LP / Digital

By Storm

My Ghosts Go Ghost

deadAir / 2026

Texto de Leonardo Pereira

Publicado a: 19/02/2026

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É curioso o que vai acontecendo nas vidas de quem nasce, de quem vê nascer, de quem morre, e de quem vê morrer. No interregno de cada um desses acontecimentos há a música — sempre a música. Tanto o fazê-la como o ouvi-la, o participar nela, o reclamá-la para nós próprios, a interpretação do que dela precisamos de ouvir e do que rejeitamos entender conscientemente. Criamos uma relação com o nosso interior e com o mundo através do que ouvimos, quer queiramos quer não. Criamos uma perspetiva do mundo que é unicamente informada pela música que ouvimos. Entre os fantasmas e a sua materialização física, surge o código de desencriptação do que há de etéreo em nós através de ondas sonoras. Um algoritmo de como afastar espectros.

Eis, então, o decifrar do luto conjunto de RiTchie e de Parker Corey em By Storm, depois da morte prematura de Stepa J. Groggs, com quem partilharam o come up nos Injury Reserve. A vida continuou, e durante a procura pela saída desse labirinto impossível de percorrer sem a alteração do “eu” que é um luto, RiTchie, que ouvimos em todas as faixas com um timbre diferente, apontando-nos para uma certa metamorfose constante, descobre que será pai, embarca num par de tours, atravessa dores financeiras e físicas — resumindo, vive a vida, apesar da vida. E não deixa de a celebrar sempre que pode, não obstante o quão ridículo possa parecer brindar à vida nestas circunstâncias. O seu cantar nunca é repetitivo ou monótono. Mas os slogans recorrentes empurram em nós um sentimento de angústia inultrapassável, de confusão inocente, de raiva propositadamente equivocada, quase como uma espiral infinita. Um loop, não é?

Em “Can I Have You For Myself?”, a faixa que abre o novo My Ghosts Go Ghost, RiTchie é ternurento e vulnerável, reconhecendo a sua egocentricidade, escondendo-se atrás de um amor omnipotente para reivindicar uma pessoa só para ele. Cordas melancólicas a recordar um bardo medieval crescem para lhe acolher a voz em pitch up, que versa o que parece ser um reconhecimento da sua própria pequeneza em relação ao carinho que sente. As cordas vão-se transformando em sons recheados de reverb, que trinam gradualmente mais alto, sobrepondo-se a um bruaá industrial, como se nos levasse ao fundo da sua alma e a todas as guerras que há dentro dele, enquanto a repetição de “can I have you for myself” se vai esvaindo entre todo o barulho. São quase dois minutos de um instrumental que inicia a descida ao caos que é este projeto. Ao longo do disco, deparamo-nos com vários momentos destes, de um total domínio do instrumental a aproximar-se de free jazz, com a emoção da voz do rapper do Arizona a transformar-se em camadas e camadas de sons orgânicos e sintéticos, refletindo todos os processos emocionais de todos os dia-a-dias vividos pelos integrantes do duo By Storm. É nestas conjunturas que a magnitude do álbum se compreende da melhor maneira, quando o véu se levanta e RiTchie e Corey desfilam emocionalmente. Permitem que o ouvinte consiga criar uma ligação intangível com a música e com eles próprios. Todos os elementos confluem para afastar fantasmas, tanto os que merecem a pontaria como os alheios, que sofrem por tabela, tal é a concretização do propósito da dupla.

“Dead Weight” alegoriza o peso que as dreadlocks acrescentam ao corpo de RiTchie e os comentários que recebem, equiparando-as à dificuldade de ultrapassar um trauma, com a frase do refrão “I woke up in a sweat with yesterday still stuck to me like glue” a protagonizar um dos destaques mais poéticos do álbum, de novo com um plano instrumental contundente, com a percussão a inserir pratos a serem martelados e a mergulhar-nos num estado de ânsia. 

Acalmamos e emergimos com uma resignação aos nossos próprios sentimentos e ao burbulhar que é a descrição de um estado emocional catastrófico em “Grapefruit”, encontrando no seu cerne a vermelhidão da toranja — vibrante e sumarenta. O tom de RiTchie adota essa complacência enquanto se permite a momentos de efervescência, uma cadência que, mais uma vez, é claramente intencional. É uma oscilação que nos obriga a confrontar o nosso próprio desequilíbrio, que em “In My Town” encontra um pico com o rapper a soar muito mais assertivo, como se se estivesse a queixar das coisas mais insignificantes, autorizando-se a debitar amarguradamente sobre as cordilheiras do desespero que é existir. Parker fecha a faixa numa tangente instrumental que se repete, envolvendo-nos num crescendo sufocante que se recusa a chegar a um clímax e finaliza de forma abrupta. A entropia, de certo modo, é um tema constante, e esta é a forma que os dois encontram para nos transmitir um sentimento de catarse e de superação apesar de todos os contratempos.

