Beware Jack sobre Classe Crua: “Sinto que esta é a minha grande obra”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Sebastião Santana

A partir de hoje, 10 de Junho de 2019, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas passa a ter um novo motivo para ser celebrado: o longa-duração de Beware Jack & Sam The Kid, um dos mais esperados dos últimos anos, acaba de ser disponibilizado (aqui e aqui) através da TV Chelas, funcionando como a confirmação definitiva das qualidades do primeiro enquanto letrista de primeira categoria e da reafirmação do segundo como um dos melhores produtores, na verdadeira acepção da palavra, em território nacional.

MC Jordan, Jack Da Ripper e Beware Jack são partes da personalidade artística de Fábio Timas, rapper de Odivelas que acaba de se juntar a Samuel Mira para Classe Crua, ambicioso álbum que também conta com participações de nomes como Chullage, Phoenix RDC, RAPadura, Francisco Rebelo, João Gomes, Silab ou AMAURA.

Nos últimos 10 anos, o MC construiu obra considerável: Mustang (2009), O Mundo é Meu (2011), Coisas de 1 Porco (2013), A Memória de Futuro (2014) e OPROCESSO (2016) são marcos óbvios. Apoiou-se em beats de DJ Yoke nos primeiros passos, integrou o projecto “live” Bling Projekt e criou um dos melhores LPs de 2016 em estreita colaboração com Blasph. E além disso tudo ainda teve tempo para assinar participações certeiras em faixas de Praso, ORTEUM, J-K, Sensei D. ou TNT, por exemplo.

No final das gravações do videoclipe de “Cobra Capelo”, faixa que abre o alinhamento do novo disco, BW Jack sentou-se à conversa com o Rimas e Batidas e abriu o jogo sobre o caminho que o trouxe até este momento.



Quando é que vocês se sentaram e decidiram que iam fazer um disco?

A cena aconteceu até de certa forma natural e imprevisível, porque o natural às vezes é bastante imprevisível ou o imprevisível, às vezes, acontece de forma bastante natural. Basicamente, eu tinha-o convidado para entrar no meu álbum com Bling Projekt e, aquando da participação dele, ou pelo menos da primeira vez que estivemos juntos, fui buscá-lo a Chelas, ele trouxe a MPC e eu fiquei: what the fuck? Fomos para o meu home studio, ele ligou a MPC, começou a rodar beats e disse que curtia fazer um álbum comigo. E foi aí que começou a nascer um bocadinho a ideia do nosso álbum.

E quando é começam a trabalhar nisso?

Diria que 2016. 

E houve logo um conceito inicial ou foi só trocar ideias?

Foi muito trocar ideias, não fizemos aquele álbum específico para x ou para y, foi espontâneo. É um álbum que fala muito de mar, de marés cheias e de ambiente marítimo, mas aconteceu de forma espontânea e natural. 

E já que falas nisso, como é que surgiu a ideia para a capa do disco?

Foi o Francisco Gomes que tirou a foto da capa. Basicamente estávamos a fazer uns planos numa piscina, por causa do videoclipe que também temos para sair para “A Minha Praia”, e decidimos tirar umas fotos para ver se resultava para a capa. E resultou na perfeição. Tem a ver com o ambiente do álbum. 

Voltando ao “ambiente marítimo”: de que forma é que isso marca o projecto?

Atravessa o disco e são detalhes em que vais reparando nas minhas dicas… há sempre um acessório que eu largo que tem a ver com o mar. 

Foi espontâneo?

Foi uma cena espontânea. Estava nessa vibe de falar do mar…

Por alguma razão especial?

Não, não te sei explicar. A certo e determinado momento, o Sam comenta isso comigo porque tinha reparado que eu [estava a fazê-lo] em algumas músicas, então deixou de ser ingénuo para ser um bocadinho mais propositado e aproveitei essa deixa para carimbar as músicas ao longo do álbum. 

Como é que aparecem estes colaboradores todos?

