e Batidas esteve no Teatro Trindade, em Lisboa, a ouvir de ponta a ponta o terceiro disco desta trilogia aquática. Depois de Sereia Louca e Medusa que nos deram música que envelhece tão bem, Ana Fernandes deixa-nos mais 13 faixas com uma ameaça de ponto final. Mas tentemos não pensar na saída desta figura do panorama da cultura hip hop nacional. 

Debrucemo-nos no balanço azul e líquido, na riqueza da língua que Capicua conjuga em cada uma das letras que escreve, nas bandeiras que hasteia com as suas prosas – a liberdade, a igualdade, o feminismo. E comecemos pela declaração de intenções de “A Ostra” — com palavras emprestadas por Rubem Alves, poeta, cronista, ensaísta, teólogo, professor universitário e psicanalista brasileiro. Capicua dita aqui o tom introspectivo e assume que tudo o que se segue são reflexões sobre os seus desconfortos. Quem não o compreendeu talvez se assuste com a nova passada que Ana deu ao beat de “Flor de Maracujá” de Stereossauro. Numa cama musical lindíssima sobre a qual a letrista já tinha escrito, existem agora em “Passiflora” as respirações que tão bem lhe conhecemos entre frases compridas sobre a indústria musical, o panorama do hip hop nacional e as críticas que carrega há mais de uma década. O refrão cantado por Camané permite-nos descansar e reflectir. Existirão rostos a atribuir a estas críticas? Têm estas sido construtivas para a carreira de Capicua? São estes os motivos que a levam a escrever “aproveitem este disco porque pode ser o último”? Porque é que não surgem mais mulheres neste cenário? O hip hop é e será sempre machista? Respostas que este álbum não nos dá, mas que não fazem dele um documento menos válido para pensar em tudo isto. Ainda mais quando sabemos que Madrepérola foi construído durante e logo após a primeira gravidez da rapper.

Por falar nisso, poderão ter esperado que a partir de agora Capicua só soubesse falar da maternidade, mas este disco veio bem provar o contrário. Apenas duas letras remetem mais objectivamente para o tema. Porém, até essas, dada a mestria lírica da autora, podem remeter-nos para uma criação bem menos literal do que parir uma criança. “Parto Sem Dor” tem um beat de Holly com um embalo que faz lembrar colo. “Último Mergulho” traz-nos de volta o balanço de Sereia Louca — tal como “A Minha Ilha”, mas já lá passamos — com instrumental de D-One, e está escrita como se de uma prece se tratasse. É aqui muito bem-vinda a participação de Lena D’Água a reforçar os predicados das lutas de Ana Fernandes, numa música em que é sublinhado o ser-se mulher.



Talvez fruto do percurso que temos visto Ana Fernandes fazer — como cronista, por exemplo — a sua escrita tem vindo cada vez mais a seguir o trilho da construção de paisagens. Estas são uma constante neste álbum e já se notavam em músicas mais antigas como “Casa no Campo”, “Alfazema” ou “A Mulher do Cacilheiro”, mas parece que agora se tornaram mesmo a assinatura inconfundível de Capicua. “A Minha Ilha” desperta os cinco sentidos e coloca-nos novamente num lugar à beira-mar, num cenário idílico de relaxamento e contemplação. Aqui a ajuda de Catarina Salinas no refrão é fundamental, na sua voz o poema de Sophia de Mello Breyner torna-se arejado e ainda mais sonhador. “Circunvalação” faz um retrato divertido da cidade do Porto. “Todo o Chão Quer Ser Floresta” cheira a terra húmida e coloca-nos a abraçar troncos de árvores com vontade de nos (re)conectarmos à natureza.

O “lado solar” que Capicua quis trazer a este trabalho nota-se bem em “Gaudí” e “Planetário”, letras que só podiam ter sido escritas por um ser de bem com o seu lado feminino. São duas músicas alegres e orelhudas, talvez daquelas pedidas até à exaustão nos concertos, tal como “Vayorken”. Com maior costela no boom bap, há “Cartas a Jovens Poetas”, “O Quadrado Perfeito”, “Madrepérola” e “Mátria”. Destacamos ainda a que fecha o álbum e nos lembra, talvez pelas vozes de Emicida, Rincon Sapiência e Rael, do projecto Língua Franca. Capicua parece fazer aqui um laçarote final entrelaçando as suas tomadas de posição e declaração de intenções.

“Madrepérola” merece um parágrafo à parte. Não só por dar nome ao álbum, mas principalmente por nos transportar para aquela noite de Red Bull Music Culture Clash, em 2018, em que Capicua carregou como ninguém a equipa de uma luta tão necessária de mulheres, não só com mulheres, para todos. 

Hoje, em 2020, muita coisa mudou e muita coisa há para mudar ainda. Este álbum, mais do que outros de Capicua, mas como todos os outros da sua autoria, são importantes para que não se percam memórias, sensações, e sobretudo para que se olhe e ande em frente numa luta pela igualdade que está longe de terminar. Costuma dizer-se que “em casa de ferreiro espeto de pau”, mas também se diz que as mudanças se fazem a partir de dentro e temos a certeza de que Capicua tem feito as opções certas para mudar o nicho cultural que escolheu habitar. Até aceitamos que este álbum seja um ponto final na sua trilogia aquática, mas desejamos que não seja a última vez que ouçamos letras novas numa respiração e métrica tão inconfundíveis.


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