A conformidade a essa crueldade e a aceitação da continuidade infinita que é a vida chega em “Zig Zag”, devolvendo-nos a um caos instrumental mais controlado, onde o conselho oferecido é o de não ziguezaguear aleatoriamente, mas encontrar um propósito e reconhecer o passado como algo finito. Na alteração química sónica que é “Best Interest”, confiar no próximo é pouco aconselhado — o “outro” agora é uma ameaça e um obstáculo. Cordas sinuosas trilham na distância, como se corvos distantes num filme de terror se tratassem, áugures de algo desastroso e malévolo, obrigando-nos a um estado de alerta a roçar o anti-social. Os graves inundam-nos de um sentimento de isolação, o eco da voz de RiTchie deixa de soar desesperante para o ouvirmos receoso, reservado, num medo preparado para contra-atacar o mais pequeno desafio. O tom ribombante do convidado billy woods põe um ponto final e resume esta ideologia: “Whoever sent you, tell them I said, ‘Who wants to know?’“.

A reta final do disco, estonteantemente rebentada com um coro de sopros dissonantes que se conseguem sempre encontrar, simboliza-nos para o início de uma cura. Aquele que foi o terceiro single de antecipação do LP, “Double Trio 2”, surge como lição de como dois seres humanos, que ainda têm as marcas na pele de inúmeros zeitgeits interiores em sucessivos momentos, poderão serpentear a vida. Na desarrumação do instrumental, somos apresentados a um mapa de fuga de incêndio em que a saída final é apenas o aprender a viver, não escapando, mas dentro das labaredas. A esperança nunca esteve ausente, e isso é claro no timbre que ouvimos. O auge milagroso da conjunção da percussão e dos sopros leva-nos a picos pouco explorados da purgação do que é negativo em nós. Que fique claro que a emoção no disco não se situa unicamente nas letras de RiTchie — os beats de Corey transportam-nos a extremos de êxtases e de desesperos com uma transparência violenta, e carregam tanto o fardo de elevar a música como a purificação verbal. No final desta malha, RiTchie apenas vomita palavras com a sentida necessidade de as pôr cá para fora, eliminando-as dos ciclos intermináveis que danificam tudo em que batem repetidamente. 

Eleva-nos ainda mais em “And I Dance”, o mais próximo de um gospel que ouvimos em My Ghosts Go Ghost, numa evolução de sintetizadores brilhantes, crescentes e angelicais, como se de luz divina no apocalipse se tratassem. “There’s nothing to run from, it’s all brand new” ecoa lentamente até ao final e, de novo, os fantasmas recuam cinco passos, agora de costas. “GGG” é simples no melhor sentido da palavra e serve de conclusão perfeita para este processo. A cortina vai-se fechando com uma guitarra dedilhada com atenção, um loop fechado que nos permite respirar profundamente e perceber que a calma não se encontra só antes da tempestade; também se encontra depois — na música, na vida, no que nos rodeia e em quem amamos, nas pessoas que já nos deixaram. A mensagem é clara e sabemos que RiTchie não a quer guardar só para si. O mundo também sai a ganhar cada vez que ela é partilhada.

O futuro dos By Storm não está decidido, mas o passado parece que está processado, e dessa jornada encontram uma clareira em que conseguem restabelecer a sua posição como um dos grupos mais propensos a explorar territórios pouco aventurados no hip hop e a fazê-lo de uma maneira memorável. Já não nos deparamos com o party rap de Floss ou de Drive It Like It’s Stolen, e a superficialidade emocional de Injury Reserve (2019) foi esburacada até encontrar um âmago muito mais desagradável, existindo aqui uma continuação clara do trabalho que foi começado em By The Time I Get to Phoenix. A discografia cresce e os By Storm amadurecem, lado a lado, cada vez mais como faróis que lideram o caminho e demonstram o que é possível fazer partindo de nós próprios, rejeitando a estagnação e os critérios de uma indústria e de uma sociedade restritiva. My Ghosts Go Ghost afastou fantasmas e mostrou-nos o quão bem sabe essa separação, descrevendo a superação com uma fisicalidade visceral e sangrenta, concluindo uma cirurgia etérea aos cantos mais recônditos de uma alma com um final. Não perfeito, não calamitoso, mas um final — que servirá, também, de começo.


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