Foi gravado e captado nos estúdios do Fred Ferreira, portanto há ali muito de Orelha Negra no álbum. Os músicos que entram a nível de produção tem a ver com o Sam. A nível de rappers sempre tive muita vontade de trabalhar com o Chullage e com o Phoenix R.D.C… o RAPadura é uma participação que me aparece um bocadinho caída do céu porque estávamos em minha casa a rodar beats, que ele tinha vindo do Brasil para dar uns concertos na Europa e parou aqui em Portugal durante uma ou duas semanas e tive oportunidade de estar com ele. Estabeleceu-se uma relação imediata entre mim e ele. O Silab também é um miúdo cheio de qualidade. Tive super gosto em trabalhar com ele. 



Sente-se que todas as participações foram cirúrgicas: tinha que ser a pessoa certa para não soar forçado.

Gostei muito da forma como o pessoal se envolveu no nosso trabalho e acho que isso está bem patente nas músicas. 

Em 2015 dizias que este álbum ia ser sujo como os álbuns de Madlib com MF DOOM. Agora que está terminado, continuas a achar o mesmo?

Continuo a achar o mesmo, mas se calhar um bocadinho mais cuidado, mais atento aos detalhes, coisa que o MF DOOM e o Madlib não gostam de fazer. Não gostam de aprumar a música até ao último milímetro. É raw e soa a raw, e o nosso álbum, como tivemos muito tempo a trabalhar nele, fomos polindo e tem um aspecto mais clean do que aquele que tinha sido inicialmente programado. 

Em termos de escrita, como é que foi o processo? Reescreveste muito?

Eu demoro muito tempo a escrever por si só. Eu já faço esse exercício comigo mesmo. Diariamente tento sempre escrever alguma coisa. Gosto sempre de ter duas ou três letras em aberto. Respondendo à tua questão: houve muitas músicas que tive que redigir outra vez porque entretanto achava que não estava no nível a que me deveria apresentar ou por sugestão do Samuel. Foi sempre um processo muito intenso a nível de escrita. 

No outro dia, quando falámos ao telefone, dizias que estavas na tua “melhor fase de rima“. Tendo em conta isso, qual é que achas que é o teu lugar no panorama nacional, neste momento?

Estou na minha melhor fase de sempre a rimar e sinto isso. O álbum é um reflexo disso mesmo porque finalmente eu consigo lançar um disco que me acompanha no tempo e no espaço. Houve outros álbuns que eu fiz que foram lançados com um ano de espaçamento face [ao término] da última música. E este álbum não, esteve em constante construção, ou seja, o álbum foi construído e as músicas ainda não estavam todas terminadas. Eu pude brincar com isso e ir trabalhando as músicas o melhor que eu pudesse porque tinha tempo para tal.

E já estão a pensar no live? A ideia é ir para a estrada com este disco?

Não posso adiantar muito. Mas está pensado para tocar ao vivo. Há um formato robusto que está a ser delineado. 

Para um contador de histórias como tu, existe alguma forma de recolhê-las? É tudo de pessoas próximas?

É uma coisa de amigos. Eu gosto de utilizar o Beware como um personagem que pode narrar uma história que é minha ou tua sem ter a responsabilidade do Fábio nesse assunto. Por exemplo, “SofrerPorTeAmar” é uma música que é um storytelling completo. Aí estou-me a desresponsabilizar enquanto pessoa e estou a transportar essa responsabilidade toda para o artista, ou seja, o artista é que toma rédea desse tema. 

Comparando com outros discos, achas que estás menos críptico a escrever?

Está menos encriptado e mais fácil a nível de consumo.

Mas foi auto-imposto?

O meu crescimento e a minha evolução leva-me um bocadinho para aí. Se calhar estou um bocadinho mais biográfico nesta altura. Estou mais concreto na mensagem que quero fazer chegar às pessoas. E isso são coisas que o tempo me foi dando, estou com 30 e poucos, já rimo há uns anos, tenho algumas experiências de trabalhar com pessoas diferentes…

Sentes que este disco é o mais ambicioso da tua carreira?

É, mas não é uma aposta desmedida, nem são expectativas desmesuradas, é tudo muito realista e muito controlado. Mas sinto que a minha grande obra é esta, com o Samuel.