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Fotografia: Manuel Abelho

A Avenida da Liberdade voltou a sentir o pulso de Nosso.

Branko no Teatro Tivoli BBVA: dançar na cadeira na nova Nova Lisboa

Fotografia: Manuel Abelho

Quase um mês depois de voltarmos às salas para assistir ao concerto de Dino D’Santiago no Campo Pequeno, em Lisboa, a segunda saída aconteceu sob a batuta de Branko. Na primeira de duas datas, o músico usou o Teatro Tivoli BBVA a seu bel-prazer, mostrando-nos (através de vídeo, luzes e som) que era, muito provavelmente, o DJ e produtor português que mais bem preparado estava para todas as mudanças e imposições que surgiram nos últimos meses.

Ao entrar na sala, não houve espaço para confusões: máscaras colocadas para tapar boca e nariz (que só voltariam a sair do sítio depois de sairmos do edifício), álcool-gel nas mãos e organização cuidada para se evitarem males maiores. Afinal de contas, e até nos podemos esquecer disso por breves instantes, é na Área Metropolitana de Lisboa que se concentram o maior número de novos casos de COVID-19, dados importantes que perdem peso na hora de saborear o momento, mas que voltam a ser preocupação mal saímos do espaço. Não era certamente esta a nova Lisboa que se cantava a plenos pulmões há dois anos, mas é a que temos.

Quando olhámos para o palco, lá estava a mesa com o equipamento de João Barbosa e, à frente, uma cadeira, um elemento estranho ao cenário, principalmente se pensarmos que não existia qualquer anúncio oficial relativamente a convidados. O elemento inusitado era mais um dos sinais de que a noite estaria longe de ser normal. Sentado e de microfone na mão, o co-fundador da Enchufada começou por agradecer a quem permitiu que esta noite finalmente acontecesse e falou sobre este “espaço novo” que a música ao vivo terá de encontrar.

Num momento que lembrava mais o início de uma apresentação de uma instalação audiovisual do que propriamente de um espectáculo musical, Branko ainda recorreu ao humor para brincar com a situação (“dá para dançar na cadeira”, atirou) e reforçou a necessidade de nos adaptarmos aos novos tempos. E fê-lo já com a lição estudada — não nos podemos esquecer que a data original já falava em “palcos menos óbvios” –, só não se esperava que a dança fosse controlada e a lotação reduzida por questões de segurança.

Se a conjuntura não permitiu participações em carne e osso em cima do palco, contornou-se, ainda assim, a situação: João Gomes (teclas), Eu.clides (guitarra) e Iúri Oliveira (percussão) voltaram ao terreno — vimo-los em acção a 22 de Maio, no YouTube –, dando brilho e vida a temas como “Over There”, “Stand By” e “B.leza”. Houve ainda aparições de um coro composto por quatro cantores (que iniciou a festa e voltou a surgir a espaços para criar camadas vocais em alguns temas), Sara Tavares (na remistura de “Ter Peito e Espaço” com Fred à mistura na bateria), Cachupa Psicadélica (“Paris – Marselha”), Catalina García (“Agua Con Sal”), Pierre Kwenders (“Amours d’Été”), Princess Nokia (“Take Off”), Mayra Andrade (“Reserva Pra Dois”, com direito a harpa como elemento-extra) ou Mallu Magalhães (“Sempre”).

Na sala, mas sem saírem dos seus lugares, Dino D’Santiago (muitos pescoços a virarem-se para ele em “Tudo Certo”, uma das canções mais celebradas do alinhamento), Conan Osiris e Ana Moura também se fizeram ouvir através de vídeos pré-gravados. Novo normal, dizem eles. Habituem-se.

Lá para o meio do concerto, mensagem importante de outro notável embaixador da música lusófona: Kalaf apareceu em grande destaque no ecrã e não meteu paninhos quentes. Abordou directamente a “plateia corajosa” e a “indústria criativa”, que “pode e deve fazer melhor para reflectir a diversidade”, chutando a intervenção com um “racismo não tem espaço em democracia”.

No resto do tempo, a parte visual (trabalhada por Catarina Limão) reuniu imagens captadas para diferentes projectos de Branko, levando-nos a viajar (um verbo tão pouco utilizado ultimamente) por diferentes terras, discotecas e tempos. Por esta altura, a vontade era esquecer o corpo e deixar a mente apanhar o balanço e soltar-se para ir até onde quisesse. Chamem-lhe os efeitos secundários de ser obrigado a ouvir música de dança num lugar sentado…

Apesar de se manter a ordem em grande parte do tempo — dançou-se freneticamente no mesmo sítio e interagiu-se bastante através de palmas –, o calor das músicas afro-tropicais-electrónicas ajudaram a que a certa altura se perdesse a vergonha, por assim dizer. Num gesto punk adaptado aos temos que vivemos, Branko (o único a suar até ali) incitou à rebeldia e a obrigatoriedade de ficarmos presos à cadeira perdeu-se por breves momentos. O difícil foi voltar a convencer todos a sentarem-se, com alguns resistentes (que não levantaram ondas) a terem de ser (a)visados mais do que uma vez pelos responsáveis da sala.

Com os bares e discotecas com um futuro incerto, qual é o espaço para música que exige movimento de corpos, explosões imprevisíveis de energia, pista de dança e envolvimento físico com o som? Para Branko, que construiu o seu espaço para ter o privilégio de estar onde está, a reinvenção já era uma obrigação e esta foi só uma maneira forçada de fazê-lo, mas e os outros? Foi, sem dúvida, uma noite especial e bonita, mas o escapismo terminou nos segundos depois do final do espectáculo, mal sentimos a obrigação imediata de recolher para casa.

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