Já amanhã e sexta-feira, na Culturgest, Bruno Pernadas apresenta ao vivo unlikely, maybe. No sábado, o mesmo espetáculo chegará à Academia de Espinho. Estes concertos, de acordo com o próprio Bruno Pernadas, são a primeira resolução pública de uma equação complexa. Para estas datas de estreia, o guitarrista, produtor e compositor sobe ao palco com uma formação alargada composta por José Diogo Martins (teclados), António Quintino (baixo), João Correia (bateria), Jéssica Pina (trompete e voz), Maria João Leite (voz e saxofone), Teresa Costa (flauta, na Culturgest), Leonor Arnaut (voz em três temas) e Afonso Cabral (voz). O próprio compositor dividir-se-á entre tocar e dirigir, como é habitual nas primeiras apresentações, quando a máquina ainda está a ser afinada em tempo real.
Desde How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge? (2014) que Bruno Pernadas se afirmou como um dos criadores mais singulares da música portuguesa contemporânea. Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them (2016) abriu-lhe portas internacionais, Worst Summer Ever (2016) consolidou uma escrita onde pop psicadélica, fusão jazzística e arranjos meticulosos convivem sem esforço aparente, e Private Reasons (2021) aprofundou essa tensão entre sofisticação harmónica e fluidez melódica. Paralelamente, multiplicou-se como produtor, arranjador e compositor para cinema, teatro e dança, construindo um percurso coerente apesar da diversidade de meios para que desenvolveu trabalho.
Em unlikely, maybe, há sinais de deslocação para novos territórios. A capa abandona a estética das colagens e mostra a sua própria mesa de trabalho, substituindo o imaginário exótico até aqui usado para ilustrar os seus lançamentos por uma dose de realidade que pode traduzir o carácter meticuloso do seu trabalho. Por outro lado, a música aproxima-se de um jazz mais espiritual e deixa entrever novas coordenadas. Nesta conversa, que prolonga o recente “faixa-a-faixa” publicado no Rimas e Batidas, fala-se dessa transição, das referências assumidas e recusadas, da obsessão pela concretização em estúdio e do palco como nova equação por resolver.
A capa de unlikely, maybe marca uma ruptura evidente com o imaginário visual dos teus discos anteriores. O que te levou a abandonar as colagens e a optar por uma imagem tão concreta como a tua mesa de trabalho?
Quis afastar-me deliberadamente da ideia das colagens e desse imaginário mais exótico e construído que marcou os discos anteriores. Ainda houve uma tentativa de encontrar um compromisso entre as duas linguagens, mas não resultou. A certa altura percebi que fazia mais sentido assumir essa mudança de forma directa. A mesa é a minha mesa de trabalho. Não costuma estar tão desarrumada, mas é real. Há objetos pessoais, pequenas coisas espalhadas, mas nada pensado como easter eggs. A escolha da imagem tem a ver com essa vontade de tornar o objecto mais concreto, menos ficcional. É a matéria real onde as coisas acontecem. Essa mudança também reflecte uma procura musical diferente, embora eu sinta que ainda não consegui ir tão longe quanto gostaria. Estou num processo.
Essa transição sonora é consciente? Sentiste necessidade de te distanciares da linguagem dos discos anteriores?
Sim, mas não por rejeição. Não é que eu não goste do que fiz. A questão é outra: interessa-me fazer coisas diferentes. A vida é isso. Imagino que um próximo disco possa aproximar-se ainda mais daquele jazz espiritual associado a Don Cherry ou Alice Coltrane — essa linhagem mais cósmica, aberta. Não no sentido de copiar, mas porque é uma música que me diz muito e cada vez mais. Ouço esse tipo de música desde a adolescência. Lembro-me de ter uma cassete com uma compilação onde estavam Last Poets, Free Jazz do Ornette Coleman, Sun Ra, coisas ligadas ao universo do Tony Allen. Na altura ouvia aquilo sem saber exactamente o que era. Hoje percebo melhor essa linguagem e sinto-me mais próximo dela. Este disco já aponta nessa direcção, mas ainda não tanto quanto eu gostaria. Há músicas que ficaram de fora e que eram ainda mais diferentes. Só que exigiam outro tipo de trabalho, quase uma residência com o ensemble, porque não estavam totalmente escritas. E juntar oito pessoas durante uma semana, quando algumas vivem fora do país, não é simples.
