Black Alien no Village Underground: o público, os espaços e o hip hop a esgotar salas

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTOS] Direitos Reservados

Alguns temas têm sido recorrentes nas discussões que tenho tido com músicos, promotores e colegas nas últimas semanas. O primeiro, e sendo mais uma suspeita minha do que outra coisa, estava essencialmente relacionado com a vasta oferta musical em Lisboa nos últimos tempos, e que promete estender-se nas semanas que se avizinham. Sentia que talvez tivéssemos mais oferta do que público para fazer face à panóplia de eventos, concertos e performances que inundam a cidade e se encavalitam uns em cima dos outros. Logo de caras, e pelo menos neste primeiro ponto, é bem provável que me tenha enganado.

Este sábado, no Village Underground, Black Alien esgotou uma sala com capacidade para mais de 400 pessoas num evento que se começou a desenhar há cerca de três semanas e que, colocando todos os factores na balança — o facto do espaço ser ainda desconhecido, um concerto inserido numa festa carioca que está agora a construir o seu nome na cidade, a difícil acessibilidade e a relativa ignorância do grande público português sobre o trabalho do rapper – carregava consigo uma considerável dose de risco. A verdade é que Black Alien subiu ao palco do espaço na Avenida da Índia pouco depois da uma da manhã para jubilo da plateia que o aguardava desde as 23 horas (coube ao DJ brasileiro Bruno Reis o warm-up da festa Carrapetas) acompanhado do infalível DJ Castro, um dos membros do extinto Quinto Andar (De Leve, MC Marechal), e não poderia ter pedido melhor recepção. DJ Kwan, DJ Maddruga (que também tocou no final) e Muleca XIII foram alguns dos nomes que não quiseram deixar de receber o veterano do Rio.

As poucas pessoas que do lado de fora tentavam escapar ao calor que se fazia sentir dentro da sala correram para receber o “Mr. Niterói” às primeiras batidas de “Área 51”, faixa que abre Abaixo de Zero: Hello Hell. De contagiante sorriso no rosto e segurança na “função”, Gustavo Ribeiro passeou-se pelas canções do mais recente trabalho perante um público que tinha as letras e as melodias na ponta da língua. Não foram raros os momentos em que o público substituiu o rapper nos refrões, principalmente quando começam a entrar clássicos como “Babylon by Gus”, “Como Eu Te Quero”, “Perícia na Delícia” ou “Mister Niterói”, já no encore.

Por duas ou três vezes, o músico dirigiu-se à plateia, maioritariamente brasileira, para ora expressar uma visível e genuína gratidão pela casa cheia, ora contextualizar os mais distraídos em relação a alguns temas do seu trabalho, com ressonância na história e no percurso de vida do rapper carioca. Poucos fundem o ragga com o boom bap clássico como ele e trazem produções que tanto têm um gostinho de contemporaneidade na produção de Papatinho, como vão beber dos melhores hits à la Busta Rhymes nas batidas de Alexandre Basa. A carreira e as provas dadas estão aí, aos olhos e ouvidos do público, o que nos leva à segunda questão.

Se público já percebemos que temos, o que nos falta talvez sejam as salas, principalmente no que ao crescente circuito do hip hop em Lisboa diz respeito. O calor infernal que se fazia sentir no espaço fechado do Village Underground ou a deficiente extracção de fumo não ajudaram a criar a sensação de tempo que passa a voar quando assistimos a um bom concerto. Por outro lado, foi preciso um esforço redobrado, que causou algum desconforto, para que se conseguisse ouvir a “lírica bereta” de Black Alien por cima das backing tracks. Pouco mais de dois meses depois dos conterrâneos BK e Sain terem dado um espectáculo sem espinhas naquela que parece ser a única — e já curta – sala para receber o melhor do hip hop nacional ou internacional na cidade, Black Alien aterra numa Lisboa com dificuldades para encaixar os melhores representantes do género em venues que lhes façam jus, à medida que o mercado – e principalmente o da lusofonia — se expande a olhos vistos. 


Núria Rito Pinto

Núria Rito Pinto

Hip hop, r&b e brasilidades com tanta moderação quanto vontade. Fundou o clube de fãs da “Corda” do Boss AC, já comprou CDs pela capa e preferia comer douradinhos frios todos os dias do que ficar sem Spotify.
Núria Rito Pinto