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Fotografia: Luis Almeida

O sucessor de Sereia Louca em antestreia em Lisboa.

Capicua no Teatro da Trindade: a mãe de todas as pérolas

Fotografia: Luis Almeida

“Ostra feliz não faz pérola”, nem Capicua cria álbuns apenas fruto de felicidade, mas fá-los felizes. Felizmente. E Madrepérola, o terceiro da sua trilogia aquática, está mais alegre que os anteriores, mais “solar” como disse a artista em palco.

Se quiserem saber mais de antemão, estão no sítio certo. Ainda falta um mês para poderem, finalmente, ouvir um álbum que merece ser dissecado, mas a antestreia deu-nos a oportunidade de perceber o que aí vem: neste trabalho, Capicua é a prova de que o rap, um género plural que é de quem o quiser (e souber) utilizar como veículo de mensagens, só pode amadurecer através da evolução do seus protagonistas. E Ana Fernandes está, claramente, no momento mais maduro e consciente da sua carreira.

No Teatro Trindade INATEL, em Lisboa, as cadeiras encheram-se maioritariamente de famílias. Os sorrisos viam-se dos 8 aos 80 anos para receber em primeira mão a pré-estreia (incluída no Ciclo Mundos) do LP da artista do Porto . Na retaguarda da rapper juntavam-se Virtus, D-One, Sérgio Alves, Luís Montenegro, Sérgio Alves, Inês Pereira e Joana Raquel. A meio do palco, uma pérola e a artista do Porto, animada e faladora, foi contando a história de cada música deste “disco que pode ser o último”, deixou o aviso.

As ostras fazem pérolas quando há um grão de areia que entra nelas e as incomoda. Capicua fez uma dezena de músicas com as areias da vida e começou por rimar no beat de Stereossauro, “Flor de Maracujá”. Numa escrita e cadência que são só suas, falou do hip hop em Portugal e teceu críticas aos “pseudo profetas” e àqueles que “preferem promessas daqueles que desistiram”. O tema “Mátria”, que tem um instrumental com sabor a samba de Branko e com participações ainda por revelar, fechou em grande uma apresentação que cumpriu tudo o que se lhe pedia (e ainda garantiu um bónus com a interpretação de faixas de Língua Franca, Bairro da Ponte, From Scratch e Capicua).

Houve ironia e optimismo em todas as canções, algumas inspiradas nas crónicas que escreve quinzenalmente para a revista Visão, como é o caso de “A minha ilha”, outras construídas de cacos dos dias, como é o caso de “Gaudí”. E “Circunvalação” é puro boom bap, tão agitado como o sample de “The Message” de Grandmaster Flash & The Furious Five.

A maternidade foi, claro, tema incontornável. Afinal de contas, Capicua escreveu, gravou e editou este álbum enquanto gerava e colocava no mundo o seu primeiro filho. “Parto Sem Dor” pode remeter para esta fase da sua vida, mas “Último Mergulho”, com Lena d’Água no refrão, descreveu melhor o sentir “na barriga outro coração”. “Planetário”, com Mallu Magalhães, poderá muito bem vir a tocar em repeat nos headphones dos fãs da MC; “Cartas a Jovens Poetas” respondeu aos que procuram Capicua como ombro sábio no rap nacional. E houve ainda “Todo o Chão Quer Ser Floresta”, um acto de fé de quem vive em 2019 e tem consciência da emergência climática declarada e tão presente.

É certo que ficou muito por captar — e isso fica reservado para quando o longa-duração sair oficialmente –, mas o essencial não escapou. E pedimos emprestadas as palavras do poeta Rainer Maria Rilke, uma referência utilizada pela própria artista, para fechar este texto: Capicua e a sua música amadureceram como uma árvore que não força a própria seiva. O resultado está à vista de todos.


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