Quando se escuta este disco é natural identificar ecos de certas referências aparentes como Beatles ou talvez até Milton Nascimento, tanto pela construção melódica como por certas estruturas harmónicas. Que referências reconheces nesse mapa afectivo?
Quando componho, não estou a pensar directamente em referências. Não faço uma música a pensar que vai soar a alguém. Mas aquilo que ouvimos fica connosco. Os Beatles foram muito importantes para mim desde muito cedo. Tinha cinco anos quando comecei a ouvi-los. A minha irmã mais velha fazia compilações em cassete e eu cresci a ouvir aquelas sequências como se fossem álbuns oficiais. Só mais tarde percebi que aquela ordem não correspondia aos discos originais. Isso marcou-me. Gosto muito de Beatles, mas também de Beach Boys. Funcionavam de forma diferente: os Beach Boys eram muito centrados no Brian Wilson, enquanto os Beatles tinham uma dinâmica mais plural. Quanto a Milton Nascimento, curiosamente não é uma referência directa para mim. Reconheço a importância, mas nunca aprofundei a discografia. Sei que isso surpreende muita gente. Uma referência brasileira que me é muito próxima é Piry Reis, sobretudo aquela fase ligada à fusão electrónica dos anos 70. Ele é uma influência forte nesse universo.
O disco também marca uma renovação na formação que te rodeia. O que motivou essa mudança?
Houve razões práticas e artísticas. Sempre quis tocar com o Diogo Alexandre, que vive em Barcelona e está muito ligado ao jazz e à improvisação. Convidei-o e gravámos juntos. Para as músicas mais próximas do universo pop, fazia mais sentido manter o Joca [João Correia] na bateria. O José Soares já estava em duo comigo há dois anos, por isso foi natural incluí-lo. O nosso saxofonista anterior saiu de Portugal. No baixo, quis alguém que tocasse eléctrico e contrabaixo. Não fazia sentido ter duas pessoas e o António Quintino reunia essas condições. A Teresa Costa surgiu por sugestão do José Soares. Tem um trabalho muito interessante na área da música contemporânea, com uma pesquisa forte sobre o som enquanto objecto artístico. Houve ainda participações pontuais, como o Eduardo Raon e a Leonor Arnaut. Foi uma mudança orgânica.
Já disseste que a melhor parte do processo é a concretização. O que significa isso exactamente?
É quando a ideia deixa de ser pensamento e passa a existir. Quando faço a maquete e aquilo se materializa pela primeira vez, essa é a primeira concretização do objecto artístico. Essa maquete é a primeira paixão. Depois começa outro processo: ensaiar, gravar, misturar, masterizar. E isso implica ouvir a música vezes demais. Este foi o disco com maior atraso da minha vida. Descarrilou por questões de agenda e porque confiei que conseguiria fazer tudo dentro do tempo. A mistura demorou dois meses. Ainda recentemente tivemos de refazer o master por causa de um detalhe técnico. Eu gostava que o processo de mistura não tivesse de passar tanto por mim. Poderia delegar, mas raramente encontrei alguém que misturasse música pop sem alterar significativamente o som. E essas decisões mudam a música. Acabo por ter de estar presente. O problema é que, quando se ouve demasiado uma música, perde-se frescura. E depois ainda é preciso tocá-la ao vivo.
E é aqui que entra o palco. Levar este disco para a Culturgest e para Espinho implica resolver novas equações?
Sempre. Nunca componho a pensar nos concertos. Isso cria problemas mais tarde, porque é preciso rearranjar tudo. Estou neste momento em longas sessões de edição de partituras para adaptar o disco à formação que vai estreá-lo. Para estes concertos teremos oito músicos em palco, mais uma convidada. É uma formação específica para a estreia. Depois, em digressão, tentaremos reduzir — porque levar nove pessoas para palco em Portugal é uma loucura. Nos primeiros concertos estou muitas vezes mais a dirigir do que a tocar. Só depois de estabilizar é que consigo assumir plenamente o meu instrumento.
O que pode o público esperar destas apresentações?
Com esta formação específica, apenas estes concertos. A Culturgest terá mais amplas condições técnicas, por isso será uma oportunidade muito particular de ouvir o disco neste formato alargado. Haverá vinil e CD disponíveis. Desta vez o fabrico foi feito em Portugal, o que facilitou o processo. São concertos de estreia no sentido literal da palavra: é a primeira vez que esta equação será resolvida em palco.